Bibliografia

Apresentação do livro Weltbürger no Arquivo Literário Alemão de Marbach

ARQSHOAH

RG:
BBG/470

Tipologia:
Apresentação de livro

Sobrenome:
Eckl

Nome:
Marlen

Data:
2014-09-16

Páginas:
5

Artigo:

APRESENTAÇÃO DO LIVRO WELTBÜRGER NO ARQUIVO LITERÁRIO ALEMÃO DE MARBACH,
Marbach, Alemanha,16.09.2014

LEITURA de um trecho do livro Weltbürger, por Maria Luiza Tucci Carneiro, seguido de perguntas elaboradas por Marlen Eckl.

DEBATE com perguntas formuladas pela historiadora Marlen Eckl:

1) Marlen Eckl: A postura antissemita sustentada pelo regime Vargas não apenas foi influenciada pelas teorias antissemitas disseminadas pela Europa nas décadas de 30 e 40, mas também tinha suas raízes na mentalidade racista persistente no Brasil desde os tempos coloniais. Você poderia explicar a interação entre esses duas posturas que influenciaram a política imigratória restritiva do regime Vargas e também falar sobre a persistência dos preconceitos para com os judeus na classe política. Pois algumas leis ficaram em vigor também sob o governo Dutra.

Tucci: Não vejo aqui duas posturas e sim uma única: a antissemita: o que muda são os fundamentos: nos tempos coloniais a fundamentação era teológica; e a partir do século XIX, os argumentos eram psedo-científicos. Ou seja: o antissemitismo deve ser compreendido enquanto um fenômeno de longa duração sob o viés da História das Mentalidades. Desde os tempos coloniais, o Brasil conviveu com uma série de mitos sustentados pelo pensamento católico conservador, pela pseudo-ciência, pelo Estado autoritário e, principalmente, apoiado na ignorância que interfere no imaginário coletivo instigando ações intolerantes. O discurso racista que circulou entre 1500 e 1776 persistiu no Brasil apoiado no mito da limpeza de sangue ( herdado da Espanha e Portugal), assim como, no deicismo e no mito do judeu errante, dentre outros. Os judeus, cristãos-novos, mouros, ciganos, mulatos e negros eram interpretados como inferiores aos cristãos-velhos, acusados de serem da “raça infecta, impuros, indignos de confiança, pelo sangue que “lhe corria nas veias”. É o que defino como antissemitismo tradicional,de fundamentação teológica”. A partir da segunda-metade do século XIX, a “questão judaica” passou a ser interpretada com base nas pseudo-teorias raciais importadas da Europa e que sugeriam soluções para acelerar o branqueamento da população brasileira. Este é o antissemitismo moderno: preserva o conceito de raça inferior e que ganhou forças a partir de 1933, fortalecendo o mito ariano. Este é o discurso endossado por autoridades políticas, diplomáticas e segmentos de intelectualidade católica brasileira, além de médicos e psiquiatras adeptos das soluções propostas pela Eugenia.

Marlen Eckl: O projeto etnico-politico não apenas consistiu da política imigratória restritiva. O Brasil, naquela época, estava em busca do "novo homem brasileiro" e por isso advogou a brasilidade e a modernização do país. Qual foi o idéario que sustetou este projeto etnico-politico? Qual foram as medidas tomadas pelo regime Vargas para valorizar a política de branqueamento e brasilidade etc.?

Tucci: A partir de 1930, com Getúlio Vargas no poder, a imigração judaica foi, cada vez mais, assumindo status de problema, conforme atestam os documentos diplomáticos, policiais e dos ministérios brasileiros que classificavam a entrada dos judeus alemães fugitivos do nazismo como indesejável, uma “questão”: a semita. Assim, a partir de 1937, durante o regime autoritário e nacionalista que caracterizou o Estado Novo, o controle imigratório tornou-se seletivo e, ainda mais, racista. O Estado procurou interferir no processo civilizatório brasileiro valendo-se dos conhecimentos de intelectuais, médicos, antropólogos, bacharéis, escritores, artistas e técnicos, dentro outros profissionais. Estes, enquanto adeptos de um pensamento intolerante e eugenista, foram convocados para opinar acerca dos focos das enfermidades que assolavam a cidade e o campo. Sob a ótica dos “mais produtivos” e da “raça forte”, médicos eugenistas (Renato Kehl, Miguel Couto, Xavier de Oliveira, Olivieira Vianna) passaram a identificar alguns grupos de cidadãos como parasitários, indesejáveis, dentre os quais estavam os judeus, os negros, japoneses e ciganos.

Marlen Eckl: Qual foram as medidas tomadas pelo governo Vargas para valorizar a política de branqueamento e brasilidade etc.?

Tucci: Dentre as medidas cito algumas:
- valorização do imigrante e do trabalhador brasileiro compatível com o modelo ideal de cidadão brasileiro: branco, católico, sem origens judaicas, asiáticas ou africanas;
- produção de livros didáticos com versões deturpadas da História ou que omitiam assuntos considerados tabus como: Inquisição, escravidão, genocídio índigena, tratamento dados aos imigrantes italiasno Brasil, postura racista da diplomacia brasileira a partir de 1937, decretos leis proibindo o ensino de línguas estrangeiras no Brasil, assim como a preservação de tradições trazidas pelos imigrantes; fortalecimento da Polícia Política contra os estrangeiros (dentre os quais os comunistas, judeus, sionistas e socialistas), implementação de uma política eugenista em prol do branqueamento da população.

Marlen Eckl: Entre 1930-1945, o país procurou sustentar a imagem de um país democrático. Ademais manteve uma equidistância entre Alemanha e os EUA. Por isso a política imigratória foi uma espécie de um instrumento da política de negociações em nivel nacional e internacional. Como essa postura influenciou a política imigratória, direcionada para a escolha do imigrantes ideal? O Brasil cedeu a pressão externa e tornou os regulamentos mais flexíveis ou sabia como esquivar as exigências dos outros países?

Tucci: Desde 1922, a documentação diplomática já alertava para a importância e urgência do Estado brasileiro selecionar o imigrante ideal para compor a população brasileira: branco, católico e direcionado para o trabalho do campo. Esta postura, a partir de 1937 fecha-se em torno dos judeus refugiados do nazismo, questão tratada com grande ênfase durante a Conferência de Evian, Hélio Lobo recebeu a seguinte instrução enviada em nome do ministro Oswaldo Aranha: “não desejávamos absolutamente a vinda para o nosso país daqueles elementos”. Estávamos dispostos, isso sim, a encarar com simpatia a corrente imigratória de refugiados católicos que, em número de dez mil, já se achavam fora da Alemanha e da Áustria, em situação miserável. Enfim, Hélio Lobo poderia cooperar com a Delegação americana na obra humanitária empreendida pelo Presidente Roosevelt desde que a política imigratória brasileira não fosse atingida e que não envolvessem compromissos. Neste momento, era importante atrelar a imagem do Brasil, pais cordial à obra humanista liderada pela Casa Branca, adjetivada de tão generosa. Enfim, mascarava a existência das circulares secretas e a negação de vistos aos judeus valendo-se de um falso discurso e sem assumir compromissos com os salvamento dos judeus em fuga, sem destino certo. A partir de 1941, com Francisco Campos à frente do Ministério da Justiça, o discurso e as ações antissemitas fecharam ainda mais o círculo contra os judeus expressando a conivência do governo com as práticas genocidas praticadas pelos nazistas. Ao invés de salvar, o Brasil fechou as portas aos judeus até 1948.

Marlen Eckl: Entre os ministros, políticos e diplomatas responsáveis por esta política imigratória restritiva houve americanófilos, como Oswaldo Aranha e germanófilos, antissemitas convictos, simpatizantes de nazistas e também diplomatas que ao desobedecerem a política imigratória restritiva antisemita salvaram a vida de centenas de refugiados, como Souza Dantas, Aracy de Carvalho, Muillio Martins de Souza e Milton César de Weguelin Vieira a quem Hermann Görgen, o fundador da Sociedade Brasil-Alemanha e o "grupo Görgen" de 48 refugiados deveu sua vida. Hermann Görgen entrou em contato com você após a publicação do seu livro Antissemitismo na Era Vargas, comentando o seguinte: [Aqui eu vou ler o trecho da carta que Hermann Görgen escreveu a você]. Você poderia explicar melhor a atuação desta vertente de diplomatas antissemitas e também falar sobre as consequências com que eles se viram confrontados por causa da sua desobediência.

Tucci: Respondendo por partes:
1) Sobre os antisssemitas e germanófilos: Uma das grandes polêmicas geradas pelas minhas pesquisas concentra-se na figura dúbia do brasileiro Oswaldo Aranha (Ministro das Relações Exteriores entre 1937-1944) cujo perfil antissemita é, ainda hoje, acobertada e omitida por seus biógrafos e por parte da comunidade judaica brasilera. Uma das razões deste processo de “heroicização” de Aranha concentra-se no fato de Aranha ter presidido a II Assembléia Geral da ONU que votou a favor da Partilha da Palestina em dois territórios garantindo a criação do Estado de Israel. Esta corrente pró-Aranha procura “abafar”a sua trajetória como chanceler durante o período de vigência das Circulares secretas, momento em que milhares de vistos foram negados aos refugiados judeus colocando suas vidas em risco, dentre os quais estavam centenas de crianças. Se ele era um americanófilo explica-se muito mais pelas relações políticas entre EUA e Brasil do que por suas convicções filosemitas. No meu livro chamo estas relações de “máscaras da cordialidade”. Dentre os germanófilos e antissemitas convictos cito em meus livros: - os ministros Eurico Gaspar, Góis Monteiro, Francisco Campos e seu secretário Ernani Reis; Gustavo Barroso, diretor do Museu Nacional e teórico integralista; Dulphe Pinheiro Machado, diretor do Depto de Povoamento e Imigração, etc. Dentre os diplomatas portadores de um discurso antissemita mais agressivo: Cyro de Freitas Valle, Jorge Latour, Labienno Salgado dos Santos, Muniz de Aragão, dentre muitos outros.

2) Sobre justos e salvadores, filosemitas e humanistas: Em primeiro lugar faço aqui uma homenagem póstuma ao grande humanista e intelectual Herman Mathias Görgen (1908-1994), fundador da Sociedade BrasilAlemanha, a mesma que promove a divulgação deste meu livro em várias cidades da Alemanha. Conheci Görgen por correpondência, apos a leitura que ele fez do meu livro O Anti-semitismo na Era Vargas. Görgen que deixou a Alemanha, por motivos políticos: foi, antes de mais nada, um adversário destemido do nazismo. Proibido de exercer sua cátedra na Faculdade de Filosofia de Salsburgo, escapou no último momento levando consigo um grupo de refugiados. Em plena guerra – com a ajuda de Milton Cesar de Weguelin Vieira, então cônsul brasileiro em Genebra, – liderou a fuga deste grupo que deixou a Suíça em direção ao Brasil, via Lisboa. Görgen arranjou passaportes sem o “J vermelho”, certidões de batismo e atestados de “arianos” para os membros do grupo que não atendiam às exigências das circulares secretas. Ao todo eram 48 refugiados, dos quais 38 haviam sido rotulados pelas Leis de Nuremberg como judeus, “meio” judeus ou “um quarto” judeus. Em 27 de abril de 1941, o “grupo Görgen” aportou no Brasil. Entre eles estavam: Johann Hoffmann, Hugo Simon (Ex-ministro da Fazenda da Prússia), Georg Wassermann (filho de Jakob Wassermann), Paula Ludwig, Dana Roda Becher (filha de Alexander Roda-Roda) e seu marido, o escritor Ulrich Becher. Raros foram os diplomatas brasileiros em missão no exterior emitiram vistos desrespeitando as normas secretas impostas pelo Itamaraty e, a partir de 1940, endossadas também pelo Ministério da Justiça. Dentre os raros salvadores brasileiros citamos o embaixador brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas, acusado de ilegalidade na concessão de vistos e processado pelo governo Vargas por não cumprir com as regras antissemitas das Circulares Secretas. Julgado e condenado “à bem do serviço público”. O processo de aposentadoria “forçada” decretada em 9 de maio de 1941, somente foi interrompido pelo fato de Souza Dantas ter sido preso pelos nazista que invadiram a Embaixada Brasileira em Vich, em 12 de novembro de 1942. Foi preso com otras 29 pessoas e internado na Alemanha por 14 meses, a partir de 1943 ) na cidade de Bad Goldesberg). Seu retorno ao Brasil em 1944 foi seguido de homenagens constragedoras, incômodas a Vargas que não se identificava com as ações humanitárias e Souza Dantas. Quando encontrei este processo movido contra Souza Dantas no Arquivo Histórico do Itamaraty em 2001, enviei cópias para análise do Yad Vashem pedido-lhe o reconhecimento como “Justo entre as nações”, com a colaboração do Consulado de Israel em São Paulo. Aracy Moebius de Carvalho, então secretária e depois esposa do escritor Guimarães Rosa, cônsul em Hamburgo. Alem destes vale citar o rabino Fritz Pinkuss, nascido em Egeln (Alemanha) e fundador da Congregação Israelita Paulista, o casal Mathilde e Max Maier.

Marlen Eckl: Sendo um país católico, o Brasil foi procurado pelo Papa Pio XII, por causa dos católicos "não arianos". Enfim acabou por conceder 3.000 vistos para esses católicos "não arianos" dos quais somente menos de um terço foram concedidos. Por que a concessão do número total de vistos fracassou?

Tucci: esta foi uma negociação política onde teve importante atuação, ainda que nos bastidores do Vaticano, o alemão Johannes Schauff, ex-deputado do Reichstag, e exmembro do Partido Católico do Centro. Schauff estava envolvido com a comercialização de terras em Rolândia, onde refugiou-se com dezenas de outras famílias de judeus alemães, (transação conhecida como “negócios triangulares’). A cota especial de 3 mil vistos fracassou, em parte:
- pela força das Circulares Secretas e do ideário antissemita enquanto política de Estado;
- por falta de vontade e postura humanitária do governo brasileiro: venceu o ideário antissemita. Cyro de Freitas Valle, à época Embaixador do Brasil em Berlim, recebeu 2 mil destes vistos para liberar aos judeus (desde que convertidos ao catolicismo antes da data da Resolução n. 39, de 26.03. 1939): não emitiu nenhum visto deixando de salvar 2 mil vidas. Pelo lado da Embaixada do Brasil no Vaticano, a cota foi respeitada e 803 vistos foram liberados graças ao diplomata Hildebrando Accioly que merece uma investigação mais apurada. Dentre os refugiados católicos de origem judaica que recebeu um destes vistos estava o intelectual Otto Maria [Karpfen] Carpeaux

 

Debate aberto ao público.