Bibliografia

Resenha do filme: "O zoológico de Varsóvia"

ARQSHOAH

RG:
BBG/482

Tipologia:
Resenha

Sobrenome:
Marko

Nome:
Leslie

Páginas:
9

Palavras-chave:

filme

Artigo:

RESENHA DO FILME

O ZOOLÓGICO DE VARSÓVIA

Direção: Niki Caro, neozelandesa

Roteiro:  Angela  Workman, norteamericana

Elenco: Jessica Chastain (Antonina), atriz americana, Daniel Brühl (nazista) ator espanhol nacionalizado alemão e Johan Heldenbergh (Jan), ator belga, Timothy Radford (Ryszard), ator tcheco, Val Maloku (Ryszard com idade maior), ator polonês

Gênero: Drama histórico

Música:  Harry Gregson-Williams

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h08min

Trailer: https://youtu.be/wZ66TnBIla0

Fotografias utilizadas neste artigo: http://www.imdb.com/title/tt1730768/mediaindex

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Jan Zabinski antes da Guerra no Zoológico de Varsóvia *

 

O filme O Zoológico de Varsóvia, realizado em Praga em 2015 e estreado em 2017 traz roteiro de Angela Workman baseado no livro de Diane Ackerman Zookeepers´s wife  escrito em  2007 (também título original do filme)[1] baseado nas memórias de Antonina Zabinski que junto com o marido Jan, renomado  biólogo  de Varsóvia são personagens deste drama histórico.[2]

O zoológico em questão, um dos maiores na Europa antes da segunda guerra mundial, mostrava-se uma instituição modelo, abrigando afetos  que marcaram o cotidiano de animais e humanos que ali trabalhavam. Isto poderia já em si ser o tema central de um filme politicamente correto sobre ecologia, sustentabilidade e cuidados com animais.  Mas, Niki Caro,  junto com Angela Wokman, diretora e roteirista do filme respectivamente colocam em questão um mundo onde inverte-se o caráter do humano com o das bestas, seres sem civilização e provavelmente indagam-se (e se respondem) sobre os animais sacrificados, metáfora das minorias executadas durante o regime nazifascista. Semidestruído pelos primeiros bombardeios sobre a cidade de Varsóvia dias antes da tomada do país e diante dos olhos de Antonina e do pequeno filho Ryszard,  perdeu grande parte dos seus  animais que morreram  inclusive sob os tiros dos alemães, fato impactante que o filme mostra. Além de enaltecer o zoológico nos seus valores éticos, o filme mergulha nos anos terríveis do Holocausto entre 1939 e 1945, através da zaga do casal Zabinski, diretores do zoológico e cujas vidas foram afetadas pelos acontecimentos históricos do período na capital polonesa.  Assim, transitamos por diversos fatos como a invasão do país, as  perseguições, proibições, destruição das propriedades dos judeus da cidade , a instalação do Gueto de Varsóvia e o confinamento forçado dos judeus, a morte de milhares de prisioneiros até o dia da aniquilação do Gueto, o Levante e o início do transporte dos presos em direção ao  extermínio em campos de concentração[3].

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Antonina Zabinski nos cuidados do Zoológico de Varsóvia *

A presença marcante, no filme, do médico e pedagogo polonês Janusz Korczak, coordenador de orfanatos antes e durante a existência do Gueto penso ser uma inserção feliz e necessária para caracterizar ainda mais os conflitos da época e a inclusão de formas diferentes de resistência. Korczak negou-se a sair protegido do país, identificado com as crianças e negando-se a abandoná-las. Mostrar a chegada ao trem que iria transportá-los para a morte em Treblinka é um posicionamento claro do roteiro acompanhado pela cena chocante de Jan tendo que ajudar a levantar aqueles corpinhos indefesos e colocá-los dentro do vagão à pedido deles mesmos.  O educador referência até hoje, encenou, como sabemos, com os adolescentes do Orfanato do Gueto, um texto teatral do premiado Nobel de Literatura, o escritor indiano, Rabindranath Tagore (1861-1941), O Carteiro para trabalhar com elas a experiência da morte absurdamente presente e logo infelizmente tão concreta e imediata.  [4].

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Januz Korzcak diante do trem a Treblinka*

O filme também incorpora a figura perversa de Lutz Heck (Daniel Brühl) zoólogo eminente do regime nazista e também diretor de um zoológico em Berlim quem saqueia, no início da guerra, o zoológico do casal alegando  “ generosidade  em acolher” os animais mais raros e valiosos ameaçados de morrerem durante a guerra.

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Lutz Heck, nazista no comando de parte da ocupação de Varsóvia *

O biólogo alemão utilizou-se de experimentos diabólicos, no próprio zoológico de Varsóvia, buscando, de forma fracassada, recuperar raças de animas em extinção. Parte da crueldade de Heck foi o fato de querer seduzir Antonina assim como sua permanente presença na casa até o ponto de vigiar a família ao desconfiar  sobre a presença de judeus ali escondidos .

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Judeus escondidos no porão da casa do casal Zabinski *

O Zoológico de Varsóvia sobreviveu, ao adquirir, na época, Jan Zabinski  uma licença de funcionamento  para criar porcos que  alimentariam os alemães, ideia que teve para convencê-los. Enquanto isso o casal engajou-se no movimento de resistência polonês e entre outras ações, ofereceu refúgio clandestino a aproximadamente 300 judeus retirados pelo próprio Jan do Gueto de Varsóvia, no seu caminhão, cobertos por restos de alimentos e depois escondidos nas jaulas dos animais, mortos ou roubados, no porão da casa dentro do zoológico. Previstos de documentos falsos e muitas vezes as mulheres tendo pintado os cabelos de loiro para parecerem arianas, conseguiram sair da casa e depois da cidade ou do país, rumo ao novos exílios.

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O casal Zabinski caminhando nas ruas de Varsóvia durante a ocupação nazista *

Jan conseguira também uma permissão para entrar e sair livremente do Gueto com o pretexto de retirar lixo para os porcos, aproveitando para efetuar tráfico de documentos, alimentos, dinheiro e principalmente de judeus. Mais tarde Jan participou da resistência, armada polonesa sendo ferido e reaparecendo após das forças aliadas vencerem a guerra.

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Antonina e o filho Ryszard, servindo vinho para a celebração do “Shabat” aos judeus  no esconderijo *

O filme retrata o final da guerra, de forma um tanto romântica (às vezes necessária para nós espectadores atormentados pela lembrança da história recente) com a vitória dos aliados e a recuperação do país. Sem entrar em detalhes sobre a permanência de manifestações antissemitas, o zoológico é reconstruído e a família reunida.

Em 1968, o museu do Holocausto de Jerusalém, Yad Vashem realizou uma cerimonia para honrar “Justos entre as Nações” incluindo Antonina e Jan Zabinski

Recomendo o filme para entendermos melhor aspectos sobre a ocupação de Varsóvia, assim como para uso pedagógico com adolescentes. Segundo pesquisei no site  http://www.historyvshollywood.com/reelfaces/zookeepers-wife/ o filme representa fatos reais vividos, todos eles,  pelos personagens na época.

Resulta importante estabelecer paralelos com momentos atuais como, por exemplo, a situação dos refugiados em diversos países forçados a abandonar laços afetivos e materiais desprendendo-se de sua identidade e sendo empurrados a diverso abismos dentro da nossa sociedade. Lembremos que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman responsabiliza a nossa  civilização ocidental pelo surgimento do fascismo, por conseguinte somos responsáveis por toda e qualquer forma de pre-conceito e bloqueio aos Direitos Humanos em geral.

Penso ser essencial dedicarmos duas horas de nossas vidas contemporâneas para regar a Memória realizando pontes com os dias de hoje em relação a exílios, atos de racismo e de discriminação em geral. por meio de posicionamentos e subjetividades necessárias para continuarmos a contribuir com a construção de um mundo mais justo e melhor.

Leslie Marko

Pesquisadora, diretora e teatro-educadora do LEER/ARQSHOAH

Diretora e dramaturga de criações coletivas teatrais

Docente da ESPM nos Cursos de Ciências Sociais e do Consumo, Relações Internacionais, Comunicação e Administração.

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Elenco, direção e produção do filme O Zoológico de Varsóvia

 

 

* Cenas do filme

 

[1] Traduzido, no Brasil, pela Editora Nova Fronteira

[2] O cineasta polonês Maciej Dejczer anunciou a intenção de realização um filme sobre as atividades do casal  Zabinski durante a guerra.

[3] Em 1942, o nazi fascismo implantou a chamada  Solução Final, assassinato em massa a judeus, ciganos, homossexuais, opositores políticos, negros, comunistas, deficientes mentais e físicos e todas as minorias estigmatizadas e consideradas inferiores à raça ariana dominante

[4] Sugiro assistir o filme do cineasta polonês Andrzej Wajda (1926-2016)  As 200 crianças do Dr Korczak https://youtu.be/8A9j0Rynhj0