Sobre o livro

Ao resgatarmos as lembranças de Klara Kielmanowicz para o projeto "Vozes do Holocausto" desenvolvido pela equipe do Arqshoah - Arquivo Virtual sobre o Holocausto e Antissemitismo junto ao LEER-Universidade de São Paulo, constatamos estar diante de uma pessoa determinada a escrever em livro sua história de vida. Imediatamente, demos início ao lado de Klara, a produção deste seu livro de memórias, aprovado para integrar a coleção Testemunhos, organizada pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo. Esta coleção reúne hoje vários títulos que expressam a trajetória de refugiados do nazismo e sobreviventes do Holocausto radicados no Brasil, escritos por eles próprios ou por seus filhos e netos. A partir do acervo pessoal de Klara Kielmanowicz reunimos importantes documentos que expressam sob múltiplos aspectos as dificuldades enfrentadas por Klara desde a sua infância.

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O título do livro de Klara Kielmanowicz, nascida Brand, antecipa o seu conteúdo: diz respeito a trajetória de uma mulher em constante marcha, cuja vida pode ser traduzida como um precioso legado. Um legado para a história do judeus na diáspora e no Holocausto, e em particular, para a história das mulheres no Brasil. Daí o subtítulo: uma marcha, uma vida, um legado. Sob este viés da história, Klara resgata momentos amargos da sua vida quando, com apenas doze anos, foi levada para um campo de concentração na região da Transnístria. Hoje é uma das raras sobreviventes do Plano da Solução Final aplicado aos judeus da Bessarábia e da Bucovina.

Como pária marcada para morrer, Klara assistiu ao desmantelamento da Bessarábia ocupada pelos romenos desde a o final da Primeira Guerra Mundial, depois pelos russos que, apos um ano, a devolveram aos romenos que vieram acompanhados pelos alemães. A partir deste momento, a narrativa de Klara, ainda que escrita anos depois, detalha o violento processo de extermínio dos judeus da Bessarábia sob a supervisão da Wehrmacht e dos Einsatzgruppen, unidades especiais comandadas por Himmler. Neste clima de intolerância radicalizada ao extremo, Klara assistiu a destruição da comunidade judaica de Yedinitz. Não apenas assistiu, mas foi parte das perdas e danos, sem direito a devolução: perdeu familiares, amigos (as) de infância, objetos e fotografias, elementos marcantes para reconstrução destas suas memórias. Daí algumas ]pausas, silêncios e fraturas em suas lembranças, desde a sua infância até a idade adulta.

Em 1941, aos 10 anos, Klara testemunhou violências das tropas nazistas em Yedinits, exigindo a retirada dos judeus de todas as cidades da Bessarábia, direcionando-os a Campo de Concentração na Ucrânia. A perda de familiares na caminhada e a permanência por três anos em Transnistria marcaram Klara e nunca esquecidas. Anos depois, em São Paulo, filiada à NA'AMAT Pioneiras, organização beneficente feminina, Klara prontificou-se expor às companheiras suas lembranças, registradas durante anos em cadernos. Em 1973, convidada, fez parte do grupo de pesquisa à publicação de um livro sobre os imigrantes, refugiados e sobreviventes de sua cidade natal, situados em São Paulo. O Yad Le Yedinits é um dos Livros/Memória editado por pesquisadores israelenses sobre o desaparecimento das comunidades judaicas européias na II Guerra Mundial. Buscando atualizar-se e acompanhada do marido David, Klara participou de Congressos Nacionais e Internacionais sobre a cultura judaica e idioma ídiche. Preocupando-se com o antissemitsmo Klara preparou-se para, objetivamente, combatê-lo. Ainda hoje batalha pela preservação do idiche, idioma expresso por Isaac Bashevis Singer e Elie Wiesel, escritores premiados com o Nobel. Atenta a problemas humanitários, Klara Kielmanowicz fez parte em 1976 do Comitê Brasileiro em Defesa da Liberdade de Escritores Judeus da antiga URSS.

 

Participem do lançamento do seu livro que muito nos honra !

 

Maria Luiza Tucci Carneiro
Organizadora da Coleção Testemunhos
Editora Humanitas e Coordenadora do Arqshoah/LEER-USP

 

Rachel Mizrahi
Coordenadora da Equipe de História Oral do Arqshoah/LEER-USP

 

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