> Justos e Salvadores

ROSA, Aracy Moebius de Carvalho Guimaraes

RG:
JUS/5

Ficha:
5

Data de Nascimento:
20/04/1908

Data de Falecimento:
03/03/2011

Nacionalidade:
Brasileira

Naturalidade:
Rio Negro, Parana

País:
Brasil

Religião:
Catolico

Profissão:
Funcionario(a) do Consulado Brasileiro

Instituição/Associação:
Consulado de Hamburgo, Alemanha

Cargo / Função:
Funcionaria encarregada pelos vistos 

Tempo de exercício:
1934 a  1942

Relação de pessoas:

FRANKEN, Karl; CALLMANN, Grete; CALLMANN, Max; HEILBORN, Günter; HEILBORN, Inge; LEVY, Hugo; LEVY, Maria Margarethe Berthel; Levy, Bertel.

Imprensa:

AKCHOURIN, Elvira.  "Aracy de Carvalho Guimarães rosa, aos 80 anos: 'se pudesse faria tudo novamente'", Resenha Judaica, São Paulo, Primeira quinzena, junho de 1988, p. 24.
BRUM, Eliane & JEAN, Frederic. "A lista de Aracy", Revista Época, Rio de Janeiro, Editora Globo, nº 517, 14/Abr/2008, pp. 118-124.
DECOL, René Daniel; "D. Aracy, o Anjo de Hamburgo"; Revista 18, São Paulo, Centro de Cultura Judaica, Ano IV, nº19, Mar/Abr/Mai de 2007, pp. 55-58.
CAMARGO, Cláudio e STUDART, Hugo. "Uma Heroína quase esquecida"; ISTOÉ, São Paulo, Três Editorial Ltda, nº 1994, Ano 31, 23/01/2008, pp. 34-37.
CARDOSO, Mônica; "Os 100 anos da brasileira que casou com Guimarães Rosa e salvou judeus"; Cidades/Metrópole, O Estado de São Paulo, São Paulo, 21/12/2008.
CASO, Fabiana; "A mulher que driblou o nazismo"; O Estado de São Paulo, São Paulo, Grupo Estado, 02/Mai/2008.
DECOL, René Daniel; "D. Aracy, o Anjo de Hamburgo"; Revista 18, São Paulo, Centro de Cultura Judaica, Ano IV, nº19, Mar/Abr/Mai de 2007, pp. 55-58. 

História de vida:

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa nasceu em Rio Negro, Paraná, filha de pai português e mãe alemã, tendo vindo para São Paulo com a família ainda criança. Casou-se jovem com Johan Von Tess, também descendente de alemães. Separaram-se em 1934, depois de cinco anos de casados, através de um "desquite amigável" (no Brasil não havia legislação sobre o divórcio) e partiu para a Alemanha com o seu único filho do primeiro casamento, Eduardo Tess. Cabe lembrar que naquela época, as mulheres divorciadas sofriam condenação social por este status. Passou uma temporada na casa de uma tia na Alemanha e em 1935 pediu a interferência do então Ministrodas Relações Exteriores do Brasil, Macedo Soares, para que lá pudessetrabalhar, conseguindo uma nomeação para o Consulado brasileiro em Hamburgo, na Divisão de Passaportes, por falar fluentemente quatro línguas (português, inglês, francês e alemão).
Naquela época, às vésperas da deflagração da 2ª Guerra Mundial, os judeus sofriam com as perseguições do regime hitlerista. Já haviam sido expulsos de universidades, repartições públicas e do exército. Haviam sido obrigados a entregar os seus negócios a arianos. Muitos, desesperados, procuravam obter vistos de saída, quando então recorriam a consulados, como o brasileiro.
Do Itamaraty circulares secretas eram desferidas às embaixadas e consulados orientando dificultar a entrada de judeus no Brasil, como a que entra em vigor no ano de 1938, durante o Estado Novo varguista, a circular secreta nº 1127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a limitação do número de vistos concedidos aos judeus imposta pela circular e continuou a prepará-los, facilitando o embarque de dezenas de judeus alemães para o Brasil, talvez uma centena. Para que Joaquim de Souza Ribeiro, o Cônsul-Geral do Brasil em Hamburgo, despachasse os pedidos, sem se dar conta dos sobrenomes judaicos, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Outro recurso que desenvolveu foi o de conseguir passaportes sem a letra "J" de "judeu" em vermelho com amigos seus na prefeitura. Com a ajuda de Hardner, antigo guarda civil e proprietário da auto-escola onde aprendera a dirigir, Aracy forjava atestados de residência falsos, uma vez que os atendimentos se restringiam aos moradores da região de Hamburgo, possibilitando que judeus de outras partes da Alemanha solicitassem vistos ali (em Hamburgo). Certa ocasião, chegou a levar uma pessoa escondida no banco de trás do carro. Sendo o veículo portador de placa do corpo consular, não foi revistada pelos nazistas, atravessando a fronteira com a Dinamarca. Em outra ocasião invocou a sua condição enquanto funcionária consular, portanto, pertencente a "território-livre", contra quem nada se podia fazer, quando foi visitar uma Sra. Salomon, a fim de levar-lhe alguns produtos dos quais os judeus eram privados, como manteiga, por exemplo, e foi questionada por oficiais da Gestapo sobre o que fazia ali. Chegou a esconder judeus em sua casa.
Há depoimentos de que nunca aceitou presentes ou dinheiro de ninguém pela ajuda aos judeus, como os de Grette Callmann e de Maria Margarethe Bertel Levy, esta última que chegou com seu marido a ser encaminhada pessoalmente por Aracy até o o navio e orientando-os a esconderem suas jóias para que não fossem confiscadas. Ao chegarem no Brasil, o casal conseguiu vendê-las para pagar o aluguel e reiniciar a vida. Encontraram-se depois no Brasil e se tornaram grandes amigas. Aracy ficou conhecida como o "Anjo de Hamburgo" e por um bom tempo a embaixada brasileira daquele lugar foi procurada por judeus vindos de toda a Alemanha. Foi o caso do casal Günter e Inge Heilborn das cidades de Breslau e Gleiwitz, que prestou uma homenagem a Aracy colocando seu nome na filha que ao desembarcar ao Brasil começava a falar: Marion Aracy. João Guimarães Rosa foi nomeado como cônsul-adjunto do Consulado em Hamburgo em 1938. Também desquitado, acabou se relacionando com Aracy. Segundo Aracy, em entrevista fornecida ao jornal Resenha Judaica em 1988, João sempre lhe dizia que qualquer dia ela iria desaparecer, tamanho risco que ela corria. Separados de antigos casamentos, viviam em casas diferentes, sendo ela quem abrigava os judeus em sua casa.
Quando o Brasil, através do seu então presidente Getúlio Vargas, se posicionou ao lado dos Aliados em janeiro de 1942, rompendo relações com o Eixo, Aracy foi levada ao balneário de Baden-Baden, permanecendo lá por quatro meses junto com os outros funcionários da Embaixada. Segundo Aracy, apesar das luxuosas instalações do hotel em que ficaram, os "hóspedes" ali confinados eram obrigados a passar fome. Só depois de trocados por diplomatas alemães presos em Portugal é que ela e alguns companheiros tiveram acesso à fartura quando muitos, ao ver as mesas repletas de alimentos, passaram mal. Posteriormente, em 1947, casou-se com João Guimarães Rosa por procuração na embaixada do México no Rio de Janeiro, sede do Itamaraty, pelo fato de já terem sido casados e a legislação brasileira não reconhecer a união entre desquitados. Diante da "ilegalidade" da união, o casal encontrou dificuldade na indicação para trabalhar na mesma embaixada. Aracy chegou a receber um convite para trabalhar na Embaixada do Equador como secretária e Rosa foi chamado para a Colômbia. Ela acabou abdicando da carreira em favor de sua união com aquele que seria um dos mais consagrados escritores brasileiros e, em 1948, ambos seguiram para Paris, onde ele atuava como conselheiro da embaixada brasileira. Dois anos depois voltaram ao Rio, estabelcendo-se no bairro de Copacabana. Foi no Brasil que Guimarães Rosa escreveu suas principais obras literárias: "Sagarana", "Primeiras Estórias" e o épico "Grande Sertão Veredas", este último dedicado à companheira, que o ajudara como crítica-leitora na revisão final.
O relacionamento entre João e Aracy durou até o falecimento do primeiro, em 19 de novembro 1967, três dias após a sua nomeação para a Academia Brasileira de Letras. Aracy não se casou novamente. Segundo seu filho Eduardo de Carvalho Tess, Guimarães Rosa sabia da atividade de sua mulher auxiliando a saída dos judeus alemães com destino ao Brasil e sempre lhe advertia sobre os riscos, por ela não ter imunidade consular. Entre 1938 e 1942 o escritor registrou as impressões de um diplomata brasileiro na Alemanha nazista, onde narra as perseguições sofridas pelos judeus. A atitude solidária se manteve no Brasil quando o casal ajudou o jornalista Franklin de Oliveira a se exilar em 1964. No fim de 1968, já viúva, também escondeu em seu apartamento de Copacabana o cantor e compositor Geraldo Vandré, perseguido pela ditadura militar, depois do AI-5 e da composição "Pra não dizer que não falei das flores" ou "Caminhando" como ficou conhecida, que virou um hino de protesto contra a ditadura. No mesmo ano, Aracy participu de reuniões de intelectuais que se opunham ao regime ditatorial no país.
Aracy Guimarães Rosa é a única mulher citada no Museu do Holocausto (Yad Vashem) em Israel como um dos 18 diplomatas (ou funcionários diplomáticos) que ajudaram a salvar judeus da morte. Ali ela foi reconhecida em 1982 como "Justa entre as Nações". Ela também é a única funcionária consular, e não Embaixador ou Cônsul, o que significa que ela não gozava das imunidades garantidas aos outros diplomatas homenageados, todos de escalões mais altos. A única mulher brasileira convidada a plantar uma árvore no Bosque dos Justos, em Israel, onde os não-judeus que ajudaram a salvar vidas judias das perseguições nazistas na Europa são homenageados. Aracy ganhou um bosque com o seu nome no Keren Kayemet, nas cercanias da cidade sagrada em Israel. Seu nome figura ao lado de Oskar Schindler (o empresário alemão que inspirou o filme "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg) e do então embaixador do Brasil em Paris, Luiz Martins de Souza Dantas, outro brasileiro entre as 22 mil pessoas que já receberam a homenagem. Inaugurou a placa comemorativa com um discurso, em 1985, quando fez sua última viagem internacional.Também recebeu homenagens no Museu do Holocausto de Washington (EUA). Perguntada sobre porque fez o que fez, aquela que nasceu no mesmo dia de Hitler, porém completamente distante dele por suas escolhas, respondeu: "Porque era o justo". Aracy completou um século de vida no dia 20 de abril de 2008 e sofre do Mal de Alzheimer, o que a impossibilita de comentar as suas histórias.

Palavras chave:

"Anjo de Hamburgo"; "Justa entre as Nacoes"; AI-5; intelectual; Alemanha; Aliados; atestado de residencia falso; Baden-Baden; Bosque dos Justos; circular secreta; consul-adjunto; Consulado brasileiro em Hamburgo; ditadura militar; Eixo; Franklin de Oliveira; fronteira; Geraldo Vandre; Gestapo; Getulio Vargas; Hitler; Israel; Itamaraty; Joao Guimaraes Rosa; Joaquim de Souza Ribeiro (Consul-Geral do Brasil em Hamburgo); joia; judeu; Macedo Soares (Ministro das Relacoes Exteriores do Brasil); Museu do Holocausto (Yad Vashem); Museu do Holocausto de Washington (EUA); navio; Nazismo; perseguicao; Rio de Janeiro; Segunda Guerra Mundial; visto.