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SEQUERRA, Irmaos (Samuel e Joel)

RG:
JUS/12

Data de Nascimento:
24/08/1913

Data de Falecimento:
1992; 1988

Nacionalidade:
Portuguesa

Naturalidade:
Faro - Algarve / Porugal

País:
Portugal

Religião:
Judaica

Profissão:
Funcionario do JOINT

Instituição/Associação:
American Jewish Joint Distribution Committee (JOINT)

Cargo / Função:
Assistencia Social

Bibliografia:

Nelson Menda, "Os Irmãos Sequerra - A Fantástica História dos Gêmeos Samuel e Joel", Tikvá - Revista da comunidade israelita de Lisboa, nº 65, 8º ano, set/out de 2007, pp. 18 e 19.
Nelson Menda, "Os Irmãos Sequerra - A Fantástica História dos Gêmeos Samuel e Joel", Jornal Alef, Rio de Janeiro, 2002.
ALEXI, Trudy, A Mezuzá nos Pés da Madona, Rio de Janeiro: IMAGO, 1994.
AVNI, Haim. Spain, the Jews and Franco. Varda books, 2001.
DOLINGER, Rachelle Sweig. Homens de Valor. Rio de Janeiro: Imago, 2008.

JORNAL PÚBLICO. A luta de judeus portugueses na Espanha de Franco. 2010. Disponível em: <http://www.publico.pt/temas/jornal/a-luta-de-judeus-portugueses-na-espanha--de-franco-19826560>. Acesso em: 31 jan. 2014.

História de vida:
Texto de Nelson Menda publicado na Semana- a revista da Comunidade Judaica. Edição 218 de maio de 2002, p.12-16.
Filhos de um próspero empresário português do ramo pesqueiro, os gêmeos Samuel e Joel Sequerra podem ser considerados dois heróis anônimos do século XX que ajudaram a salvar um número significativo de refugiados do nazismo, judeus e não-judeus, através da criação de um ambiente favorável junto às autoridades espanholas. Os gêmeos eram voluntários da Cruz Vermelha Portuguesa e funcionários da American Jewish Joint Distribution Committee (JOINT). Vindos de Lisboa, eles desembarcaram em Barcelona com missões definidas. Samuel, graduado em economia, contatava e fazia amizade com ministros, embaixadores, cônsules, chefes de polícia, superintendentes penitenciários e, inclusive diretores de hospitais. Em sintonia com as atividades do irmão, Joel exercia o papel de assistente social, atuva nos bastidores, percorrendo com seu carro os postos de fronteira, as prisões, as delegacias de polícia e os campos de prisioneiros onde pudesse encontrar e socorrer fugitivos da perseguição nazista. Eles contavam com a ajuda de um grupo de voluntários que os auxiliavam em todo o processo com os refugiados. Esse processo consistia em localizar o refugiado, retirá-lo da prisão encontrar uma residência digna para ele, além de provê-lo com roupas, alimentos, emprego e, o principal, documentos e vistos para que pudesse sair do país em segurança.
Entre os anos de 1942 e 1945, os irmãos Sequerra conseguiram salvar aproximadamente 1000 pessoas, entre os quais o Barão de Rothschild, que cruzou os Pirineus com a família, uma travessia que era feita a pé, levava dias e era realizada sob péssimas condições climáticas (frio, vento e neve). Ainda tiveram, junto com os demais refugiados com destino à fronteira franco-espanhola, que driblar a polícia francesa de fronteiras colaboradora da Gestapo na caça aos fugitivos judeus. Fora os ladrões e contrabandistas que costumavam ficavam à espreita a fim de se aproveitar da situação. As suas atividades eram conhecidas pela Gestapo. Os Sequerra chegaram a ter o carro explodido num atentado com uma bomba relógio, que não os atingiu porque eles fizeram serão naquela noite. Houveram outros, mas eles continuaram suas atividades de ajuda humanitária. Samuel e Joel mantiveram as suas atividades comunitárias depois da guerra em Portugal e mudaram-se para o Brasil no final dos anos 1950. Samuel, solteiro, voltou-se para a iniciativa privada tendo sido eleito e reeleito Presidente do Cemitério Comunal Israelita no Rio de Janeiro e, Joel , que veio para o rio de Janeiro em 1958 com esposa e filhos , continuou atuando junto às entidades de auxílio aos refugiados e participando de projeto em prol dos judeus da Hungria, Egito, Romênia e Bulgária. Aos 66 anos, no ano de 1979, Joel Sequerra se aposentou, transferindo-se para Haifa com a esposa Simy. Eles nunca aceitaram receber qualquer tipo de homenagem pelo que fizeram durante a Guerra, pois entendiam que tinham cumprido uma obrigação. Também nunca conversaram com a família sobre o que presenciaram naquela época.
Trecho do texto “A luta de judeus portugueses na Espanha de Franco” publicado no jornal português “Público” em 04 de setembro de 2010.
Os gémeos Sequerra
A substituição, a 3 de Setembro de 1942, de Serrano Suñer à frente da diplomacia espanhola por Francisco Gómez-Jordana Sousa, conde de Jordana, abre uma nova fase. Ao conde de Jordana as potências do eixo atribuem simpatia pelas posições dos aliados. Foi precisamente no final da Primavera de 1942 que Samuel e Joel Sequerra, dois gémeos de cinco irmãos, chegaram a Barcelona como funcionários da organização judaica de apoio aos refugiados Americain Juich Joint Distribution Committee com a cobertura da Cruz Vermelha Portuguesa. Os Sequerra tinham nascido em Faro, filhos de um empresário das pescas. A morte do pai, em 1928, e a crise económica de 29 levaram à falência a empresa familiar, pelo que se estabeleceram em Lisboa, em 1933. Quando, por pressão do embaixador norte-americano em Espanha e aconselhado pelo ministro Jordana, Franco abre a fronteira à Joint, os irmãos Sequerra chegam a Barcelona.
Instalam-se no Hotel Bristol, na Praça de Espanha, onde, com o apoio das embaixadas britânica e dos Estados Unidos, abrem um centro de apoio. Samuel Sequerra, licenciado em Ciências Económico-Financeiras, utilizou os seus contactos para montar a rede. O seu irmão Joel não se movia nas altas esferas. Era um homem do terreno, dedicado à assistência social, pelo que viajava pela geografia espanhola visitando os campos de internamento de refugiados: Figueres, na província de Girona, na Catalunha; Irún, junto à fronteira hispano-francesa em terras bascas; Cervera, na província catalã de Lérida; Nanclares de Oca, em Álava, no País Basco; Miranda del Ebro, em Burgos. Este último campo funcionava desde 1937 para o internamento de republicanos detidos pelas tropas franquistas. Figueres e Irún, próximos à fronteira francesa, tinham funcionado como lugares de classificação dos espanhóis que regressavam ao seu país após terem fugido durante a Guerra Civil. Curiosamente, os campos de Cervera e Miranda del Ebro, depois de terem recebido republicanos e fugitivos dos nazis, em 1944 acolheram funcionários alemães das fronteiras que escapavam ao avanço aliado. Era nestes campos que Joel Sequerra contactava com as famílias judias.
A actuação dos Sequerra chamou a atenção do regime espanhol. Em Agosto de 1942, as instalações da Joint no Hotel Bristol foram alvo de busca da polícia que apreendeu documentos, que seriam devolvidos um mês depois. Sem explicações. Anos depois, antes da informal delegação da Joint se mudar para outras instalações no Passeo de Grácia de Barcelona, a "visita" foi mais dura. A 18 de Julho de 1944, desesperados com o rumo da Guerra e "aquecidos" por um jantar num dos salões do Hotel Bristol em celebração do levantamento das tropas de Franco de 1936, um grupo de falangistas assaltou as instalações e destruiu todo o mobiliário. Os Sequerra foram também alvo de acções directas. Como a colocação de uma bomba-relógio que destruiu o seu carro, e outras tentativas de atentados.
Em Madrid, outro português dedicava-se ao mesmo trabalho. Samuel "Sam" Levy, que salvara uma família judia de Marselha escondendo-a numa aldeia nos arredores de Milão, chega à capital espanhola em 1942 para organizar uma secção da Cruz Vermelha Portuguesa de apoio aos refugiados. O seu trabalho concentrava-se no campo de internamento de Miranda del Ebro, em Burgos, 300 quilómetros a norte de Madrid, onde ajudava os aí internados. Entre os quais judeus. A sua memória é hoje recordada no nome de uma rua, "Sam Levy", em Caselas, junto ao Restelo.
Hoje, admite-se que os irmãos Sequerra ajudaram directamente à fuga de mil judeus que, de Espanha, entravam em Portugal para saírem rumo à Palestina ou ao continente americano. Entre eles, o barão de Rothschild. Uma família da qual outros membros escaparam graças a Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus e Bayonne. "O meu avô ajudou então, entre muitas outras pessoas, 11 membros da família Rothschild que já manifestaram a sua disponibilidade para ajudar à recuperação das nossas instalações", revela Álvaro Sousa Mendes, presidente do Conselho de Administração da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

Palavras chave:

American Jewish Joint Distribution Committee (JOINT); Barao de Rothschild; Cruz Vermelha Portuguesa; Gestapo; Nazismo; Refugiados; rota Pirineus-Barcelona.