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Por Vinicius Palermo

Setenta anos após o fim da guerra, 284 sobreviventes do Holocausto vivem no Brasil. Com o objetivo de não deixar que as memórias desse grupo se apaguem, o projeto Vozes do Holocausto colherá, a partir deste mês, depoimentos, muitos deles inéditos, de judeus que fugiram para o Brasil e aqui recomeçaram a vida. Durante a primeira fase do projeto, uma equipe coordenada pelas historiadoras Rachel Mizrahi e Sarita Mucinic Sarue, ambas integrantes do Arqshoah (Arquivo Virtual Holocausto e Antissemitismo), coletará 90 depoimentos prioritários ao longo do primeiro semestre deste ano.Coordenadora do projeto, a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, autora de livros como O antissemitismo na era Vargas (1930-1945) e Cidadão do mundo, ressalta que os arquivos pessoais dos sobreviventes contêm documentos importantíssimos que detalham a rota de fuga para o Brasil e registram a flutuação da posição do país ao longo do conflito. “Há cartas para despachantes de vistos e advogados, documentos de consulados e embaixadas no Brasil e no exterior”, conta. “Com isso, nós conseguimos identificar elementos importantes para a reconstituição da História e da cultura política brasileiras. É importante que tenhamos a consciência de que o Brasil não estava alheio ao que acontecia na Europa. Ele fecha suas portas, como vários outros países”, completa.Ainda de acordo com Maria Luiza, os testemunhos reforçam a documentação que dá prova de que o Brasil manteve e aplicou circulares secretas, mesmo após o governo Vargas, para impedir a entrada de judeus no país, o que fazia com que muitos entrassem se declarando católicos. Segundo a professora, o porquê da escolha do Brasil como rota de fuga é uma das principais perguntas feitas aos sobreviventes durante os depoimentos. O que se revela é que, diante da difi culdade de fugir para os Estados Unidos, destino preferido da maioria dos refugiados, mas onde existia um sistema de cotas restrito, os judeus começam a olhar para a América do Sul.Alguns judeus optam por vir para o país com visto de turista, apresentando passagens de ida e volta, e aqui se radicavam, mas sempre sob o risco de ter de regressar aos seus países. A professora explica que os sobreviventes recebiam incentivos de parentes que tinham vindo antes para o país. As associações judaicas na Europa ofereciam um novo passaporte, com um nome falso e a religião católica declarada, para facilitar a entrada no Brasil.O comércio de terras também teve importância no processo. “Companhias de navegação, em parceria com associações de colonização, produziam folhetos de propaganda para venda de terras no Brasil”, conta. Essa atividade ia de encontro à posição do governo brasileiro, que não via com bons olhos a chegada dos refugiados. O ponto final, depois de dois anos de coleta de depoimentos com o maior número possível de sobreviventes, será a produção de uma coleção impressa e digital e de material didático para enviar às escolas. Para Maria Luiza, o assunto precisa ser debatido de forma diferente nas salas de aula. “Estuda-se Segunda Guerra e fala-se um pouco do Holocausto, quando ele deveria ser um tema de projeção” afirma. O Arqshoah disponibiliza, em seu site, apostilas para o acesso de professores, com o objetivo de enriquecer o conhecimento e facilitar a transmissão para os alunos.O Vozes do Holocausto é realizado pelo Arqshoah e pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP (Leer-USP), em parceria com a União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social e Claims Conference (UNIBES/Claims), com recursos do Instituto Samuel Klein.

PASSO FUNDO - A Sociedade União Israelita de Passo Fundo inaugurou ontem, após 65 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, o primeiro monumento do interior do Estado em memória às vítimas do Holocausto. 
A solenidade aconteceu no cemitério Israelita, localizado no bairro Vera Cruz, com a presença do prefeito Airton Dipp, o presidente da Federação Israelita do Rio Grande do Sul, Henry Chmelnitsky, presidente da União Israelita de Passo Fundo, Daniel Winik, o bispo emérito Dom Urbano Algayer e o sobrevivente do holocausto, Max Wachsmann Schanzer.