> Sobreviventes e Testemunhos

NOSSIG, Henny

RG:
SOB/7

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Alemanha

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
14/06/1928

Data de falecimento:
01/09/2011

Profissão:
Secretario(a)

Cônjuge:
Robert Nossig

Filhos:
Henry Nossig e Robert Nossig

Avós Paternos:
Julia Gumpert e Wolf Gumpert

Avós Maternos:
Aheniet Simonstein e Moritz Simonstein

Filiação - Pai

Nome do pai:
Hubert Simonstein

País de nascimento do pai:
Alemanha

Filiação - Mãe

Nome da mãe:
Herta Simonstein

País de nascimento da mãe:
Alemanha

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Labes, Alemanha

Opção pelo Brasil:
Mudou-se junto com o marido em 1953 atendendo às cartas do cunhado que os convidava a morar no Brasil

Navio/vapor:
Augustus

Data de partida:
20/02/1940

Locais de parada:
Residiu por cerca de treze anos na Bolívia antes de chegar ao Brasil

Bagagem:
Apenas uma mala, pois os bens da familia foram perdidos no naufrágio do navio Orazio

Comunidades de acolhimento

Identificação:
Henny Nossig

País:
Brasil

Data:
1953

Acompanhantes:
Robert Nossig

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Luba Schevz

Pesquisadores presentes na entrevista:
Luba Schevz e Ana Carolina de Almeida Duarte

Data da entrevista:
11/11/2010

Local da entrevista:
São Paulo

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Ana Carolina de Almeida Duarte

Testemunho

Meu nome é Henny-Jutta Nossig. Nasci em 14 de junho de 1928, perto da cidade de Labes, na província da Pomerânia, território que foi incorporado à Polônia após a Segunda Guerra. Morei em Labes até os onze anos de idade. Essa cidade ficava a cerca de duas horas de Berlim. Meu nome de solteira era Henny-Jutta Simonstein. 

Minha mãe chamava Herta Simonstein e meu pai Hubert Simonstein. O pai da minha mãe era Wolf Gumpert e a mãe Julia Gumpert. Da parte do meu pai, meu avô era Moritz Simonstein, e minha avó Aheniet Simonstein. Só conheci o meu avô Wolf, os outros avós faleceram antes de eu nascer. O meu avô paterno, Moritz, morreu quando meu pai tinha 16 anos.

Nós falávamos apenas alemão. Quando meus pais se casaram foram morar em Labes. Eu nasci em uma cidade próxima, pois não havia hospital em Labes. Meu avô materno tinha um prédio de vários andares e uma loja grande nesta cidade. Moramos nesse prédio do meu avô acho que até meus 4 ou 5 anos. Eu fui criada com babá e lá as babás andavam com uniforme. Tive uma irmãzinha, um ano mais nova do que eu, que infelizmente morreu com 11 meses. Tínhamos uma situação econômica muito boa. 

No que se refere às festas judaicas, meu avô era muito religioso. Em Labes por algum tempo havia uma sinagoga, depois não havia mais, porque muitos foram embora. Não havia muitos judeus, mas os que tinham, muitos foram para Israel. Eles tiraram tudo de lá e depois a casa, e então a sinagoga foi vendida. Não me lembro o que fizeram no lugar. 

Nas festas, Rosh HaShaná, Yom Kipur, íamos para outra cidade, Schievelbein, perto de onde morávamos, onde tínhamos parentes e ficávamos na cada deles. Inclusive em Pessach meu avô rezava tudo. E eu tinha um primo que era um ano mais novo do que eu, ele também era filho único. Então nós dizíamos: “ah, o vovô não vai parar de rezar?”. A gente já não aguentava mais. Aí no meio ele parava, todo mundo lavava a mão, comíamos e depois continuava! Acho que a casa era de primos da minha mãe. Nessa cidade tinha uma sinagoga grande, bonita. E meu avô, lembro que tinha um tempo que ele ia rezar de cartola. Meu avô era um homem famoso, importante, bonitão. Meu pai também, ele cuidava da Chevra Kadisha.

Acho que minha mãe era meio parecida com meu avô, puxou ele. Não comia carne de porco, nunca comeu. Meu sogro também era religioso, e a avó do meu marido era muito religiosa. Sexta-feira à noite sempre fazia jantar lá na Bolívia.

Em 1934 eu não tinha completado 6 anos ainda, então entrei na escola aos 5 anos. Até então estava tudo bem. Mas quando começou, as crianças não falavam mais comigo, eu ficava isolada. Era uma escola pública, pois já que como meu pai não lutou na Primeira Guerra Mundial eles não me aceitaram em escola particular. E como não tinha escola judaica na cidade – a cidade não era grande, era uma cidade pequena – só na escola pública eu fui admitida. Aí foi aquela coisa horrorosa. Às vezes nos xingavam na rua. Minha avó ia muito passear comigo e aí eles nos xingavam.

Foi, então, que meu avô foi obrigado a se desfazer do prédio e nós fomos morar de aluguel em uma outra rua. Também era grande. Depois ele diminuiu a loja um pouco, que era bem grande, ocupava a esquina, onde entrou outra loja. Meu pai trabalhava junto com o meu avô. Então, em 1938, na “Noite dos Cristais”, eles queimaram, quebraram a nossa loja, saquearam tudo. Era uma loja de tecidos, roupas, coisas assim. Levaram meu pai para o campo de concentração na mesma noite. Queriam levar meu avô, mas ele já tinha idade, então meu pai falou: “não, eu vou, mas deixa ele aqui”.

Meu pai foi para o campo de Sachsenhausen – Oranienburg, perto de Berlim. Antes disso ele já tinha sido preso em uma cadeia, porque uma empregada da loja levou leite para minha, onde também morava meu tio, irmão da minha mãe. Havia uma lei que não podia se misturar judeu com ariano, então meu pai foi preso. Ficou um mês em uma cadeia. Por causa desse motivo muito grave: porque a balconista da loja levou leite para minha casa, e de repente meu tio podia estar lá e atacar ela, porque ele era muito perigoso. Ele era solteiro, era jovem, de repente ia agarrar ela. Mas meu tio era um homem normal. Eram pretextos para o antissemitismo. Fizeram processo, tudo, meus pais procuraram um advogado. Acho que nessa época já tinha escrito na loja “não compre de judeus”.

Me lembro que passeava muito de bicicleta com o meu pai quando estávamos na Alemanha. Não sei se os vizinhos eram antissemitas, mas na escola era muito ruim. Eu fui pouco na escola, na verdade, porque em 1938 eu não podia ir mais, após a “Noite dos Cristais”. Acho que na escola fiz três anos do primário. Então fiquei quase dois anos sem estudar nada, até chegar a Bolívia, onde também não estudei muito.

Antes de meu pai ser levado na “Noite dos Cristais” ele teve de entregar toda a prataria, joias, para o governo alemão. Tudo. Ele levou não sei quantas sacolas cheias. Tudo, tudo. Não ficou nada. 

Minha mãe conseguiu depois tirar o meu pai do campo de concentração. Ele foi levado para o campo em 1938 e acho que ficou de novembro a fevereiro ou março, quando minha mãe conseguiu tirar ele. Acredito que ele ficou no mínimo 4 meses e foi muito maltratado no campo de concentração, passou o inverno lá. Em 1939 ele já estava na Bolívia.

A minha mãe conseguiu o visto para a Bolívia através de um tio meu que morava com a família na França, irmão mais velho do meu pai. Então meu pai voltou para casa primeiro, mas ele teve que ficar um pouco escondido. Ele foi um pouco para Berlim, senão iam pegar ele de novo. Ele tinha um prazo para abandonar a Alemanha, tinha que ir embora. Então em de 1939 ele foi.

Ele foi com o mesmo navio que nós fomos, mas conosco queimou esse navio, que chamava Orazio. Então o meu pai foi para a Bolívia e conseguiu visto para minha mãe e para mim.

Acredito que foi o Consulado Boliviano que emitiu esse visto para o meu pai que veio da França. O visto foi da Bolívia porque os outros países trancaram tudo. E quando nós chegamos na Bolívia, trancaram também, por isso minha mãe não conseguiu mais tirar meu avô, minha tia, meu tio e meu primo. Mataram eles também, lá na Alemanha. Meu pai e minha mãe acharam que como meu avô já tinha certa idade ele não ia mais se acostumar em outro país, mas depois ele teve que se acostumar para ficar em campo de concentração. Os judeus alemães se achavam muito alemães, e é aí que mora o perigo.

Meu pai foi para a Bolívia em julho de 1939. Nesse meio tempo, nós ficamos naquele mesmo apartamento com o meu avô. Meu avô ficava sempre com a gente. Minha tia depois teve que mudar porque não podia mais ter muito apartamento grande, e veio morar conosco, com o marido e o filho. Todo mundo morava junto no mesmo apartamento porque não podia mais ter mansões. Então nós fomos embora e meu avô ficou.

Nós tivemos a sorte de fugir, na última hora. Ficamos um mês na Itália esperando outro navio, e minha mãe se virava bem com o francês. Minha mãe era jovem, tinha 36 anos. Eu sempre falo, minha mãe era muito corajosa. Ela nunca tinha viajado para fora do país, logo teve que viajar comigo até a América do Sul, eu com 11 anos de idade, e ainda nós naufragamos. 

Em janeiro de 1940, então, fomos para Gênova. Acho que embarcamos dia 19 e no dia seguinte, de noite, o navio Orazio pegou fogo. O navio estava na costa da França, ainda não estava em alto mar. Quem se jogou para o mar morreu, porque era inverno. Havia 1ª, 2ª, 3ª classe no navio. Nós estávamos em um lugar enorme, onde antigamente colocavam a carga para transporte. Dormimos em beliches. Horrível. Todas as mulheres no mesmo lugar e no outro todos os homens. Não estávamos mais seguros lá do que em outro lugar. Quando pegou fogo tivemos de subir e quase não conseguimos sair porque eles trancaram a porta. Queriam matar todos nós. Talvez na 1ª ou 2ª classe tivesse quem não fosse judeu, mas o resto eram todos judeus, que não tinham acesso à 1ª ou 2ª classe porque não podiam mais, só podiam naquele lugar em que ficamos. Eles não deixavam, mesmo, nem vendiam a passagem. 

Saímos da Alemanha com 10 marcos, pouquíssimo. Minha mãe tinha uma bolsa e guardou os 10 marcos lá. Ela levou a bolsa, mas quando tivemos de subir para a parte de cima do navio, quando nos salvaram, ela não podia mais levar a bolsa, porque eles amarraram uma corda na barriga e nos desceram lá de cima do navio até o barquinho e, nisso, poderia enroscar a bolsa em algum lugar, por isso teve de jogá-la fora. 

Nós ficamos mais de um dia no navio. Onde parou de queimar, a gente sentava. Se queimava, aí a gente mudava de lugar. Ficamos para lá e para cá até chegar socorro. De noite subimos para a parte de cima, onde havia umas labaredas. Nunca me esqueço. Tenho trauma, medo de fogo, até hoje. E minha mãe não tinha vestido, não deu tempo. Eu não tinha sapato, porque não deu tempo de calçar o sapato, só tinha um chinelo. E como tinha muita água dentro, encharcou. Aquele de feltro, um chinelinho de frio, ficou cheio de água. 

No dia seguinte, no outro navio onde nos salvaram, uma mulher me deu um sapato, mas um sapato rasgado. E minha mãe com um casaco sem vestido. E outros ficaram só de pijama, naquele frio. Perdemos tudo. Só ficou a máquina de costura da minha mãe, acho que era Singer. Minha mãe ficou decepcionada, porque chegaram todas as malas – ela tinha levado um monte de coisas, roupas de cama, muitas caixas – e não chegou a máquina de costura. “E agora, a máquina de costura não chegou!”. Quando nós voltamos, que fomos salvas, a máquina estava lá. A única coisa que salvaram. E ela começou a costurar depois. O meu pai, quando foi para a Bolívia, não quis levar muita coisa. Falou: “eu vou sozinho, de repente vão roubar as coisas. Vou levar só o mínimo”, porque também tinha de trabalhar e tal. “Vou ficar sozinho e vão roubar minhas coisas. Vocês depois vão trazer tudo”. Trouxemos duas malinhas. Só deram para nós uma troca de roupa no navio.

Foram três navios que nos salvaram. Mas ficaram longe, não podiam se aproximar porque podiam pegar fogo também. Levaram-nos de barquinho, não sei nem quanto tempo demorou. Enrolaram-me em um cobertor, me carregaram no colo. A gente não tinha fome, não tinha nada. Estava todo mundo quieto. Ninguém ficou apavorado, não teve pânico, nada. Todo mundo quieto.

Ainda tiveram que nos localizar com um avião, porque estava muito vento, e o vento levou um pouco para longe o navio. Depois acharam e de noite chegou a salvação. Eles queriam primeiro as crianças, mas eu não podia deixar a minha mãe, ela não conseguia enxergar nada, porque ficou olhando o tempo todo e entrou um monte de sujeira no olho, então eu a levava. Falei: “não posso ir e deixar ela”. Fomos nós duas. O cabelo ficou que parecia uma lama cinza. Nos olhamos no espelho e não nos reconhecemos. Horrível! O barbeiro, cabeleireiro que lavou nosso cabelo falou: “o que vocês fizeram com esse cabelo?”. Devia ter cinzas e com a umidade do mar aquilo ficou uma maçaroca. Horrível. Então depois de alguns dias lavaram a nossa cabeça, em Gênova. 

Estávamos mais perto de Gênova do que de Paris, acho que foi uma noite de navegação. Aí, em Gênova, fizeram-nos outro passaporte, essas coisas. Na verdade eu não queria mais embarcar. Falei para minha mãe: “vamos falar para o pai voltar”. Ela falava: “não, o pai não pode voltar, nós temos que ir”. Até hoje fico nervosa quando no navio tenho que colocar o colete salva-vidas para simulação. 

Então fomos para Arica, no Chile, de navio. Passamos pelo Canal do Panamá, tudo foi muito legal, muita brincadeira no navio, tinha bastante criança, corríamos para lá e para cá. Todas crianças judias. A gente viajou onde só tinha judeu. Não tinha cristão lá, devia ter apenas na 1ª ou 2ª classe. E na Itália os judeus não ajudaram tanto a gente. Eles fizeram um reza para nós quando nós fomos salvos, mas ao invés de rezar eles podiam dar alguma coisa para nós. Uma roupa velha... não deram nada para nós. Nada. Só rezaram. Eles não foram perseguidos logo de cara. Eles depois também passaram mal e tudo, mas naquele tempo ainda estavam bem. 

Na Itália vivemos muito bem. Um mês passamos muito bem. Íamos passear, comemos doce... Quem custeou algumas coisas foi a companhia de navegação. Pagaram hotel, comida e uma troca de roupa. Mas minha mãe tinha um tio ainda na Alemanha. Naquele tempo meu avô ainda estava morando em Berlim, e mandou um dinheiro para nós. Compramos toalhas, o mínimo para levarmos. E dava para comermos uns docinhos, passear um pouquinho. Até esperar o mês, até acabar de fazer os outros passaportes de todo mundo e continuar a viagem.

Então fomos de novo. O navio que me salvou e o navio que eu vim para a América do Sul estão no Museu do Imigrante. Eu vi lá e fiquei muito emocionada. O que nos salvou chamava Conte Biancamano e o que viemos para o Chile chamava Augustus. Fomos para Arica no Chile e depois de trem subimos para La Paz, na Bolívia.

Na Bolívia fomos morar em um lugar horrível. Havia uma entidade, uma sociedade de ajuda, judaica, chamada Hilsvein. Tinha uns tipos de asilo e nos mandaram para um horrível. Um quarto onde o forro era de saco de estopa. Eu entrei lá e chorei. Uma outra mulher ficou junto com a gente e com o filho dormindo no mesmo quarto. Ficamos bastante tempo lá. Acho que depois a mulher foi para outro lugar, não sei, e nós ficamos lá. 

Minha mãe ajudava às vezes na cozinha e no mesmo lugar havia uma parte da escola judaica. Era como se fosse um sítio, um galpão. Era uma casa e era uma sinagoga também. Faziam tudo improvisado naquele tempo. Aí também ficava a escola. Eu comecei a frequentar a escola e não sabia escrever assim normal, eu escrevia gótico. Aí eu aprendi a escrever normal. Comecei a aprender castelhano e tal. Fiquei um ano nessa escola e depois fiquei um ano em uma escola fiscal boliviana, do governo, também, porque não tínhamos dinheiro para pagar. 

Na época, então, meu pai já estava na Socobo, uma colônia alemã agrícola para imigrantes. Mas lá ninguém era agricultor, era comerciante, ou era médico, ou era engenheiro... Eram todos especialistas. Meu pai cuidou de café. Ninguém mexia com a terra porque eles mandavam os índios de lá mexer com a terra. Meu pai era tipo um capataz. Ele cuidava de coca, de café, de banana, laranja, essas coisas. Também trabalhou na destilaria que fazia pinga. E lá ele pegou uma bela de uma malária que perseguiu ele quase até a morte. Mas eu e minha mãe não pegamos.

Aí tinha uma escola, com um professor que de manhã ensinava as crianças pequenas e de tarde os mais velhos, como eu. Era muito boa essa escola. Mas não se respeitava muito esse professor, faziam umas brincadeiras com ele, coitado, sofria um pouco conosco. Ele era judeu alemão, mas nós fazíamos tudo em castelhano. E ele fazia música, tocava música clássica para nós. Agora eu só gosto de música clássica, mas naquele tempo eu não era tão chegada, não. Ele ensinava redação, um pouco de matemática... tudo em castelhano. Todos sabíamos alemão, mas na Bolívia era proibido na época da guerra falar alemão. Um primo meu que chegou no Brasil antes da guerra quase foi preso por falar alemão na rua. Italiano, japonês, era tudo perseguido porque era do Eixo.

Sábados a noite tinha baile, aquele gramofone... Também não tinha luz elétrica lá, tinha aqueles lampiões. Nossa infância em Socobo foi muito boa.

Conheci meu marido em La Paz, cidade onde ele sempre morou. Eu morei uns três anos ou mais na colônia em Socobo. Aí aos quinze anos eu fui para La Paz sozinha para estudar um pouco de secretariado e inglês. Meus pais ficaram ainda em Socobo. Depois, no final do ano, eles subiram também para La Paz. E eu comecei a trabalhar. Morei na casa de uma amiga minha, que os pais moravam antes também em Socobo, na colônia, e foram para La Paz. Meu pai combinou com eles para eu ficar lá. A filha era minha amiga então fiquei lá um ano mais ou menos. A cada feriado eu pegava o caminhão e ia lá visitar meus pais. Ficava morrendo de saudade.

Em 1951 eu e Robert nos casamos em La Paz. E em 1953 viemos para o Brasil, porque meu cunhado, irmão mais novo de Robert, já estava aqui e como ele estava meio sozinho, era novinho, escreveu uma carta para virmos. Então falei: “vamos”. Quando você é jovem você não pensa muito.

Na Bolívia sempre tinha revolução, mas já estávamos acostumados com isso. Vivíamos muito bem na Bolívia, porque ela fornecia minerais aos Aliados para fabricar armas e tal. Eu amo muito a Bolívia, porque foi a Bolívia que salvou nossas vidas, tenho muito carinho por esse país. Alguns parentes do meu marido ainda moram lá, porque meu sogro ficou viúvo e casou de novo. E a esposa do meu sogro tinha duas filhas e elas moram lá. Elas são gente muito boa. A gente considera mesmo da família.

Quando penso na Bolívia é muito melhor do que lembro da Alemanha. A Bolívia era maravilhosa. Nós tivemos uma vida muito boa lá. Todo mundo era pobre naquele tempo, ninguém tinha nada. Era todo mundo igual. Não tinha carro, não tinha nada e éramos super felizes. Tinha algumas pessoas que já tinham dinheiro, tinham carro, principalmente os poloneses, como meu chefe que era da Bessarábia, cada ano tinha carro novo, mas ele era super simples também. Mas tinha uns que eram meio metidos também. Mas na nossa turma era todo mundo igual. Ninguém tinha dinheiro, todo mundo trabalhava desde jovem.

Então falei pro meu marido: “vamos vender nossas coisas”, e rapidinho vendemos tudo. Com isso a gente comprou passagem, sobrou mais um pouquinho e viemos para o Brasil com a cara e a coragem, em setembro de 1953. 

Sobre a Alemanha, não é minha pátria. De jeito nenhum, não tenho nem um pouco de amor pela Alemanha. O momento que acho que simboliza minha passagem pela Shoah, um momento que me marcou muito, foi a “Noite dos Cristais”. A minha pátria é o Brasil e a Bolívia, os dois. Aqui eu tenho raízes, meus filhos nasceram aqui, meus netos...

Só senti antissemitismo na Alemanha quando criança. No Brasil e na Bolívia nunca senti nada.

Relacionados

NOSSIG, Robert