> Sobreviventes e Testemunhos

ZAUDER, Solomon

ARQSHOAH

RG:
SOB/12

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Polônia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
22/02/1923

Data de falecimento:
18/02/1998

Profissão:
Musico(a)

Cônjuge:
Celina Mararu

Irmãos:
David Zauder

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Kalman Zauder

Variações do nome do pai:
Karl

Profissão do pai:
Alfaiate

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Rosa Lucks Zauder

Posição frente ao nazi-fascismo

Passagens por campos:
Gueto de Cracóvia; Auschwitz

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Cracóvia, Polônia

Opção pelo Brasil:
Os familiares de sua esposa já residiam no Brasil

Comunidades de acolhimento

Identificação:
Solomon Zauder

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1948

Acompanhantes:
Bala Zauder e Herszel Zauder

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Eletricista

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Data da entrevista:
1996

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Observações:
Áudio indisponível

Testemunho

Nasci sete dias antes de Purim, na cidade de Cracóvia, que foi a primeira capital da Polônia antes da Primeira Guerra Mundial. Quando completei sete anos de idade iniciei meus estudos em uma escola pública, onde me sai melhor nas aulas de música. Meu pai me comprou um violino e passei a estudar música. Aos oito anos de idade já tocava profissionalmente.

Naquele tempo a vida era muito difícil e, apesar de meu pai ser um ótimo alfaiate, não podia trabalhar para as classes mais afortunadas por ser judeu. Como eu tocava muito bem violino e meu pai bateria, resolvemos fazer uma dupla e tocávamos em bailes e festas nos fins de semana. Ganhei algum dinheiro para ajudar meus pais.

Seis anos depois, em 1929, nasceu meu irmão David. Quando ele completou seis anos, começou a tocar trompete. Hoje, é o primeiro trompetista da Orquestra Filarmônica de Cleveland, nos EUA. Assim foi passando a nossa infância: pobre, mas honesta, divertindo os outros e nos divertindo também.

Na escola pública não aprendi muita coisa, porque os judeus eram obrigados a se sentar na última fileira de carteiras. Como meu sobrenome é Zauder, ao ser chamado para responder alguma pergunta ou ir no quadro negro, a sineta tocava, encerrando a aula. Acabei não aprendendo nada.

No inicio de 1939 comecei a aprender a tocar acordeom e iniciei carreira como eletricista. Essas duas profissões me ajudaram a sobreviver durante a Segunda Guerra Mundial. Logo no começo da guerra, em 6 de setembro de 1939, os alemães invadiram nossa cidade e procuraram os judeus para trabalhos pesados e sujos. Os alemães pegavam os chassidim nas ruas, cortavam seus cabelos e barbas e os mandavam limpar os bueiros. Havia na cidade, naquela época, mais ou menos setenta e cinco mil judeus, reunidos pelos alemães para trabalhos forçados em locais incertos. Sabíamos que muitos nunca mais voltariam, pois foram mandados para o campo de Auschwitz.

Essa situação durou até fevereiro de 1940. Os alemães fecharam as ruas onde os judeus moravam e os obrigaram a sair de suas casas. Eles selecionavam as pessoas para o gueto e para os campos de trabalho. Uma semana depois, mandaram os que restaram, mais ou menos quarenta e cinco mil, buscarem alguns objetos de extrema necessidade e os levaram para um gueto situado no outro lado da cidade. Ali, havia um comandante de polícia, judeu, que fez construir diversas fábricas de manufatura de escovas de diversos modelos. Grande parte das pessoas do gueto trabalhavam nessas fábricas. Esses produtos eram vendidos para os alemães, o que deixou nosso comandante muito rico. Nós só recebíamos o necessário para viver. Nos fins de semana, eu e mais dois músicos tocávamos nos restaurantes frequentados por alemães, onde conseguia arrumar um pouco de comida para minha família.

Em 1942 os alemães resolveram levar todos os profissionais do gueto (eletricistas, pedreiros, encanadores, pintores, marceneiros, etc.) para construírem um campo de concentração no cemitério que se encontrava no bairro de Krakow-Plaszow. Como eu era eletricista, levaram-me junto. Os mais fortes derrubaram as pedras dos túmulos e com eles construíram ruas. Em cima dos túmulos dos mortos, construímos barracões para moradia. Construímos, também, cercas elétricas em volta do campo (outras dentro e fora dos barracões) e um hotel para os alemães, onde eu e os irmãos Rosner tocávamos musica para diverti-los nos finais de semana. Eu tinha somente dezoito anos quando entrei neste campo e pude presenciar tantas atrocidades, que me traumatizaram por muito tempo. De tanto ver estas tragédias se repetirem muitas vezes todos os dias, acabei me acostumando.

Em março de 1943 chegaram ao campo mais ou menos vinte e cinco mil pessoas e, entre elas, meus pais e meu irmão. Meu pai, como alfaiate, cortava uniformes para os alemães que eram costurados nas oficinas, onde minha mãe trabalhava com outras mulheres. Uma noite, meu pai saiu da barraca para ir ao banheiro, quando apareceu um alemão, que inexplicavelmente lhe deu tiro na cabeça, matando-o na hora.

Em agosto de 1944 meu irmão e minha mãe foram deportados deste campo para outro, o de Auschwitz. Eu queria ir junto, mas um policial judeu me tirou da fila e me deu vinte e cinco chicotadas, porque eu não tinha direito de ir com este grupo. Assim permaneci neste campo até 14 de janeiro de 1945, com mais de seiscentas pessoas. Fomos levados, a pé, até o campo de Auschwitz, onde acabei reencontrando meu irmão. Fiquei sabendo, depois da guerra terminada, por pessoas que se salvaram desta tragédia, que minha mãe e mais dez mil pessoas foram enviadas para um porto na Alemanha, na cidade de Hamburgo, e colocadas num navio afundado pelos alemães.

Eu e meu irmão estivemos em vários campos até 24 de abril de 1945, quando fomos libertados pelos americanos e levados para Frankfurt-Meno. Lá me casei com uma moça que esteve em Bergen-Belsen, o maior campo  de extermínio de mulheres.

Ficamos sabendo que uma das irmãs e uma tia avó materna de minha esposa estavam no Brasil. Eu, minha mulher e nosso filho viemos para o Brasil. Como uma avó materna estava nos EUA, meu irmão resolveu emigrar para lá. Só consegui revê-lo vinte e nove anos depois, quando a Orquestra de Cleveland se apresentou no Teatro Municipal em São Paulo.

Aqui a vida era barata. O difícil foi trabalhar na minha profissão como eletricista. A maioria dos judeus trabalhavam como prestamista. Minha esposa era uma mulher extraordinária e ajudou muito no trabalho. Tivemos mais uma filha, que nasceu no Brasil. Conseguimos, com muita luta, criar e educar nossos filhos.

Hoje, minha filha e sua família moram no Canadá. Tive muitos problemas de saúde, assim como minha esposa que faleceu em 1992. Mais tarde, por causa da enorme solidão que sentia resolvi, em 1994, casar-me novamente, com a sogra da minha filha. Estamos felizes até hoje, porque um ajuda o outro. Frequentamos a Hebraica, que é lugar onde podemos nos divertir, até quando D’us quiser.

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Livro: "I am a Standupster: A Second-Generation Holocaust Survivor’s Account by the Daughther of David Zauder", de autoria de Karen Zauder Brass. O livro conta a trajetória de David Zauder, irmão de Salomon Zauder, e traz fotografias e a história da família.