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ZALSZUPIN, Jorge

ARQSHOAH

RG:
SOB/15

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Polônia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
1922

Profissão:
Arquiteto

Formação:
Arquitetura

Cônjuge:
Anete Zalszupin

Irmãos:
Ina Zalszupin

Avós Paternos:
Cecilia Zipert

Avós Maternos:
Bronislawa Zalszupin

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Leopoldo Zalszupin

País de nascimento do pai:
Polônia

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Ida Zalszupin

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Varsóvia, Polônia

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1949

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Arquiteto e designer

Contatos com a comunidade:
Luciano Korngold (arquiteto)

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi, Betina Lerner e Lilian Souza

Data da entrevista:
24/02/2010

Local da entrevista:
São Paulo

Gravação:
áudio

Testemunho

Nasci em Vársovia - Polônia em 1922. Meus pais se chamavam Leopoldo e Ida Zalszupin. A família de minha mãe era originária da Letônia. Ela estudou em Viena e falava fluentemente o alemão. Sou filho mais velho e minha única irmã, dois anos mais nova, se chamava Ina Zalszupin.

Meu pai tinha representação de uma firma estrangeira de maquinário de endereçamento, muito moderna para a época, prestando serviços de mala direta para comerciantes de toda a Polônia. Minha família era bastante assimilada. Morávamos num bairro nobre. Cresci e estudei em um colégio católico, considerado um dos melhores e mais caros da cidade. Era muito difícil conseguir uma vaga neste colégio, porém tínhamos posses, e meu pai fazia doações para manter minha vaga na escola. Eu era um dos poucos judeus que estudavam lá. Isto me fez sentir o antissemitismo de forma muito forte.

Nossa família não costumava frequentar sinagoga e eu nem consegui fazer Bar Mitzvah, pela dificuldade em decorar os longos textos em hebraico. Naquela época eu não gostava muito de estudar. Meu único interesse era a geografia.
Meu pai, como um bom polonês patriota, sempre acreditou que a Polônia ganharia a guerra. Quando eu tinha de 16 a 17 anos, a Guerra começou e eu soube naquele momento que teríamos que partir, talvez por ser pessimista ou sentir mais diretamente o antissemitismo na escola.

Duas semanas após o início da Guerra, meu pai ouviu uma notícia no rádio informando que a polícia polonesa estava se retirando. Foi aí que ele resolveu me dar ouvidos. Tínhamos um pequeno carro onde cabiam apenas quatro pessoas e pouca bagagem. Eu e minha irmã morávamos com meu pai, divorciado de minha mãe. Assim éramos três e sobrando uma vaga para uma quarta pessoa. Depois de muita insistência, convenci meu pai de que levaríamos minha mãe. Fui a pé até a casa dela e naquele momento partimos em viagem com apenas alguma bagagem.

Nossa ideia inicial era ir para o leste, em direção a Rússia. Porém, tínhamos apenas 15 litros de gasolina e era impossível comprar mais por causa do racionamento. Com os bons contatos de meu pai, passamos por uma farmácia de um conhecido e compramos o estoque de benzina disponível, acreditando que o carro funcionaria.
A primeira cidade que passamos foi Lublin, que estava em chamas e não poderíamos seguir em frente. Escolhemos ir à direita e chegamos a uma casa de camponeses, por volta das quinze horas. Fizemos uma boa refeição, descansamos e partimos. Não queríamos ir nem para a Rússia e nem para a Lituânia. Resolvemos ir a Romênia, mesmo sabendo que seria difícil atravessar a fronteira, pois possuíamos somente slots (moeda polonesa).

Chegamos em Lembler Von Vuff, cidade polonesa ainda não ocupada, quase fronteira com a Romênia, e nos instalamos em um hotel. Alguns dias após nossa chegada, ouvimos pelo rádio que todos os moradores deveriam entregar seus carros em um estádio. Pela primeira vez tive uma grande discussão com meu pai, que queria entregar o nosso. Eu achava um absurdo obedecer as ordens de poloneses em plena guerra. Obviamente ficaríamos sem carro e eu sabia que não poderíamos correr este risco. Assim, não entregamos o carro. No dia seguinte tentamos atravessar a fronteira com a Romênia. Não conseguimos e tivemos que voltar ao hotel. Dois dias depois, muitos poloneses atravessaram a fronteira e resolvemos tentar novamente. Como nosso combustível estava acabando, paramos em um local onde ainda se vendia gasolina. Conseguimos comprar 100 litros e um tanque para armazená-la. Assim que atravessamos a fronteira vimos que distribuíam gasolina gratuitamente e que cada polonês teria direito a 3.000 lens (moeda romena) por mês ao entrar no país, segundo um tratado firmado poucos dias antes na Inglaterra. E foi desta forma que nossa família e outras 500.000 pessoas atravessaram a fronteira, a maioria somente de passagem em direção a Turquia e a Palestina.

Nós nos instalamos em Bucareste, onde passamos toda a guerra.
Tivemos muitas dificuldades, especialmente no primeiro ano por não falar romeno. Mas tínhamos a facilidade dos 3.000 lens por pessoa e éramos quatro. Pouco tempo depois, minha mãe resolveu voltar para a Polônia, pois todos seus familiares haviam ficado lá. Mais tarde, soubemos que todos pereceram na guerra.

O primeiro ano foi muito difícil, em vista da complacência do governo romeno diante dos nazistas. Mas houve um golpe de Estado, quando o exército romeno assumiu o comando, melhorando a situação dos cidadãos.

Resolvi retomar meus estudos e me inscrevi na Faculdade de Belas Artes, a única que não precisava falar romeno e também não era necessário prestar vestibular. Foi quando descobri que era bom em desenho, entrando em segundo lugar na faculdade.

Na Romênia sentimos pouco o antissemitismo, mas em nenhum momento nos declaramos judeus. Eu alterei meus próprios documentos e provavelmente outros judeus assim o fizeram. Acredito que existiam mais judeus na nossa situação, porém em nenhum momento se tocava no assunto ou demonstrávamos nosso judaísmo.

Um dia, soube que teria uma verificação na faculdade. Isto me fez congelar. Não sabia o que era melhor, faltar, me autodelatar ou ir e arriscar.
Com muito pavor fui! Estava numa fila grande na escada sem saber como seria, sentindo-me uma “estátua de sal”. Dentro da sala havia três escrivaninhas com médicos e eles examinavam o pulmão, coração e olhavam dentro de nossas calças. Aleatoriamente. escolhi uma escrivaninha. Cai justamente com um médico que era prisioneiro russo. Ele me examinou e quando olhou dentro de minhas calças, espantosamente me liberou, dizendo que também era prisioneiro dos alemães. Este foi o momento mais difícil de minha vida, pois estive a um passo entre a vida e a morte.

Passei um ano na Romênia, até terminar meus estudos, por que não teria outra chance de um diploma de Arquitetura. Neste meio tempo, para conseguir dinheiro eu visitava acampamentos russos e vendia relógios que conseguia de um conhecido na cidade. Consegui juntar dinheiro e pude comprar uma motocicleta.

Assim que a guerra acabou pensei em voltar para a Polônia. Peguei um trem e quando o trem parou em Praga, resolvi sair e embarcar para a França. Neste mesmo período, meu pai foi para Suécia em busca de trabalho. Chegando a Paris, encontrei uma conhecida casualmente no metrô e ela me indicou um trabalho no norte da França, na reconstrução de portos destruídos pela guerra. Consegui a documentação com muita facilidade e trouxe meu pai e irmã. Ainda estava a procura de minha mãe, que havia retornado para a Polônia. Encontrei o nome dela e de todos os familiares (avós, tios e primos) numa listagem da Cruz Vermelha.

Passei três anos morando em Paris e indo diariamente trabalhar de motocicleta nas obras, enquanto meu pai e irmã ficavam em Paris. Foi então que meu pai começou a falar em novas perspectivas de vida e não mais ficar na França, onde trabalhávamos muito, ganhávamos pouco e vivendo de forma miserável. Cheguei a pensar em ir para Honduras.
Eu estava com 21 anos e sempre comprava uma revista francesa de arquitetura e lia muita matéria sobre o Brasil e Oscar Niemeyer. Solicitei várias vezes visto para o Brasil, mas foi negado pelo cônsul Castelo Branco, que desconfiava que eu fosse de família judia. Nunca havia perguntado sobre minha profissão. O cônsul explicava que havia uma pequena cota e que só aceitavam técnicos e agricultores. Assim, eu me apresentei como arquiteto e consegui um visto. Porém, meu pai e minha irmã precisaram esperar mais algum tempo em Paris até que conseguisse trazê-los.

Cheguei ao Brasil em fevereiro de 1949 em navio na terceira classe, pensando que só existia o Rio de Janeiro. No navio, encontrei uma amiga de escola de minha irmã que já havia emigrado para Buenos Aires antes da Guerra. Ela conhecia um arquiteto em São Paulo e me deu um cartão dele, Sr. Luciano Korngold.
Fiquei alguns meses num pequeno quarto no Rio de Janeiro.

Alguns familiares distantes fugidos da Polônia me encontraram e me convidaram para passar um tempo com eles em Belo Horizonte. Lá trabalhei na chácara para o casal. O dinheiro que tinha, uns 500 dólares, foi usado na compra de perfumes franceses, para tentar vender no Brasil. Ao negociar, fui enganado por um advogado polonês, conhecido dos meus tios e perdi tudo.

Voltei ao Rio de Janeiro e encontrei um recado do arquiteto indicado pela conhecida no navio. Era o último dia dele na cidade… Fui correndo encontrá-lo no Copacabana Palace. Cheguei suado e assim que o encontrei ele pediu para ver algum trabalho meu. O único que trouxe estava no meu quarto, tampando um vidro que fazia a divisa com o quarto vizinho. Mostrei e naquele instante ele me pediu que partisse imediatamente com ele para São Paulo, pois não havia tempo a perder. Este foi meu primeiro trabalho como arquiteto no Brasil, no projeto da fábrica Fontoura que produzia penicilina. Desde este momento, nunca mais me separei de Luciano Korngold. Trabalhávamos em um escritório na Rua Barão de Itapetininga. Depois de um tempo, segui minha carreira montando meu próprio escritório de arquitetura, mas nossa amizade sempre se manteve.

Um momento de sorte  na minha vida foi quando encaminhei meu diploma original e a única cópia para um despachante providenciar a documentação, tanto da naturalização, como de trabalho. Ele a perdeu. Foi um desespero, pois seria impossível conseguir uma segunda via depois que a Romênia tornou-se comunista. Coloquei um anúncio em vários jornais e no último instante, um conhecido me recomendou anunciar na “Última Hora”. Um senhor que só lia este jornal, leu o anúncio e devolveu o diploma, pois não sabia o que fazer com aquele pergaminho escrito em uma língua desconhecida.

No Brasil conheci minha esposa, tivemos 2 filhas, sempre morando em São Paulo.
Considero-me uma pessoa de muita sorte, pois passei por vários episódios difíceis e sempre consegui resolvê-los, mesmo o que deu errado a primeira vista, foi a melhor escolha.

Um dos momentos mais representativos de minha vida foi ainda na Romênia, quando houve a verificação nazista, onde fui examinado pelo médico russo que me liberou. Naquele momento estive entre a vida e a morte.  E um dos momentos de maior satisfação é de estar no Brasil e não ter medo. Na Polônia sempre tinha medo.