> Sobreviventes e Testemunhos

YAARI, Arie

RG:
SOB/16

Variações do nome:
Leon Greenwald

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Polônia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
30/07/1922

Data de falecimento:
30/08/2010

Cônjuge:
Fela Goldfreind (primeiro casamento) e Olivia Yaari (segundo casamento)

Filhos:
Josef Yaari, Shoshana Yaari e Paulina Yaari

Irmãos:
Moshé Yaari e Jacob Yaari

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
David Greenwald

País de nascimento do pai:
Polônia

Profissão do pai:
Alfaiate

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Reizl Krieser

País de nascimento da mãe:
Polônia

Religião da mãe:
Judaica

Posição frente ao nazi-fascismo

Passagens por campos:
Campos de Brande, Blechhammer, Gross Sarne, Bunzlau, Wisau e Gross-Rosen

Esconderijo(s):
Ao fugir de uma Marcha da Morte, se escondeu junto de um amigo também fugitivo no sótão do paiol de uma casa abandonada em um local ermo da Alemanha

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Katowice, Polônia

Opção pelo Brasil:
Após a guerra imigrou com a esposa e o filho para Israel. De lá veio ao Brasil, mas o objetivo era daqui ir para os EUA. Acabou se adaptando ao Brasil e aqui permaneceu.

Comitês/associações:
Agência Judaica e Joint

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1954

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Vendendor ambulante, construtor de casas e empreteiro-construtor

Contatos com a comunidade:
Samuel Klein

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Data da entrevista:
09/05/2010

Testemunho

Nasci em Katowice, perto de Cracóvia, na Silésia, Polônia em 30/07/1922. A cidade fazia fronteira com a Alemanha e a maioria dos habitantes falava alemão, inclusive minha família. A cidade tinha 200.000 habitantes. Sosnoviec, 10 km distante, tinha uma população predominantemente judaica. Uma casamenteira havia unido meus pais. Minha mãe era de uma cidade grande.

Tinha 2 irmãos, Moshé e Jacob. Nosso pai era alfaiate, produzia calças e camisas e as vendia na feira local. Era, portanto, um pequeno comerciante. Frequentávamos a sinagoga, mas não éramos ortodoxos. Frequentei uma escola judaica pública. Depois uma outra só pública.

Senti o antissemitismo na Polônia e acho que o polonês já nasce um antissemita e senti isso diretamente ao jogar futebol com poloneses que me discriminaram. Mas em minha cidade brincava com amigos alemães e não os achava antissemitas.

Em 1939, ao iniciar a guerra já havia piquetes nas cidades polonesas contra as lojas dos judeus. Nesse ano minha família mudou-se para uma cidade maior, mais próxima a Cracóvia. Em Chanov aprendi o oficio de encanador na oficina de um serralheiro. Assim que os alemães entraram na Polônia, as condições médias de minha família não permitiram que emigrássemos. Perto de nós vivia uma tia materna, Keila, casada com Zalmon Sterenziz com 4 filhos e, como eram pobres, passavam os Shabat com a nossa família. Meu irmão mais velho tinha 18 anos, eu 17, e um caçula tinha 9 anos quando a guerra estourou.

Um decreto alemão exigiu de cada família judia um jovem trabalhador para substituir os que estavam na guerra. Em 1940 fui o escolhido. Fui para o sul da Alemanha, onde passei toda a guerra, transferido de campo em campo, em um total de onze campos de trabalho. Como era encanador, meu trabalho era de muita utilidade. Eram campos de trabalho forçado. O primeiro foi o Wisal. Do segundo entraram 1.500 homens e saíram 250, 1200 morreram em 4 meses. Trabalhava com trilhos de trens. Na temperatura muito baixa, as mãos esfolavam e as infecções não tratadas mataram muitos. As condições de sobrevivência eram péssimas. Mas, eu, diferentemente dos outros, elemento útil, conseguia me alimentar melhor e o meu trabalho não era tão pesado.

Cinco anos depois fui libertado pelos russos. Estava com 22 anos. Fui para a Polônia em busca de minha família e soube que eles foram enviados para campos de extermínio. Meu irmão mais velho, que tinha sido levado para campo de trabalho, sobreviveu.

Na Alemanha fiquei na região sob controle dos americanos. Lá conheci Fela Goldfreind, com quem me casei. Nosso primeiro filho nasceu na Alemanha. Depois de 2 anos fomos para o Estado de Israel. Meu irmão já lá estava. Minha mulher e meu filho puderam emigrar a Israel legalmente pela Agência Judaica, assim que se inscreveram.

Fui seis meses depois e no meu documento constava o nome de um soldado inglês. Quando cheguei a Israel (janeiro de 1948) - Askalon - consegui um terceiro nome, Arie Yaari, nome de minha família traduzido para o hebraico.

Na Polônia fiz o exército e lutei na Guerra da Independência de Israel. Participei de movimentos juvenis sionistas. Minha esposa também, que foi sobrevivente de campos de trabalho.

Quis emigrar aos EUA em busca de vida melhor. Um comitê de ajuda me ofereceu vir ao Brasil. Aceitamos, porque depois iríamos aos EUA. Chegamos ao porto de Santos em 1954. Ao chegar fiquei sensibilizado quando um trabalhador do porto me ofereceu sua própria comida, ao dizer "Está servido?".

A Joint me ajudou por algum tempo. Depois mudamos para Santo André e ao invés de trabalhar como encanador, profissão sem importância no Brasil, transformei-me em vendedor ambulante. Conheci Samuel Klein, que se tornou um homem muito rico com o trabalho do comércio ambulante e prestamista. Depois me tornei construtor de casas e depois empreteiro-construtor.

Quando soube que a Alemanha estava pagando indenização aos sobreviventes, reivindiquei esse direito e dele sobrevivo ainda hoje.

Ao conhecer Campos do Jordão, gostando do clima que me lembrava a Europa, resolvi construir um hotel na cidade e tive sucesso, pois organizava eventos no hotel, atraindo público. Eram as Semanas Italianas, Espanholas, Judaicas, etc. O hotel atingiu  auge em 1979/89. Os embaixadores davam endereços de grupos de música e dança típica de seus países.

Hoje meu filho mais velho, Josef, dirige o hotel. Tenho mais duas filhas: Soshana, nascida em Israel em 1948, casada com um sefaradita egípcio, Abrahão Antar, e Paulina, nascida em São Paulo em 1955. Seu primeiro marido foi Sérgio Shuckman e o atual é Osias Alves. Tenho 10 netos e 15 bisnetos.

Hoje faço depoimentos em escolas de Taubaté e escrevi um livro, O Leão da Montanha. O sucesso destas palestras me levaram a produzir uma aula cênica em DVD, sob a direção de Sidney Bretanha e Gabriel Miziara, de São Paulo. Sou conhecido pelo hotel, pelas palestras das quais participo e meu DVD. Olívia, minha segunda esposa, me ajuda neste trabalho.

Iconografia

Casamento de Arie Yaari e Fela Goldfreind