> Sobreviventes e Testemunhos

WESSEL, Laszlo

ARQSHOAH

RG:
SOB/17

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Hungria

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
22/06/1916

Data de falecimento:
31/10/1997

Profissão:
Comerciante

Cônjuge:
Eva Sugar Wessel

Filhos:
Istvan Wessel e Janos Wessel

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Marton Wessel

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Berta Mandl

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Tata, Hungria

Navio/vapor:
Provence

Data de partida:
1956

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1957

Acompanhantes:
Eva Sugar Wessel
Istvan Wessel
Janos Wessel
Ilona Sugar
Imre Wessel
Lilia Rosenfeld Wessel
Judit Wessel

Acolhimento:
Hospedaria de Imigrantes

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Açougueiro

Proprietário da empresa:
Casa de Carnes Wessel

Entrevista

Entrevistado por:
Marilia Freidenson, Feigue Fainguezicht e Adriana Jacobsberg

Data da entrevista:
23/02/1994

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Thea Joffe

Observações:
Entrevista concedida ao Núcleo de Historia Oral Gaby Becker do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro. Áudio indisponível.

Testemunho

Meu nome é Lazlo Wessel. Nasci em 22 de novembro de 1916, em Tata, no interior da Hungria, perto da Áustria, entre Budapeste e Viena. Minha família, desde fim de 1800, era composta de açougueiros. Eu e meu irmão, que faleceu no Brasil, nascemos na mesma casa onde meu pai também havia nascido. 

 Morei naquela vila da Hungria toda minha infância até os dezoito anos de idade. Eu já tinha carteira profissional aos dezoito anos. Na Hungria ter uma profissão não era só abrir um açougue. Para abrir um estabelecimento registrado como oficial era preciso ter oito anos de estudo: quatro do primário, quatro do ginásio. Depois, três anos registrado como aprendiz e mais três anos como oficial. Fiz exame de profissional ainda na vila. Tinha que fazer de tudo: matar boi, porco, vitela, fazer todos os tipos de frios, educação de balcão, tudo! Depois pedi à câmara dos deputados para marcar o dia que iria fazer o Exame de Mestre e o fiz em Budapeste. 

 Estudei também quatro anos de ginásio. Era um caipira, nem aulas de judaísmo tive na vila, mas em todos os sentidos fui um péssimo aluno.

Foi um fato, não um orgulho. Gostava muito do que fazia, ficava me divertindo até a noite e ficava cansado... 

Minha família não era kosher, mas não se levava carne de porco para a mesa, e isso é praxe entre os judeus.  Fora de casa eu comia, mas em casa não entrava carne de porco. E quando chegava a Páscoa Judaica, havia os pratos tradicionais.

 Nós tínhamos o açougue que vendia carne kosher e a Associação Judaica tinha confiança na gente. Como o nosso era o primeiro açougue da vila, havia grande movimento e tinha carne kosher.

 Meu Barmitzva foi realizado com uma grande festa. Nossos parentes vieram de Budapeste. Na vila tinha dez mil habitantes e mais que mil judeus. Os judeus que viviam de outros lugares e das fazendas durante o Rosh Hashana todos ficavam em casa, pois não podiam viajar. Aqueles que eram do interior: interior quer dizer dez ou quinze quilômetros. No meu Barmitzva a grande sinagoga ficou lotada. Eu estudei mais ou menos durante um mês (se não me engano, ou mais) para falar aquelas palavras necessárias. Eu fui o último que leu na sinagoga e, portanto, o trecho mais comprido.

O relacionamento dos judeus com os outros habitantes da cidade era perfeito porque todo mundo se gostava. Lá havia um grande corpo do exército, onde muitos eram oficiais. Os oficiais eram convidados pelos judeus para almoçar. E haviam as caçadas. Quando caçavam veado e outros animais, eles vinham, convidavam os judeus e entregavam alguma carne da caça. Minha mãe fazia bolos e entregava aos padres, nossos vizinhos. 

 Os judeus prestavam serviço militar e chegavam até a mais alta patente. Isso até o ano de 1932, quando as relações com os vizinhos ainda eram boas. Depois começaram a escrever nas calçadas "judeus fora".  

Mudei para Budapeste em 1936, quando meu irmão se casou e minha falecida cunhada não quis ficar no interior. Ela convenceu meu irmão a largar tudo e em Budapeste montaram um estabelecimento. Eu, ainda moleque, montei outro, por minha conta. 

Em Budapeste eu tinha um estabelecimento próprio. Aos vinte anos abri uma Casa de Carnes. Já não tinha pai, não tinha mãe, e abri o estabelecimento sozinho. Fiquei lá estabelecido quatro anos, até 1940. Mantinha uma banca no Mercado Municipal em Budapeste.

Em Budapeste não havia problema, nada. Tinha alguns focos, mas a gente sempre era muito bobo ou otimista demais e achava que conosco não iria acontecer nada. Minha esposa ainda foi dançar em 1944 - quer dizer, eu casei com ela em 46.  Em 44 ela tinha vinte anos. Budapeste não quis saber de nada. Boatos... tudo estava normal. Até 19 de outubro, 1944, quando os nazistas húngaros tomaram posse. Depois foi a deportação. Deportaram todos os judeus. 

 Minha esposa Eva era esperta, ela não foi deportada. Iam levá-la no fim de 1944 com as turmas que levavam a pé para a Áustria, pela estrada. Nessa época levavam os judeus como uma boiada na estrada. Reuniam todos, o exercito do lado... quem saía da fila, eles matavam. 

 O destino era o Campo de Concentração. Ela fugiu e entrou numa outra turma que passou. Quando chegaram na fronteira, havia uns que estavam sob os cuidados do Consulado sueco. Falaram: - "Quem tem documento sueco, fica aqui". Minha esposa ficou. Ela não tinha nada - eles também sabiam. Então, trouxeram de volta 200 pessoas que ficaram em Budapeste durante o bombardeio. Ela era enfermeira e passou todo o tempo na cidade, pois era valente, esperta e corajosa. 

Em 1940 eu entrei no Exército. Exército... Chamava-se em alemão Arbeitsdienst – trabalhadores, trabalho forçado ao lado do exército... Por dois anos eu estive em diversos lugares na Hungria. Agora, como eu era profissional, fui dirigido para a cozinha e aprendi a cozinhar porque trabalhei ou fui dirigido na cozinha da escola dos cadetes e, lá, eu era o açougueiro ao lado do cozinheiro. 

 O cozinheiro era convocado pelo exército, mas o cozinheiro se formou na Suíça, foi convocado de um primeiro hotel de Budapeste. Ele me reconheceu logo quando fui mandado lá, como açougueiro, e dizia: "Esse sabe trabalhar”. 

 Em 1942 eu fui para a Rússia. Na nossa turma tinha muitos judeus da Hungria Oriental, Fizemos as trincheiras. Depois, onde a estrada estava minada, mandavam os judeus na frente para as minas explodirem com os judeus, não quando o exército chegava.  Quer dizer, judeu servia para tudo. 

 Depois, em 27 de novembro de 1942, eu embarquei - me embarcaram - como gado nos vagões em direção ao Don.  Bom, então saímos e eu cozinhei no trem aberto.  A cozinha é sempre no vagão aberto, não é? E chegamos nas primeiras cidades. Passamos Cursk, e não sei quantas cidades: Minsk, Briansk e chegamos em Starioskol. Essa era uma cidade a cem quilômetros da primeira linha do Don.  Porque Voronietz já era o Don.  

 A tropa era de duzentos homens e lá nos dividiram em quatro: cinquenta ficaram em Starioskol. Eu, por acaso fiquei com aqueles cinquenta. Só vou adiantar uma coisa: dos cinquenta, sobraram seis.  Eu estou entre os seis.  Dos outros cento e cinquenta não sobrou nenhum! Essa era a média. 

 E não mataram ninguém na Rússia, não mataram judeus. Lá o frio, a brutalidade... Quer dizer, não era aquele campo de gás.  A gente ia, no frio, explodir bombas, essas coisas. Quer dizer: não era fuzilamento, só acabamento.  

 E lá em Starioskol eu fiquei na alimentação: - "Tem açougueiro?" - “Estou aí!” - "Tem que matar quatro bois." - “Pois não!”. Se eu não levasse minhas facas, minhas ferramentas da Hungria, eu nem podia falar isso. Eu levei da Hungria. Matei o boi.   "Ah! Você é açougueiro?" respondi: “Não. Sapateiro. Por isso que estou matando o boi.” Eles gostaram muito e disseram: - "Então você fica dirigindo a cozinha".  E assim, por um mês eu era cozinheiro de todo mundo, e depois de um mês, cozinheiro para três oficiais. Três oficiais húngaros que sabiam que eu sou judeu, mas me deram aquela roupa do exército. Eles protegeram a mim e mais três pessoas – músicos para fazer um programa e eu para cozinhar.  

 E de ponta a ponta naquela parte da Rússia eu era cozinheiro para três, quatro pessoas. Eu cozinhava para as festas. Em Kiev - cidade na Ucrânia - fizeram uma grande festa aos alemães que voltaram. Os grandes generais húngaros em Kiev - os meus oficiais, aqueles três - me chamaram para fazer a festa: - "Olha, tem que fazer uma festa pra quarenta pessoas. Que você acha?" .

 Depois de dois anos juntos, nós ficamos amigos - todo dia eu cozinhei o que eles queriam, arrumei o que eles queriam. Perguntei: “Olha, posso fazer isto, isto, essas coisas. Agora, preciso certas coisas da Hungria para fazer essas coisas”. Eles responderam: "Todo o dia tem aquele avião que vai levar o correio. Você escreve e vão trazer tudo”. 

 Eu fui com esses oficiais até o norte da Hungria e onde eu estava até 1944 não faltou nada para mim.  Se na Rússia tinha comida?  Olha, no interior os caipiras esconderam uma vaca ou duas, um porco, e tinham comida. Homem não tinha lá, porque os homens foram todos na guerra ou aos partizans. Aqueles que ficaram eram velhinhos, mulheres e crianças.  Eles tinham alguma coisa.  Na Hungria também tinha comida - mais no interior.  Em Budapeste quem tinha dinheiro, tinha. 

 Em 1944, uns dias antes do Natal, o Major me disse: - "Olha, meu filho" - me chamava de filho. Ele já era coroa, o homem devia ter 44anos, eu estava com 24. "Olha, você não pode mais ficar com o Exército. Veio uma ordem do mais alto escalão que oficiais que escondem judeus vão ser fuzilados dentro de 24 horas". Oficiais!  "Então eu tenho que mandar você para aquele lugar onde estão recolhendo pessoas para levar no Campo de Concentração. Vai ao seu depósito" - que tudo lá era meu - "pega toucinho salgado" - que era a comida principal - "pão... Você tem algum ouro?", falei: “Tenho um anel” - porque era noivo.  Ele mostrou para mim: “Pega aquela garrafa. Onde tem aquela rolha, faz um buraco atrás da rolha, coloca lá o anel e depois recoloca a rolha, assim você pode esconder. Porque se você chega na fronteira, vem os alemães lá... querem tudo.  Que Deus abençoe você.” 

Em 1944, Natal, a gente estava na fronteira onde os alemães esperavam.  Levaram a gente para o campo de concentração Mauthausen. Bom divertimento... Mauthausen, e depois Minskirchen.  Esse não era tão conhecido como Auschwitz, mas era bacana... De 17 mil ficamos mil e pouco, em um mês.  

 E lá também não tinha fuzilamento, porque lá ainda não tinha câmara de gás, nem frio, nem nada.  Piolho... milhares! E sem comida! Então toda a pessoa pegou aquele tifo, com manchas - do piolho.  Agora, também tem a sorte, não é? Não gostaram do meu sangue. Estava cheio de piolho como todo mundo e sem uma mordida! 

 Em 5 de maio a gente já ficou livre - vieram os americanos. Trouxeram chocolate; um caminhão de chocolate, um caminhão de cigarros. Na estrada jogaram assim, para cá, para lá. Quando chegaram os americanos eles alimentaram a gente. Os doentes foram para hospitais, mas 80 por cento dos doentes não sobreviveram, por maior cuidado dos americanos. Eu estava com 48 quilos – mas sempre tive 88.  A maior parte não aguentou. 

 Levaram para o hospital, tinha médico, tinha tudo. Aqueles que já estavam no fim lá no campo, não conseguiam nem abrir a boca!  E os americanos pegaram todos. Tinha bastante ambulância, tinha tudo, fizeram tudo para mil e poucas pessoas. Eu não precisei nada. Eu com 48 quilos era joia... Não precisei nada. 

 Logo fizeram uma turma e levaram aqueles que estavam bem vivos para um campo de jovens do Hitler chamados Hitlerjugend, aqueles que se formavam oficiais. Levaram os judeus e jogaram lá duzentos alemães - aqueles que estavam presos, não é?  - pra servir a gente. Em volta, os americanos com armas e tudo. Então os alemães tinham que fazer tudo, limpar o banheiro, limpar tudo, e os judeus receberam comida e tudo.  

Quem foi nomeado chefe da cozinha?  Eu, não é?  Então eu arrumei tudo. Fui para a cidade - se chamava Wells, era perto - e fui num frigorífico onde falei: - "Quero esse, esse, esse...". Os americanos pagaram tudo para 200 pessoas. Em um mês, 200 pessoas ficaram como antigamente. Um mês! Tinha bastante remédio, tinha uns 20 médicos... Mas todo o mundo se recuperou naquele campo. 

 Mesmo na Rússia também, na luta - agora deixa os judeus de lado -, mesmo na luta entre húngaros e alemães juntos contra os russos.  Húngaros e alemães sempre apanharam dos russos. Em janeiro de 1943 todo mundo morreu de frio. Os russos não. Porque eu tinha bastante roupa, o caminhão carregou tudo para mim na cozinha. Eu estava com as mesmas coisas que os oficiais. Cuidaram de mim porque eu era o cozinheiro. 

 Os mais sofridos foram os italianos que saíram deste jeito [mostra a camisa leve] da Itália em maio de 1942 e chegaram na Rússia com roupa leve. A roupa de inverno chegou para eles, mas quando chegou colocaram num depósito e no dia seguinte os russos tomaram posse daquele depósito. Então eles ficaram daquele jeito, 20 graus abaixo de zero! Eles tinham o cobertor que usavam à noite, colocaram aquilo nos ombros, e era triste. Não quer dizer que para os judeus era um divertimento, mas como Exército os italianos sofreram demais. Não tinham roupa! Oficiais vieram assim! [mostra a camisa leve] Latinos! Vieram no verão em 1942... Saíram da Itália para brincar, para fazer samba na Rússia, não é? Coitadinhos! A maior parte morreu congelado! 

 Porque se você anda 40 quilômetros direto - e se pode andar folgado: quatro quilômetros por hora, dez horas: 40 quilômetros. Mas a cada 20 quilômetros tem uma hora de descanso porque fica cansado; depois senta... Quem senta, não levanta mais porque começa a dormir e congela. Então quando a gente andou cinco horas, no descanso a gente andava dando voltas no lugar, assim... [gira a mão] Difícil! Quando a gente saiu os italianos ainda estavam lá. Teve gente que fez assim [balança a mão], já caiu tudo!

 Então, depois que me recuperei reuniram um grupo para levar as pessoas para casa. Os americanos organizaram. Chegamos a Budapeste numa grande sinagoga, numa praça onde você podia procurar os parentes que já chegaram. Lá começaram aparecer as listas onde eu encontrei o endereço do meu irmão.  

 Agora, eu tinha uma noiva que foi fuzilada em 12 de janeiro de 1945. Foi fuzilada no Danúbio. E primeiro eu fui procurar meu futuro sogro. Era a 200 metros da sinagoga. Fui lá. Ele me recebeu com lágrimas: - “Sua noiva foi...”. Isso foi um choque, não precisa nem falar.  Ela tinha um rosto como a maior católica que existe. Andou na rua...  Em 1944 ela tinha 19 anos, andou na rua e reconheceram: - "Você é filha daquele judeu." E o que trouxe a notícia para meu então sogro, ele também foi fuzilado, mas não morreu. Nadou por um ou dois quilômetros no Danúbio e salvaram ele; só tinham furado o braço, e ele trouxe notícias...  

 Depois eu fui encontrar meu irmão. Era tudo perto: como um aqui no Clube Pinheiros e outro na Rebouças. Fui lá. Meu irmão era dez anos mais velho, por isso não entrou no Exército.  Ele esteve em Terezienstadt. Era o showroom dos alemães. E lá ninguém morreu, ninguém foi... Lá tinha tudo: comida, lavanderia, tudo, tudo, tudo!  Lá levaram a Cruz Vermelha Suíça e mostraram: - "Os judeus estão aí".  Meu irmão chegou lá por acaso em 1944. Por acaso: - “Pega esse, leva lá.” 

 Meu irmão estava deitado na cama após o tifo, que o tifo dele apareceu na Hungria. Ele voltou e estourou o tifo.  Mas já estava quase bom. 

 Depois da Guerra começou a brincadeira lá em Budapeste. Conheci minha esposa no ano seguinte e casei em 3 de Março de 1946. Nosso casamento foi na maior sinagoga, com rabino, tudo. Minha sogra quis a cerimônia com tudo! Pegou emprestado um sobretudo de pele, que ela ainda não tinha. Chique!  A festa foi na casa dela para vinte pessoas, só a família. 

 E em Budapeste eu abri uma Casa de Carnes. Fazer o que?  Se eu abria Casa de Joias ganhava mais, mas não entendia!  

 Assim foi até 50, quando os comunistas tomaram os bens e ficou tudo nosso, não é? E depois trabalhei no governo de 1950 a 56, como balconista num açougue. No açougue de um outro de quem tomaram... 

 Que tipo de vida poderia levar um balconista em um açougue? Minha esposa também trabalhava como caixa em um outro açougue. E assim, os dois, era como dois salários mínimos. Só tinha um detalhe: em 1946, quando casei, arrumei um apartamento que estava bombardeado e reformei. Deram-me vinte anos de isenção do aluguel. Se não fosse isso, não aguentava.

Como é que resolvi vir para o Brasil? Eu não resolvi. Quem resolveu foi minha esposa: "Vamos para a Austrália". Todo mundo falava na Austrália. E depois uma amiga da minha esposa queria ir para Austrália e minha esposa resolveu ir. Lá temos inúmeros parentes. Temos parentes que fizeram ali, a Sadia daqui - trabalham como a Sadia, com frango, aves. O Rei de Aves. 

 Eu não queria ir porque o Joãozinho, meu filho mais novo, tinha quatro meses - o maior tinha nove anos. Mas é a mulher que manda, não é?  Onde?  Austrália? Está bom. 

 Saímos, em uma semana. Em 1939, muita gente tinha cuidado com o armário ou sua cama, - "Ah, não vamos deixar isso, não é? Como vou sair de lá e deixar o armário, não é?”. E a cama, e as roupas, tudo... Em 1956 peguei uma mala nas costas e fui embora. Ficou tudo lá. 

Fomos para a Áustria como os 180 mil húngaros. Naquela época saíram 180 mil, basicamente seis mil por noite. 

Se tinha impedimento para sair? Tinha e não tinha. Porque no início principalmente - não quando eu saí - no início, os guardas húngaros da fronteira também fugiram.

 Fomos até a fronteira com um caminhão e do caminhão fomos a pé até atravessar a fronteira. Meu filho de nove anos carregou uma pasta. Joãozinho, com quatro meses, estava dentro de um cesta. Minha sogra, com 72 anos na época, acabada de nervos...

 Isso foi em 8 de dezembro. Frio. Se não fosse frio, a gente não chegava. Porque a gente atravessou onde o milho estava cortado e o chão estava duro. Se não fosse duro o sapato ficava preso lá no meio. 

 Passamos a fronteira e fomos recebidos pelas senhoras inglesas da Cruz Vermelha. “Alguém fala inglês?”, “Minha esposa”, “Então vem interpretar”. E já pegaram o Joãozinho e trouxeram leite em pó. “Pode jogar tudo fora”, “Aquela fralda...” , "Não precisa nada". Jogaram tudo fora. Minha esposa falou: “Tenha dó!”. Só deixaram umas fotos que cabiam dentro da bolsa. 

 Jogaram fora aquilo que a gente arrumou na Hungria, mas recebemos tudo novo dos ingleses - qualidade que a gente nunca viu na vida! Minha sogra falou: “Que maravilha!”. De 72 anos, ficou com 60 - virou jovem de um minuto para outro. Virou jovem! 

Levaram-nos para o hospital e lá começamos outra vida. Levaram todas as crianças de dois anos para baixo e minha esposa - cada criança com a mãe, não é? E falaram para mim: “Você vem às 5 horas da manhã, pode pegar sua esposa.” Quem interpretou tudo foi minha esposa. 

Depois todo mundo foi para Viena. Agora, fugiram comunistas que tinham medo que agora ia ser contra, não é? Encontrei em Viena comunistas que eram os mais perigosos: "Hei! Você sem-vergonha...", "Não! Eu só banquei...”. Bancou ó! Bancou ser comunista, mas não era comunista... Mas na Hungria ele estava disposto a denunciar pessoas. 

Chegamos a Áustria, uma semana após a amiga da minha esposa, e fomos lá no Consulado da Austrália. A porta fechou... Em Viena quem nos ajudou foi o HIAS [organização judaica de auxílio aos refugiados]. Pagou hotel, comida, tudo. O HIAS arrumou uma carta que podíamos transitar no bonde, e tinha lugares onde podíamos almoçar - restaurantes, não chiqueiros - onde estava marcado que podíamos comer. E pagou o navio para nós sairmos. 

 Depois, uma amiga da minha esposa que trabalhava no consulado da Austrália como intérprete - inglês - falou com o cônsul: - "Dá um jeito para a minha amiga...", "Quantas pessoas?", "Cinco.", "Cinco pessoas dá." - Chegou a permissão para cinco pessoas - mas éramos em oito com meu irmão, minha cunhada e minha sobrinha! Então eles não poderiam ir. 

 Falaram: "Seu irmão e sua cunhada vão no próximo lote que vai." Mas nós tínhamos saído da Hungria, não tinha confiança em nada que iria acontecer, não é? Minha cunhada falou: “Vamos para o Brasil”. E à noite, angústia... Minha esposa falou: "Então vamos para o Brasil”.  

Se eu sabia alguma coisa sobre o Brasil? Alguma coisa, sim. Porque a minha cunhada da Hungria trocou cartas com o Brasil. Mais: em 1936 no casamento da minha cunhada com meu irmão, uma tia veio do Brasil. Eu tinha 19 anos e ela quase me matou porque não quis vir com ela para cá. “Porque esses frios que você está sabendo fazer, não existem em São Paulo! Tem um alemão” - era o Eder do Santo Amaro - “que tem que fazer requerimento para ele mandar um pouquinho de frios no bairro!”

 Ela morava na Rua Tutóia.  “Lá tem uma mercearia e cada semana vem pouca coisa desse alemão!”. Falou assim: "Venha conosco, você vai fazer a gente ficar rico!" 

Viemos no navio Provence e chegamos em Santos no dia 8 de Fevereiro de 1957. Os parentes nos esperavam e fomos para a casa da tia. Mas depois a gente foi para a Casa de Imigração, no Brás. Naquela noite os húngaros fizeram um grande jantar para a gente. Eles arrumaram camas, tudo, quando gente chegou lá. O máximo possível. 

Ficamos na Hospedaria dos Imigrantes uma noite e o dia seguinte. Saí com muita dor de cabeça de incerteza do futuro - por causa da linguagem, não da profissão. 

Quem gostou daqui desde o primeiro dia foi minha sogra.  Ela gostou. Eu não podia falar se gostei ou não gostei.  Eu não podia julgar. Gostou, não gostou...  Do que?  Não sabia nada!  Olha, era muito ruim porque eu não sabia o que ia fazer, não falava nada de português, mas uma palavra eu quis aprender. Perguntei aos húngaros que já estavam aqui, brasileiros, como podia perguntar: “Como se chama esse?” 

 Depois de duas semanas os padres do Santo Américo deram uma lista de profissões que tem e tal: “Açougueiro - Procurar a Rua Castro Alves 279, Frigorífico Menegon.” Então fui lá no frigorífico: "Como se chama esse?”, falaram: “Esse é o braço”. “Esse é que?”, “Acém.” “Como se chama esse?”, “É faca”. “Como se chama esse?”, “Esse é avental”.

Essa palavra eu aprendi perfeitamente: - “Como se chama”.

Eu trabalhei como desossador no Frigorífico Menegon – que não mais existe –, e toda tarde às 5 horas eu ia a Rua Maranhão aprender português. Era um apartamento grande. Não sei quem deu a aula. Eram jovens filhos dos húngaros, que já nasceram aqui e falavam húngaro e português. Umas 20 pessoas.  

 Eu trabalhei um ano no Frigorífico, depois trabalhei no Villex na Rua Augusta como balconista - salário mínimo. Minha esposa vendeu roupas na rua, batia palmas assim... E a Federação Israelita Paulista aqui pagou o aluguel para nós.

Morávamos na Avenida 23 de Maio. Naquela época se chamava Avenida 23 de Maio, mas não tinha avenida lá, só tinha um pedaço que ia da Tutóia até a Quarto Centenário.  E na outra parte, lá no Anhangabaú, tinha o Hotel São Paulo. Falaram: Um dia vão ligar isto - e ligaram!  

 Mas para ter ideia de valores, eu e meu irmão ganhávamos, cada um, um salário mínimo. E depois de um ano e um mês, já abri o açougue na Rua Manuel Dutra. Juntaram dinheiro pra mim e abri lá.  Desde então estou lá. 

Como foi meu relacionamento com os italianos do Bixiga? Quando abri o açougue entraram lá: "Quero mezzo quilo macinada." O que é isso? Eu não sabia! Porque naquela época ainda tinha italianos lá que não abriram a boca em português. Quarenta anos atrás tinha isso. Só falavam italiano. O sogro do Joãozinho é italiano.  Está aqui já há quarenta anos, não é? Ainda não sabe falar português. Ele não é brasileiro, não naturalizou. Eu me naturalizei em 1963, quando estava aqui há cinco anos; assinatura de João Goulart na época. 

 Um ano depois que abri o açougue chegou uma pessoa e falou: "A sua conta". Chegaram com a conta, com todo direito, não é?  Falei: "Com prazer! Como dá para pagar?”, “Um ano”, “Está bom”. Dividi em um ano e devolvi tudo. Comecei com o açougue em 58, veio a pessoa em 59, e em 60 o que eles deram já foi tudo pago - em dólar. 

 Bom, até fazer nome demorou uns dois, três anos. Comecei em 15 de março de 1958. Não preciso dizer outra coisa: em 1960 comprei a casa do lado para derrubar e construir a mais bonita Casa de Carnes no Brasil. Era a única casa construída para ser Casa de Carnes. Porque aqui o açougueiro alugava uma esquina e colocava lá um balcão, não é? Eu construí! 

 Depois de dois anos eu já tinha 15 pessoas trabalhando lá, e tinha um balcão separado para mim. Então chegaram os alemães. Gostavam de falar alemão - eu falava alemão. Eles deram os nomes de carnes que eles não podiam comprar aqui nem por ouro, porque ninguém sabia o que era aquilo que hoje se chama picanha - que entrou na moda.

 Em 1985 chegaram lá na minha casa na Rua Manuel Dutra o Embaixador húngaro de Brasília e a esposa dele. Essa era uma senhora da sociedade mesmo, mas era húngara. Ela falou: "Olha, eu tenho ido a recepções nos diversos Consulados. Em todo lugar eu como carne boa, mas na minha casa não tem. Eu me informei e falaram que a vitela e tudo vêm da sua casa”. Ela veio a São Paulo junto com Embaixador para a minha casa. 

 Depois eu mostrei os meus bens para o Embaixador - já trinta anos depois, né?  Ele: "Ah, bonito! E quando esteve na Hungria?", falei: “1956”. “Como?”, “Quando fugi”, falei.  Eu estava muito revoltado com todo o húngaro sabe? Primeiro nazistas, depois comunistas... E ele: "Não voltou mais? Por que não voltou mais?”, “Vou falar para o senhor...”, eu inventei um pouquinho, falei: “Porque ainda tem muitos lugares no mundo onde eu não estive. Eu viajo duas vezes por ano, vou a Europa, aos Estados Unidos, Hong Kong, Japão, todo lugar que existe, mas por que eu iria para a Hungria?”. “"E não tem ninguém tem lá?”, falei: “Graças a Deus não”. Voltei para a Hungria em 89, 90, 92. Descobri uma sobrinha que estou ajudando agora. 

 Que sensação tive quando voltei pela primeira vez? Nada! Como pisar no lixo! O que eu fui lá? Judeu, depois capitalista. No comunismo eu era capitalista, antes do comunismo, era judeu sujo. Que sensação? Nada!

Fui lá porque eu não falo inglês, só a minha secretária fala inglês - minha esposa, não é? Então para mim tinha a facilidade da língua; porque na Áustria e na Suíça eu falo alemão, não é? Mas nos outros lugares só minha esposa fala. Eu digo para a minha esposa: -“Fala isso, pergunta isso, pergunta aquilo...”, e na Hungria é mais fácil - só a linguagem, nada mais.