> Sobreviventes e Testemunhos

FISCHER, Eduardo

RG:
SOB/24

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Romênia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
21/03/1922

Data de falecimento:
09/08/2013

Cônjuge:
Gabriella Fischer

Filhos:
Edith Osmo e Julio Fischer

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Mendel Fischer

Variações do nome do pai:
Mende Ber

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Rivka Buchsensjaner

Religião da mãe:
Judaica

Posição frente ao nazi-fascismo

Passagens por campos:
Budesland; Mauthhausen; Gunskejin

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Sighet, Romênia

Data de partida:
1964

Locais de parada:
Após viverem 8 anos no Uruguai vieram para o Brasil

Comitês/associações:
JOINT

Cidade:
Porto Alegre, RS

País:
Brasil

Data:
1964

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Pesquisadores presentes na entrevista:
Rachel Mizrahi, Rosana Meiches, Roseli e Lilian Ferreira de Souza

Data da entrevista:
12/11/2008

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Lilian Ferreira de Souza

Testemunho

Meu nome é Eduardo Fischer. Nasci no dia 21 de março de 1922 em Sighet  (Romênia), hoje, pertencente à Hungria. Em minha cidade natal, a maioria dos moradores eram judeus, pobres e religiosos. Havia na comunidade mais sinagogas do que escolas. Vivíamos bem até que começaram a valer as leis antijudaicas.

Vivíamos bem, em uma família de oito pessoas, meus pais, minha avó materna que morou conosco até falecer e os meus irmãos. Meu pai era comerciante de cereais e, em 1929 ressentindo-se do crack da Bolsa, precisou vender nossa casa. Embora pobres, vivíamos decentemente e todos nós estudávamos.

Meu pai nos acordava bem cedo e fazia o café, embora não podíamos comer antes das rezas. Frequentávamos a escola judaica. Voltávamos e depois do café íamos para a escola pública.

Depois da venda do negócio de cereais, meu pai passou a negociar lenha em um local que alugava. Assim, fomos criados com dificuldades. Nunca faltávamos às rezas da sinagoga, seja pela manhã como à noite. Nossos alimentos eram kasher.

Eu era o filho mais novo da casa e falei ao meu pai de não haver futuro onde estávamos. Na cidade grande haveria maiores possibilidades e convenci meus pais de permitir minha ida à Arat, na região da Transilvânia. Eu tinha 16 anos.  Lá, um tio, irmão do meu pai, me deu um cantinho pra dormir. Ele era porteiro de uma loja de tecidos e, embora pobre, fazia questão de me convidar para jantar nas sextas-feiras.

Diante das dificuldades, passei fome e comia com a ajuda de amigos. Procurei emprego e comecei a trabalhar em uma fábrica de bolsas para senhoras. Aos sábados eu comia na sinagoga, logo depois do grupo de estudo da Talmud.

Em 1940, Hitler devolveu Sighet (terra onde nasci), aos húngaros e, virei húngaro. Voltei para a casa dos meus pais. Precisando ajudá-los decidi ir a Budapeste, onde arrumei um emprego com um judeu muito simpático. No inverno, a prefeitura contratava pessoas para limpar a neve, então durante o dia trabalhava na fábrica e à noite, das 22 horas até as 6 horas da manhã, limpava a neve da rua. Com este trabalho conseguia enviar alguns vinténs aos meus pais.

Em 1944, todos os homens, mesmo os não judeus, foram convocados para o exército. Os judeus faziam os trabalhos forçados. Trabalhamos nos depósitos de combustíveis (debaixo das montanhas) 7 horas diárias, sem descanso.

As leis antissemitas fizeram com que meus pais passassem o pequeno negócio para uma pessoa de nome cristão e passamos a depender da boa vontade dele.

O trabalho forçado tornava-se cada vez mais difícil. As ordens eram para trabalhar cada vez mais. Um dia chegou uma tropa alemã. Não eram da SS, mas técnicos alemães.  Havia uma diferença entre os húngaros e os judeus. Os húngaros só falavam sua própria língua, enquanto os judeus falavam outros idiomas e tinham melhor formação (médicos, engenheiros, professores). Os técnicos alemães argumentaram com os oficiais húngaros dizendo, “como o senhor quer que esse coitados trabalhem se eles não têm um dia de descanso”. Depois disso, tivemos o domingo de folga. Mas, quando eles foram embora os húngaros se vingaram e nos surravam.

Em 1944 um oficial informou que iria nos embarcar de Budapeste para a Alemanha. Naquela época os judeus da Transilvânia já tinham sido deportados. A maioria dos meus amigos do campo de trabalho de Budapeste me perguntou: “Eduardo você tem onde se esconder?” Ter eu talvez teria porque tive uma namoradinha que tinha um tio não judeu. Mas, eu respondi que não iria criar problemas para eles, porque na minha cara, se vê que sou judeu e não escapei. 

Saímos de Budapeste e não nos deram nada para comer. Passamos pela fronteira pelo território austríaco, dominado pelos alemães. Chegamos no outono em uma noite fria, nevava e só com a roupa do corpo, fininha. A fome era enorme e foi tudo horrível! Chegamos (dizem que o primeiro campo de concentração a gente nunca esquece), em Bundesland, perto de Viena. Pensamos que iriam nos dar alguma sopinha, alguma coisa quente. Que nada!! Fomos deitar no chão. E outro dia de manhã, os SS entraram gritando “Fora! Fora!” e nos levaram para uma floresta que estava cheia de neve. Trouxeram  ferramentas e tínhamos que cortar as árvores com as ferramentas manuais destinadas a barricadas anti-tanques, porque o inimigo já estava perto.


Depois de pouco tempo, nos levaram para outro campo. Nunca nos informavam onde. Embarcamos naqueles barcos que levam trigo e, não deram nada para a gente comer. Quando chegamos a Mauthausen, a maioria morria de fome. Havia gente que arrancava os pedaços de madeira do barco e comia. Era um campo mais organizado. Era de extermínio. Deram-nos um pedaço de pão e uma água morna que eles chamavam que sopa. Era um campo onde a gente não trabalhava, só esperava a morte. Lá encontrei gente da minha cidade. Ficamos lá um tempo. Não sei quanto. Parece que os americanos já haviam desembarcado e os alemães estavam em fuga.

E, nos puseram em fila porque íamos para outro lugar. Saímos de Mauthausen e nos levaram a Gunskejin, perto de Mindz, uma cidade famosa. Foi o pior campo que a gente podia imaginar: o chão esburacado, úmido, a gente sem roupa e, tínhamos que nos ajeitar. Era março de 1945.

O que me impressionou neste campo, foi um senhor com seu filho: quando lhe deram um pedaço de pão e a sopa, o pai comia o pedaço de pão e a sopa do seu filho. Acho que deveria ser ao contrário, que o pai desse ao filho. Lá vi o quanto estávamos perdidos!

No dia 05 de maio amanheceu e não recebemos nossa água suja. Um olhou pela fresta e viu que os alemães tinham ido embora. Foram e nos deixaram trancados lá.
Não sei onde arrumamos força e quebramos aquela madeira. Saímos desconfiados. Lógico que a primeira coisa que pensamos foi a de ir para o depósito de comida. Os que tinham força foram, eu era um daqueles! Parecia com o Inferno de Dante! Eu queria salvar minha vida, meu estômago.

Descobri um tonel com marmelada, e comi com tanta ansiedade. A minha sorte era que os outros também queriam comer. Isso, hoje, parece cômico, mas foi trágico.
Tinha uma turma fiel, quatro ou cinco amigos. Os que tinham força foram para a estrada. Como não tínhamos nada a carregar, fomos devagar. De repente refletores estavam em cima da gente... eram os americanos.
Disseram que não poderíamos seguir pelo caminho, porque eles tinham desalojados os alemães há poucas horas.  Seria perigoso. Fomos levados a um hospital.
A primeira coisa que fizeram conosco foi tirar toda a roupa no pátio, e nos desinfetaram com um pó, cortaram nosso cabelo e fomos para os apartamentos. Eu não acreditei: era limpinho, tinha água quente... tinha de tudo.

Instalados nos quartos, eu peguei umas latas de feijão em conserva, fui para a cozinha. Fiz uma sopa com manteiga e ficamos felizes. Reviramos os armários, tinha objetos de valor. Eu achei uma máquina fotográfica Laica. Naquela época era a mais valiosa e achamos uma mala cheia de dinheiro, com marcos alemães. Não pegamos nenhuma nota, levamos para o pátio e com muita raiva queimamos tudo. Pensando o que os alemães haviam feito com os judeus... deles não queríamos nada.

Saímos de lá, pela manhã com o estomago cheio. Pedi um limão a um oficial e ele me deu. Estava passando mal. Acordei só 6 semanas depois, em um hospital alemão.  Lá, o médico me disse que quando eu cheguei parecia um morto. Colocaram-me em uma sala separada, com a identificação no pescoço. Eu tive sorte porque uma comissão internacional de médicos do Canadá, Austrália, América chegou e examinou os corpos. Eles tocaram no meu pulso e viram que ainda estava vivo. Por isso estou aqui, hoje.

Depois me perguntaram onde eu queria ir. Eu não sabia, pensei em voltar à  casa dos meus pais. Fui de trem com três amigos. Lembro que cheguei a Budapeste em 31 de dezembro de 1945. Fui procurar minha ex-namorada, ela sobreviveu. Passei uns dias lá, e fui para a minha cidade. Lá encontrei meu irmão que depois atingiu um alto posto oficial em Israel.

Soube que meus pais foram deportados para Auschwitz junto com minhas duas irmãs, onde foram para a seleção. Lógico que eles foram direto para a  câmara de gás. Minhas duas irmãs eram jovens e foram para Theresienstadt, que era território tcheco dominado pelos alemães. Meu irmão, falecido em Israel,  foi para Ucrânia, para trabalhos forçados. Como era cozinheiro de primeira qualidade, ele trabalhou para os oficiais no front, e quando podia ele ajudava aqueles coitados.

Não aguentei ficar na cidade, não suportei o ar e a falsidade dos húngaros. Eu e meus três amigos fomos pra Budapeste, clandestinamente. Lá, já estavam os sionistas que nos juntaram em uma escola judaica. Fizeram papéis que éramos gregos, para poder sair da Hungria, como se fôssemos prisioneiros de guerra. A dificuldade seria atravessar toda a Iugoslávia.

Chegamos com esses papéis e não podíamos falar nada, caso contrário, iram nos descobrir. Pegamos um trem para Belgrado, onde ficamos um dia e chegamos sexta-feira, na véspera de shabat pra Scopia, a capital da Macedônia. Lá havia uma comunidade judaica considerável, os sefaradis que falavam espanhol. A gente se entendeu e passamos o sábado muito bem. Da Macedônia iríamos para a Grécia e, de lá, para a Itália.

Chegamos a Milão e ficamos em uma comunidade israelita. De lá fomos ao campo de refugiados em Torino, onde os ingleses tomavam conta. Não ficamos muito tempo. Lógico que estávamos em liberdade. Havia algumas restrições: tinha médicos, enfermeiras. Não era ruim.

O movimento sionista organizou o grupo de 100 jovens e nos levaram para o sul da Itália, província de Leche.

Conheci minha futura esposa e a mãe dela. Minha sogra era uma mulher linda, tinha 40 e poucos anos, era uma mãe e tanto, cuidava das filhas gêmeas, ficamos com ela até seu falecimento nos anos 70. Eu não me considerava genro e sim filho dela.  Eu casei com a Gabriella em setembro na cidade de Roma. Nosso casamento não era religioso, pois estávamos em um Kibutz esquerdista, mas teve uma festa, da maneira que dava para fazer.

De lá, fomos ao Cine Cittá, a fábrica de filmes italiana, e nos alojaram naqueles barracões. Cada família tinha um cubículo para morar. Era um tédio. Queria fazer alguma coisa e arrumei um trabalho na cozinha, porque era um campo transitório. De lá, mandavam as famílias para a imigração.  Era 1947 para 48. Comecei a trabalhar na cozinha, sem pagamento, lógico. Só pra fazer qualquer coisa.

Perguntaram-nos se queríamos ir para o Canadá. Impossível. Queríamos ir para os Estados Unidos, impossível. Para o Brasil, impossível.  Aos países sul-americanos, só aceitavam os nazistas. Depois, nos aconselharam a fazer papéis para viajar como turistas para o Uruguai e de lá, seria mais fácil imigrar para outro país.  Para isso, precisávamos ter dinheiro no banco. Na Itália, consegui um senhor que arrumou um papel falso que dizia que eu tinha dinheiro no banco. Consegui a entrada para o Uruguai.
Mas para chegar ao Uruguai tivemos que passar pelo porto de Santos, e aí ficamos um dia parado. O navio cargueiro Sestrieri tinha que descarregar as mercadorias que trouxera. E deixaram os nazistas e os húngaros descer... nós, os judeus, não podíamos descer.
Chegamos ao Uruguai em 24 de agosto, em um feriado nacional, dia da independência.  A JOINT nos esperava com ônibus e nos levaram a uma praia em Montevidéu, onde ficamos no hotel. No terceiro dia, minha sogra arrumou um emprego, de costureira.
Vivemos oito anos no Uruguai e depois viemos para Porto Alegre. Em 1965 viemos pra São Paulo, onde alugamos um apartamento lindo na Rua Baronesa de Itu.

Quando cheguei a São Paulo, peguei a lista telefônica para encontrar alguma coisa israelita: cai na Congregação Israelita de São Paulo. Telefonei para lá e disse que sou migrante. Eu não tinha nada!

Batalhamos: constitui uma família bonita e feliz. Isso é nossa maior vitória, porque aqui chegamos e sabemos que tem uma continuação.  Isso é a maior sorte, nunca pensávamos que isso poderia acontecer.

Iconografia

Eduardo Fischer

Gabriella Fischer

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