> Sobreviventes e Testemunhos

FISCHER, Gabriella

RG:
SOB/25

Variações do nome:
Gabriela Hauser Molnar de Fischer

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Hungria

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
27/06/1929

Profissão:
Professor(a)

Cônjuge:
Eduardo Fischer

Filhos:
Edith Osmo e Julio Fischer

Irmãos:
Anna Hauser

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Julio Hauser

Variações do nome do pai:
Gyula

País de nascimento do pai:
Hungria

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

Nome da mãe:
Julia Hauser

País de nascimento da mãe:
Hungria

Religião da mãe:
Judaica

Esconderijo(s):
Foram protegidos por Raoul Wallenberg

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Szeged, Hungria

Data de partida:
1964

Locais de parada:
Após viverem 8 anos no Uruguai vieram para o Brasil

Cidade:
Porto Alegre, RS

País:
Brasil

Data:
1964

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Pesquisadores presentes na entrevista:
Rachel Mizrahi, Lilian Ferreira de Souza e Rosana Meiches

Data da entrevista:
12/11/2008

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Ana Carolina Duarte

Testemunho

Meu nome é Gabriella Fischer, nasci no dia 27 de junho de 1929, na Hungria, em Szeged.

Minha infância era maravilhosa. Eu tinha uma irmã gêmea. Classe média modesta, mas muito boa. Acho que nós fomos protegidas demais, principalmente pelo meu pai, mas também pela minha mãe. A minha infância era muito boa, salvo pelas tentativas de antissemitismo na Hungria.

Quando íamos na rua brincar os meninos da minha idade ou um pouco mais velhos, jogavam pedras, xingavam por que éramos judias, e eu tinha medo de apanhar. Tem uma coisa que me marcou, uma vez minha irmã e eu fomos a um parque, e lá, menininhas da nossa idade estavam brincando, fazendo roda e cantando. E a minha irmã e eu corremos lá para participar do jogo. Elas iam pegar nas nossas mãos para nos deixar entrar na roda, quando uma menininha olhou para nós e perguntou 'qual a religião de vocês'? Eu sou muito mais tímida. Minha irmã é bem mais corajosa. Ela falou 'somos judias'. Aí a resposta foi 'vocês não vão poder brincar conosco porque vocês mataram o Cristo'. Essa coisa me marcou bastante.

O que mais me impressionou era aquele medo constante de sair para a rua. Eu me lembro que os meus pais estavam sentados em frente ao rádio ouvindo os berros, falando em alemão – claro que era Hitler – e eu me lembro que os meus pais ficaram verdes. Outra lembrança, a minha mãe, com 33 anos deixou de menstruar, ela também sofria enxaquecas e ficava deitada num quarto escuro. Uma vez, à noite, o meu pai teve que chamar o médico para dar uma injeção, algum remédio e o médico falou 'são os nervos'.

Meu pai, como o meu sogro eram técnicos de trigo. Como a Hungria era produtora, meu pai pesava e verificava a qualidade do trigo que seria exportado para outros países e com as 'leis judaicas' ele perdeu esse emprego. E começaram os anos mais difíceis.

A minha mãe era tão boa cozinheira que a nossa mesa era sempre farta. Sempre tudo era muito bom.

Meu pai perdeu o emprego e virou coletor. E as coisas ficaram muito mais difíceis. Minha mãe já não ia mais de manhã na feira; ia ao meio-dia para comprar as coisas mais baratas. E, outro trauma. Eu era uma criança acho que demais apegada ao meu pai. E, não lembro bem a data, acho que deve ter sido em 1937 ou 1938, os húngaros chamaram para os trabalhos forçados os homens acima de 50 anos. Nessa categoria entrou o meu pai. E essa separação, de uma menininha de sete a oito anos do pai, foi um trauma muito grande. Ele ficou não sei quantos meses fazendo trabalhos forçados, a minha mãe não podia pagar o aluguel do apartamento, o que era a grande vergonha para ela e assim foi...

Eu tinha oito anos, não tenho certeza. Só sei que a minha mãe às vezes suspirava e falava... E nós morávamos no mesmo prédio onde morava a dona do apartamento. E ela era extremamente gentil. Acho que nunca reclamava do pagamento. Sempre quando nos encontrava, acariciava-nos a cabeça e perguntava 'tudo bem em casa?' e dizíamos 'sim senhora, tudo bem em casa'.

            Meu pai ficou meses ausente. Uma noite, me lembro muitíssimo bem, já era escuro, era outono, tocava a campainha e a minha irmã falava “quem é que poderia chegar a essa hora?" Ela levantou-se para abrir a porta e viu que era o meu pai. E a minha irmã teve uma reação, ficou em choque fechou a porta e deu um berro. E eu, quando ouvi a minha irmã dar aquele berro, pulei em cima, abri a porta e eu vi o meu pai em frente à porta e eu me atirei nos braços dele, como se nunca quisesse me separar e ele falou no meu ouvido 'minha pequena, será que me deixas entrar?', e foi assim que terminou essa primeira separação com o meu pai.

Ele voltou definitivamente. E começou a luta de como conseguir dinheiro para pagar o aluguel, como comprar lenha, porque na Hungria o inverno é extremamente rígido. Nesta época meu avô paterno faleceu, ele era filólogo, morava numa outra cidade que ficava a mais ou menos 20 quilômetros de Budapeste. Ele tinha uma casa e deixou para minha avó e seus filhos. A minha mãe foi para o enterro, e como ela herdara uma parte da casa, nós mudamos da minha cidade natal para aquela cidadezinha que estava a 20 quilômetros de Budapeste. Atualmente, faz parte da 'grande Budapeste'. Na época não era uma cidadezinha separada de Budapeste.

A partir daí o prefeito daquela cidade era, como posso dizer, de um tal antissemitismo que depois da guerra ele foi julgado e enforcado por crimes contra a humanidade. Com isso mudou tudo nas nossas vidas, porque na minha cidade natal não sentia tanto antissemitismo assim. Mas como o prefeito era como acabei de dizer, nós não podíamos sair para a rua, não podíamos ir para o cinema, não podíamos ir a nenhum lugar público. A escola era horrorosa. Nós éramos as duas únicas crianças judias na escola.

A Hungria começou a ser bombardeada de uma forma brutal pelos ingleses e russos... A lembrança que eu tenho, uma noite, claro que era mais Budapeste, mas algumas saíram, 20 quilômetros não era nada. Na escola, no dia seguinte entrou a professora de matemática, acho que é por isso que eu detesto tanto matemática, e claro, comentou com as suas alunas que o bombardeio de noite, e a professora falou 'ouvi dizer que da sinagoga mandaram sinais para os aviões'. E uma coleguinha minha levantou a mão e falou 'professora, não só da sinagoga, mas das casas judias também'. Então vocês já imaginam, duas únicas meninas judias... Aliás, quando nós mudamos para a escola nessa cidade, nós entramos na classe, nós, as únicas judias, nos sentamos. Chegou a professora e nos mandou para a frente da classe. Nós tínhamos tranças compridas, e ela ordenou que desfizéssemos as nossas tranças e olhou no nosso couro cabeludo pra ver se não tínhamos vermes. Em frente da classe inteira. A minha irmã começou a soluçar quando nos mandou voltar para ocupar os nossos lugares. Eu só queria morrer.

Nós também nos sentíamos húngaros que, como eu lhe disse, minha mãe tinha quatro irmãos e os quatro claro, participaram da Primeira Guerra Mundial, que começou em 28 de junho de 1914. Dois deles foram mortos em outubro do mesmo ano. O terceiro foi feito prisioneiro. Por meio da Cruz Vermelha soubemos que ele havia desaparecido, mas ele ficou oito anos na Rússia. E o quarto ficou na frente, era oficial e como meu avô era professor universitário numa escola pública, ele escreveu uma carta para o Kaiser Francisco José, explicando que dois filhos dele foram mortos, o terceiro foi dado como desaparecido, pedindo que ele permitisse que o quarto filho voltasse das trincheiras, do horror da Primeira Guerra Mundial. E o pedido foi aceito, o Imperador permitiu.

Nós éramos judeus de confissão, mas de nacionalidade húngara.Foi a minha língua materna, foi a comida, foi a música... Era a minha pátria, e sair da Hungria para mim foi como se tivesse 'rasgado'.

Meu pai encontrou um trabalho como coletor. Ele viajava a cada manhã para Budapeste e voltava à noite. Eu o esperava na estação e era a nossa felicidade. Comentávamos os acontecimentos do dia, até que um dia... o meu pai era um homem de muito conhecimento, ele lia os jornais todos os dias e sabia da situação. Ele tinha na minha cidade natal uma irmã, a irmã mais velha, e eles se adoravam. E acho que ele sentia já no ar que alguma coisa ia acontecer e ele resolveu viajar e visitar essa irmã. `          Foi, acho que em 18 de março de 1944, e eu sei, vocês não vão acreditar, isso não tem explicação, meu pai saiu bem cedo da casa, eu senti o cheiro do sabonete dele, que ele se barbeava, me deu um beijo, porque a noite a gente se despedia, a mala estava pronta, e assim que ele me beijava, senti com sono, ainda muito cedo, estava escuro, e quando a porta se fechou atrás dele eu pulei fora da cama e corri para chamá-lo de volta, mas ele já tinha ido embora. Eu não sei explicar isso. Aí eu fui no banheiro, peguei o pijama dele que ele havia deixado, levei ele na cama, abracei e caí no sono. Eu não sei onde que eu viajei no meu sono, mas quando acordei, o pijama dele estava molhado com as minhas lágrimas. Foi a última vez que eu vi o meu pai.

O meu pai foi à minha cidade natal, Szeged, visitar a irmã. Nesse tempo, desde 9 de março de 1944, entraram os alemães no sábado e no domingo à noite a Hungria foi ocupada. Nós mandamos um telegrama para o meu pai dizendo 'volte imediatamente!' O país foi ocupado pelos alemães, mas tudo funcionava às mil maravilhas, o correio funcionava, embora fosse domingo. Meu tio, irmão da minha mãe, foi para o correio e mandou o telegrama. Na mesma noite chegou um telegrama do meu pai dizendo 'chego amanhã'. Minha irmã e eu fomos à estação, até porque não sabíamos a que horas encontraríamos ele. Esperamos o dia inteiro. Nunca mais chegou.

Como o meu tio, irmão da minha mãe trabalhava numa organização, antes ele era diretor de um banco e perdeu o emprego também, e lá nesta organização foi empregado. Eles tinham como trabalho principal ajudar os judeus, porque a Hungria foi o único país onde os judeus não foram deportados. Então muita gente das fronteiras da Iugoslávia, da Ucrânia, da Romênia vieram para a Hungria e precisava ajudar essa gente.

Milhares de judeus cruzaram a fronteira clandestinamente e entraram na Hungria sem falar uma palavra em húngaro e sem dinheiro, então essa organização tinha como missão especial ajudar a alojar essa gente de alguma maneira. Ninguém podia saber que meu tio trabalhava nesta organização clandestina.

Uma semana depois do desaparecimento de meu pai, meu tio voltou a noite e disse que em 20 de março todos os judeus que estavam nos trens viajando foram retidos e enviados a campos de concentração. A Cruz Vermelha foi proibida de entrar e ninguém sabia quem fora assassinado ou quem tinha sido fechado naquele campo. Meu tio disse que a única maneira de saber se ele ainda vivia ou se o mataram era mandar um pacote de dois quilos, sem uma palavra. Se ele estivesse lá, o pacote ficaria. Se ele não estivesse lá, o pacote voltaria. Aí pensamos o que fazer, o que mandar. Resolvemos mandar um Strudel de nozes. Já era muito difícil conseguir açúcar, margarina, farinha, ovos. E minha mãe se sentia muito mal, disse que iria se deitar um pouco e à noite faria o doce. Quando ela se deitou eu e minha irmã decidimos fazer e, quando minha mãe acordou, o doce já estava pronto na mesa. E como o pacote não voltou, nós queríamos mandar outro pacote, mas o campo já não permitia a entrada - esse campo foi hermeticamente fechado.O campo ficava em nossa cidadezinha. Podíamos ir a pé. Era a alguns quilômetros de Budapeste.E a angústia continuava.

Depois de duas ou três semanas tivemos que colocar a estrela amarela. E já foi estabelecido que iríamos viajar a uma cidade maior, de onde seríamos deportadas. Tivemos duas semanas de prazo para pegar o trem e levar o essencial, poucas coisas, e ir para aquela tal cidade.

Uma semana antes de pegar o trem, toca a campainha e entra o oficial da prefeitura com dois soldados alemães. Eles queriam requisitar a casa e estavam com uma lista nas mãos. Entraram sem dizer uma palavra, e como se fossem máquinas abriram todos os armários, tudo. Fizeram uma lista, imagina o cinismo deles, do que nós teríamos que deixar para eles. A roupa de cama, a prataria, a louça... enfim, o que deveríamos deixar.

Nós não tivemos opção, a casa tinha que ser entregue em perfeita ordem, limpíssima, deixando aquela lista que nos entregaram e, em compensação, eles nos dariam 'documentos' de permissão para pegar o trem e ir para Budapeste e não para o gueto.

Meu tio tinha que levar a chave da casa para a prefeitura. Ele levou a chave de manhã cedo e voltou dizendo "vocês sabem que mais duas famílias estão na mesma situação que vocês?" E, ao entregar a chave, ele tinha que dar o endereço em Budapeste onde iríamos viver. Em Budapeste, naquela época, os judeus estavam aglomerados e apavorados, pois era a única cidade onde não havia deportação. Depois ficamos sabendo que Eichmann chegou com a sua equipe e queria começar por Budapeste. Mas disseram a ele que a cidade estava livre de judeus. Não sei por que os técnicos começaram pelo interior. Em seis semanas não havia mais judeus na Hungria. Foi uma brutalidade.

Chegamos ao anoitecer em Budapeste e o endereço que o meu tio nos passou, o quarto que íamos ocupar já estava ocupado. Uma outra família ocupou naquela angústia e confusão. Nós ficamos na rua, à noite, sem saber aonde ir.

Meu tio, que tinha muitos amigos e conhecidos, falou "vocês fiquem aqui na esquina e eu vou tratar de dar um jeito". Pouco tempo depois ele realmente achou um outro alojamento, aliás, muito bonito, num apartamento luxuosíssimo de uma rica família judaica, e nós podíamos ir lá à noite, tínhamos um teto. E o meu tio no outro dia foi trabalhar nessa organização e voltou com a notícia de que aquelas duas famílias foram levadas, na mesma noite, às 4 horas da manhã a um lugar desconhecido. Nós fomos procurados naquele endereço que ele havia deixado na prefeitura. Só que cada vez que tocava a campainha nessa casa, nós pensávamos: "nos encontraram".

E era evidente que todos nós iríamos ser assassinados. Nessa casa havia um casal de pessoas idosas. Eles tinham dois filhos, já adultos, entre 30 e 40 anos. Em uma manhã, a senhora dona do apartamento e o marido, vestidos para viajar, falaram: olhem, nós vamos viajar, não sabemos quando voltaremos e encarregou minha mãe de cuidar da casa. Sem a estrela, eles foram para a clandestinidade. E nós ficamos lá. E muitas vezes tocavam a campainha, gente que não pegou o trem da deportação, morrendo de fome. A minha mãe os ajudava como podia.

Tínhamos que sair para comprar comida, morrendo de medo. Nunca sabendo se a gente ia levar uma bala na cabeça. Porque os jovens de 15, 16, 17 anos estavam armados até os dentes. A gente caminhava entre os cadáveres, mas tínhamos de sair. Como você vai comer uma fruta, comer um tomate, um pão?

Eu tive uma pequena suspeita de estar com tuberculose e minha mãe ficou angustiadíssima. Havia um serviço de biologia no hospital judaico. Só que nós só podíamos sair de meio-dia acho que até as duas horas. A minha mãe me levou três ou quatro vezes para esse hospital, mas nunca chegava a nossa vez porque nosso tempo máximo de espera era de duas horas.

Pouco tempo depois, não sei bem quanto esse casal voltou, estavam abatidos e muito tristes. E depois veio uma outra ordem que todos os judeus tinham que ir às casas chamadas e marcadas com estrelas. Tinha estrela desse tamanho, amarela, a mesma que usávamos no coração, grudada no portão do prédio onde só viviam judeus. O único não judeu era o zelador e cada família podia ocupar um quarto.

Nós éramos todos jovens e nos reuníamos. Líamos muito e recitávamos poesias. Procurávamos viver num outro mundo, o da poesia. Um amigo meu muito querido, que ia ser virtuoso do piano, tocava Mozart, Chopin e nós queríamos evadir e fugir desse horror que estávamos vivendo. Éramos todos adolescentes. Nós queríamos lutar de uma maneira espiritual contra o horror.

Éramos cinco nessa época, a minha mãe; o meu tio Júlio Moanar, a minha tia Olga, irmã do meu pai e nós duas gêmeas. Budapeste foi bombardeada e destruída, nós vivíamos do salário do meu tio, e saiu um aviso requerendo pessoas para limpar os escombros e as ruas. E eu imediatamente me apresentei, fui com Magda, uma amiga minha que tinha 22 anos. Naquela época eu tinha acabado de fazer 15. Havia uma fila enorme, todos com estrelas amarelas, como era um serviço pago muitos queriam ir, o cara não queria me pegar, mas eu insisti que era muito forte e resistente então o cara me aceitou ele era o contra-mestre e falou ‘olha, aqui não tem brincadeira’.

Nós trabalhávamos das 6 da manhã até as 6 da tarde, mas eu estava tão feliz porque foi a primeira vez na minha vida que eu ganhei dinheiro. E trabalhamos até outubro, quando veio outra lei: todas as pessoas de 16 a 50 anos tinham que ir para o trabalho forçado. Lá foi o meu tio Júlio, a minha amiga Magda. Da janela víamos os tanques, as luzes vermelhas dos tanques russos, esperávamos a chegada dos russos que já estavam na fronteira da Hungria em agosto de 1944. E nós olhávamos a cada noite, porque sabíamos que a nossa vida dependia deles.

O governador queria fazer um acordo de paz separado com os aliados. Naquela hora, imediatamente, um governo fascista foi formado. Foi um golpe de Estado dos húngaros da extrema-direita fascista. Uma coisa é muito importante dizer: uma noite nós acordamos com berros, choros, tiros e, depois, o silêncio. Na casa com a estrela amarela ouve um pogrom e assassinaram todos. E aí o nosso zelador, que era o único não judeu, um homem de bem, deu a chave do portão a um amigo nosso, tinha 17 anos e ele correndo risco de vida saiu e arrancou a estrela amarela da nossa porta para que nós não sofrêssemos o mesmo horror.

Depois do golpe de Estado veio o governo de extrema-direita. Não passou muito tempo, talvez uma semana, acordamos com berros. Eram os fascistas que estavam no pátio, aos berros, "todos descendo, vocês têm dez minutos para descer". Chovia e todos, claro, desciam. Mandaram todo mundo deitar de bruços, com a nuca descoberta e você imaginava que agora vem a execução. Ouvíamos, ‘e quem ousar mexer um dedo vai ser imediatamente assassinado’. Naquela hora, eu tinha só um desejo: ir embora pegando a mão da minha mãe, mas tinha medo de me mexer, eles andavam na chuva no meio desses corpos estendidos, não sei quanto tempo ficamos lá.

Mandaram-nos levantar e fizeram a seleção: os mais velhos e as crianças foram para um lado e os demais para outro. Nós todos fazíamos parte do grupo que ia, aqueles que ficaram foram fechados no sótão e das grades eles olhavam aterrorizados para nós. Nos foi dado dez minutos para nos vestir e descer novamente, eles contaram todos e falaram que ‘se vai faltar um, todo o resto vai ser morto’. Todos voltamos.

Fizeram-nos caminhar. Eles nos olhavam com ódio. Chegamos em Buda altas horas da noite, caminhando pelo meio de cadáveres que foram cobertos com papel, caminhávamos no sangue e no barro e chegamos tarde da noite a uma olaria de Buda. Encharcados até não poder mais, cada um desmaiou num lugar. E nós procurávamos a minha tia Olga, ela desapareceu, estávamos certos de que ela estava deitada, sangrando, em algum lugar no meio do caminho. E lá ficamos. Nós não tínhamos nem lágrimas. Gritavam o nome dela um pouco e algum tempo depois, abrem a porta e com alto falante dizem "quem quiser se aliviar pode ir ao pátio". A angústia era tanta que a gente até esqueceu que tinha corpo. Então se formou uma fila, deixaram sair 8 pessoas e contaram as 8 pessoas e era a mesma história 'se só 7 voltarem os 7 vão ser assassinados'.

Chegou a nossa vez, eram oito mulheres, entre as oito mulheres minha mãe a minha irmã e eu. Saímos, tivemos que formar uma roda; entre cada mulher, uma fascista com um revólver. Nós tínhamos que nos abaixar com uma fascista atrás de nós, nas nossas costas e nos aliviar. Eu morria de vontade de urinar, mas não saía uma gota da minha bexiga. A humilhação... eu me sentia violentada, eu me cobri e voltamos com as outras pessoas e é claro que eu não aguentei. O corpo, o frio, aquele ar corrente gelado, a roupa fria no corpo. Eu não podia urinar nas calças porque imediatamente se transformaria em gelo, e a minha mãe estava com os olhos fechados. Eu a sacudia, pensei que já estivesse morta. Porque a luz era meio verde claro, quase escuro. Eu falei "mãe, não aguento mais" e ela disse 'você tem que urinar'. Então fomos mais uma vez, fizemos mais uma vez a fila, e aí eu já não me importava. Eu fiz o que precisava em frente deles. Essa foi outra coisa que marcou... tem tantas coisas que marcam.

Pouco tempo depois, a Magda, amiga que trabalhava comigo, voltou e o meu tio também. Todos que foram levados para fazer trincheiras contra os tanques russos voltaram. E a Magda ficou sabendo que tinha um orfanato mantido pela Cruz Vermelha, mas era aparência. Na realidade a missão deles era salvar crianças judias.

Me escapam lembranças da olaria, mas o que queria dizer é que formavam grupos e levavam para a Áustria a pé, porque não havia mais trilhos. Já estavam bombardeados. Era a Marcha da Morte de Budapeste até a fronteira com a Áustria - uns 300 km. A maioria morreu na caminhada.

Quando já restavam poucas pessoas no pátio dessa olaria, começaram alto-falantes a gritar "as crianças menores de 16 anos serão levadas de volta para Budapeste". A minha irmã gêmea pegou na minha mão e disse vamos. Eu peguei o braço da minha mãe e disse nunca. A minha irmã foi no grupo das crianças que iam de volta para Budapeste. Eu peguei na mão da minha mãe e chegou um policial que olhou para mim feio e falou "Você não ouviu? Vai lá já para as crianças! e eu não sei "de onde eu criei coragem olhei pra ele, comecei a soluçar e falei que o meu pai já tinha sido levado e da minha mãe ninguém me separaria. E ele ficou, acho que ele ficou compadecido e falou "vão rápido longe, porque o grupo de vocês já está sendo levado para caminhar". E lá ficamos nós duas, uma olhando para a outra.

Os fascistas trouxeram uma mesa enorme, com lâmpadas de acetileno e falaram "agora, vamos revisar vocês". Eu, naquela altura pensava que seria tão bom morrer para me livrar de todo esse horror. Eles falaram "vamos revisar vocês, e quem não tiver salvo-conduto vai ser imediatamente fuzilado". Eu pensei, pelo menos já me livro desse mundo de horror. E de repente nós vimos chegar um senhor de baixa estatura com uma pasta e começa a berrar com os fascistas, ele era o delegado do consulado espanhol falando que ainda estivesse na olaria teria que ser imediatamente mandado de volta para Budapeste.

Eu não sei como me arrancaram com a minha mãe e fiquei no grupo das crianças menores de 16 anos. Caminhamos a noite inteira acompanhados pelos fascistas, logicamente, e nos levaram para a grande sinagoga de Budapeste. E lá nós fomos acolhidos e não sei quem falou que tinham muita pena... Bom, nós ficamos na sinagoga, mas eu não estava muito bem, estava delirando.

A minha irmã contou que eu não sabia que há três dias estávamos alojados. E ela disse "você não lembra que nós dormíamos no tapete?"e não me lembro de nada, estava o tempo todo em espírito procurando a minha mãe e não achava. Três dias se passaram e os fascistas permitiram que a gente voltasse para a casa marcada. A minha irmã e eu voltamos, e quando chagamos em frente da porta, nem ela nem eu tínhamos coragem de subir. Nós ficamos lá, na rua, chorando, não sabíamos o que nos esperava e uma empurrava a outra. Subíamos as escadas, uma limpando as lágrimas da outra, tocamos a campainha, foi a minha mãe que abriu a porta.

Soubemos que minha amiga Magda ficou tão traumatizada... ela não era mais criança, tinha 22 anos e queria arriscar tudo então foi com a minha irmã. As duas tiraram a estrela e, às escondidas, saíram da casa marcada. Claro que eu jamais iria deixar a minha mãe e nós ficamos eu, meu tio e a minha mãe.

Veio outra ordem, em 24 horas todos os judeus das casas marcadas teriam que ir para o gueto que estava com muros. Meu tio falou "nunca para o gueto, nunca". Como ele tinha muitas relações, ele conseguiu proteção da Cruz Vermelha, fomos para uma casa protegida, éramos 17 num quarto, mulheres e crianças. E outro tanto, eram dois quartos: um quarto para os homens e um para mulheres e crianças.

Um dia soubemos que os fascistas entravam e desrespeitavam todos, levavam para a beira do rio Danúbio e assassinavam e depois jogavam os corpos no rio. E para não correr o risco de ser assassinados na beira do Danúbio, nos apresentamos para trabalhar junto com outras pessoas da casa. Uma noite nós estávamos esperando meu tio e era toque de recolher, depois de certa hora você não podia mais circular, a angústia que a gente tinha esperando, esperando e ele não chegava, veio um jovem falando "olha, o Júlio mandou dizer para não esperá-lo depois da hora tal". Essa foi a última notícia do meu tio Júlio. E nós ficamos sozinhas, a minha mãe e eu, e um dia a Ana voltou, ela tinha fugido do orfanato.

A casa onde estávamos ficava à beira do Danúbio, que separa Peste de Buda. Buda já estava ocupada pelos russos, era o rio que separava a vida da morte. De Buda, eles bombardeavam com canhões a cidade de Peste. E como em nossa casa o nosso quarto ficava na esquina, entrava uma bala de canhão por uma parede e saía pela outra, a 15 centímetros das nossas cabeças, mas ninguém se feriu. Só que por causa do estrondo, das pedras caindo, todo mundo ficou num estado de choque, deixou dois buracos enormes. Nós ficamos tão apavorados que todo mundo correu para o sótão, porão, para não sermos mortos. Para falar a verdade, eu sempre matutava com os meus 14, 15 anos, o que é melhor: morrer nas mãos dos fascistas ou morrer por uma bomba. Acho que preferia a bomba. Corremos como loucos e ficamos lá embaixo, não me lembro quanto, nem como. Algum tempos depois, a porta se abriu violentamente. Eram os fascistas e nos puseram para fora, nós saímos como ratos amedrontados e fomos levados para o gueto. Lá não havia mais querer ou não querer.

Caminhamos algumas horas. Outra lembrança horrorosa era que na minha frente caminhava um casal de dois velhinhos, um homem e uma mulher e ele deixou cair um pequeno pacote que continha feijão preto que se esparramou na neve. Imediatamente os fascistas chegaram lá aos berros "olha essas merdas de judeus, eles ainda têm café”. E o velhinho começou a agachar para recolher aquele tesouro, os grãozinhos de feijão e acertaram um tiro na nuca dele e se estendeu no mar de sangue, a esposa dele e nós estávamos em estado de choque, eles falaram “continuem andando... vão na frente, suas merdas, vão na frente”. Aí chegamos ao muro do gueto de Budapeste. Era noite, tinha uma mesa e falaram que cada um de nós tinha que deixar as joias. Eu tinha um anel de prata, eu queria tirar do meu dedo, mas com o andar e com o frio o meu dedo se inchava tanto que o anel não saiu. E eu pensava bom, agora vão cortar o meu dedo, vão me amputar. A minha mãe conseguiu tirar a aliança dela. Aí eu mostrei as minhas mãos, mas não conseguia falar e disseram “É uma porcaria, vai”. Abriu-se a porta do gueto e nos deixaram entrar. Era noite, nós caminhávamos: vi troncos de madeiras colocados um do lado do outro, centenas e centenas, numa praça grandes... mas não eram troncos, eram cadáveres. Eu, naquela noite, pensava que eram troncos. Mas no outro dia vi que eram cadáveres.

Chegamos em frente tal casa, era número 7 da praça Klauzar, foram 18 para dentro. Nós entramos no gueto em 9 de dezembro de 1944 e fomos libertados dia 18 de janeiro de 1945. E lá no gueto todo mundo delirava, falava em comida, ninguém entregava os pontos. Sabíamos que íamos morrer, mas ninguém sabia quando e como.

Um dia alguém falou que tinha uma pessoa à nossa procura e que se chamava Olga, era a minha tia. Ela foi levada a pé, nós nos perdemos no caminho para a olaria, nós achávamos que ela tinha sido assassinada. Ela foi levada a pé até a Áustria e de lá foi expulsa porque era velha e doente. Existia no gueto um hospital e lá estava ela com pneumonia, muito doente, e ela falava para todo mundo que tinha parentes, que queria ver os parentes, e alguém nos avisou. Veja só, milagres existem. E nós corremos ao hospital: a gente se viu, chorou o que nós tínhamos ainda de lágrimas e quando nos despedíamos, ela pegou de baixo do travesseiro dela três pedacinhos de pão que ela guardou e dizia "eu sabia que iria ver vocês mais uma vez".

E então, uma noite, nós ouvíamos barulhos, tiros. O barulho era tanto que nós pensávamos que era o fim do mundo. Era uma luta de corpo a corpo entre os russos. Os russos penetraram no gueto, mas nós não sabíamos o que era. Quando finalmente um pouco de silêncio, todo mundo se levantava e nós fomos até as janelas, elas estavam lá em cima eram os russos e ninguém ousava sair porque não acreditávamos que milagre existisse.

[Gabriella Fischer estava extremamente emocionada ao final da entrevista. Não teve condições de continuar o seu relato.

De Budapeste ela partiu com a mãe para a Áustria e posteriormente Itália, onde permaneceu por dois anos. Neste período conheceu Eduardo Fischer e casaram-se em 1949 em Roma. Decidiram sair da Europa rumo ao Uruguai onde residiram por oito anos. Em 1964 passou a residir em São Paulo, depois de oito anos vivendo em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.]

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