> Sobreviventes e Testemunhos

AHARONI, Esther

RG:
SOB/63

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Espanha

Grupo:
sefaradi

Data de nascimento:
29/03/1929

Profissão:
Comerciante

Cônjuge:
Schlomo Aharoni (primeiro casamento) e Abrão Cukier (segundo casamento)

Filhos:
Meier Aharoni e Aron Aharoni

Irmãos:
Ioel Cohen e Eugênia Cohen

Avós Maternos:
Eugênia Baruch e Marco Baruch

Filiação - Pai

Nome do pai:
Aron Cohen

País de nascimento do pai:
Turquia

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

Nome da mãe:
Mazaltov Baruch

País de nascimento da mãe:
Turquia

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Barcelona, Espanha

Opção pelo Brasil:
Marido recebeu proposta para trabalhar no Brasil

Data de partida:
1959

Locais de parada:
A família imigrou para Israel de 1944. Em 1959 Esther mudou-se com o marido para o Brasil

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1959

Acompanhantes:
Schlomo Aharoni, Meir Aharoni e Aron Aharoni

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Comerciante

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Pesquisadores presentes na entrevista:
Rachel Mizrahi e Lilian Ferreira de Souza

Data da entrevista:
01/07/2008

Local da entrevista:
São Paulo,SP

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Lilian Ferreira de Souza

Testemunho

Eu nasci no dia 29 de março de 1929, em Barcelona, Espanha. Meus pais se chamam Aron Cohen e Mazaltov Baruch. Tenho dois irmãos, Ioel e Eugênia.
Minha família é originária da cidade de Istambul , Turquia, onde meus bisavós paternos tinham um alambique e estavam financeiramente bem.

Meu pai mudou-se para Barcelona em 1926 e se dedicou ao comércio de tecidos e roupas. Diante da situação relativamente calma, pediu a minha avó Eugênia Baruch trazer sua noiva Mazaltov e o irmão dela para Barcelona, pensando ali viver. Casaram e depois de três anos, eu nasci.

Minha infância foi marcada por bombardeios e mortes da Guerra Civil Espanhola de 1936. Como um concurso de matança, eu sabia qual a bomba que matava mais, qual a arma mais poderosa, etc. Meus pais eram intimados a tirar impressões digitais, iam todo os meses à polícia, informando nosso endereço. Acredito que isso era para saber onde estavam os judeus. Era difícil ser judeu na Espanha, não os permitindo estudarem em escola pública. Soube disso depois.

Devido à Guerra Civil, meu pai enfrentou muitas dificuldades no comércio. Por isso decidiu partir para a França, que era perto da Espanha e não apresentava perigo de ser bombardeada. Alugou um avião particular da Air France e em 1936, saímos de Barcelona.

Desembarcamos em Toulouse. Eu estava muito doente com tuberculose e não conseguia respirar e nem comer. Fui levada a um hospital. Assim que me recuperei, partimos de trem para Paris. O meu pai procurou um bairro judaico descoberto por falarem iídiche nas ruas. Havia muito judeus em Paris. Nossa sorte foi a de que meu pai trouxe suas economias escondidas em um fundo falso de um baú e minha mãe escondeu suas joias, embrulhadas em novelos de lã.

A vida continuou e logo fui matriculada na escola pública. Tinha aproximadamente 10 anos e me receberam como uma rainha. Deram-me malhas e cachecol. Tínhamos médicos toda semana. Um dia passaram a distribuir máscaras de gás, mas quem era judeu ou com o sobrenome Cohen não recebia. No mesmo dia perguntei ao meu pai por que isso acontecia. Ele me respondeu que um dia eu iria saber. Meu pai tinha medo que alguém pudesse me machucar, me bater, me matar e agindo assim me protegia.

Um dia minha mãe recebeu uma visita em casa, e me pediu para comprar café turco. Comecei a prestar atenção nas pessoas falando sobre a guerra e fiquei preocupada. Comprei com todo o dinheiro que tinha café que coloquei na sacola e voltei para casa. Contei aos meus pais o que tinha visto. Diante do antissemitismo latente, papai resolveu sair de Paris, pois certas coisas eram avisos que algo poderia acontecer. Mamãe preparou as malas, escondeu as joias e fez uma cesta de sanduíches e saímos em 1939 de Paris, rumo a nossa casa em Barcelona. Fomos de trem e depois carro até chegar.

Quando entramos percebemos que fora saqueada. Levaram tudo, tapetes, móveis e objetos. Tivemos que reconstruí-la. Meu pai voltou a trabalhar: foi pra a zona atacadista comprar ações e depois para Palma de Maiorca vendê-las e sempre voltava para casa alegre. Mamãe ajudava costurando as roupas. Assim fomos retomando a vida em nossa cidade. Fui matriculada em uma escola de freiras. Uma delas me perseguia por ter sobrenome Cohen. Meu pai se irritou com isso e me transferiu para a Escola Francesa de Barcelona.

A vida na Espanha de Franco era diferente. Para convidarmos outras famílias para o Yom Kippur tínhamos que pedir licença na prefeitura e mandar o nome de todos os convidados. Se não fizéssemos isso eles poderiam considerar um complô contra o governo. Mesmo assim recebemos em casa um senhor, cujo avô era rabino e ele sabia bem as tradições e as rezas.

As famílias judias começaram a sair da Espanha para construir a vida em Israel. Nossa vida estava difícil e meu pai segurou. Era um desastre não ter comida quando eu voltava da escola. Minha mãe, que era uma mulher fortíssima, desabou, perdeu a razão e adoeceu.

No final do ano de 1943 saímos de Barcelona. Em Cadiz, embarcamos no navio português Enotrea, em janeiro de 1944. Chegamos a Haifa e fomos recebidos pela polícia inglesa. Eles precisavam saber o nome de todos os passageiros do navio. Os rabinos verificavam se todos eram judeus. Desembarcamos e fomos para um lugar que parecia um campo de concentração onde permanecemos em quarentena. Havia barracões e o banheiro era coletivo. Acho que lá havia cerca de cinquenta pessoas.

Depois fomos para Tel Aviv em uma casa de refugiado onde estavam umas trinta pessoas no barracão. Neste lugar foi difícil pra minha mãe: o meu pai ficou sem dinheiro e minha mãe escondia as joias. Depois fomos pra o bairro judaico ainda em Tel Aviv.

Em junho de 1947 eu me casei com Schlomo Aharoni, um engenheiro civil. A mãe dele era dona de um pequeno prédio. Meu filho Meier nasceu em 1948 e ficamos quinze anos em Israel. Meu marido tinha uma prima aqui no Brasil. Ela retornou a Israel com os quatro filhos, nascidos no Brasil. Ela nos dizia que o Brasil era um país bonito.

Em janeiro de 1959 meu marido recebeu um convite para trabalhar em uma construtora no Brasil. Quando chegamos, aluguei uma casa na Rua Silva Pinto e passei a trabalhar com confecções para crianças. Montei uma loja na Rua Oriente. Passados alguns anos fui visitar meus pais em Israel, minha mãe estava hospitalizada em uma casa de recuperação de doentes mentais. Quando voltei, meu marido tinha comprado uma fábrica, a Camisaria Belmonte, já falida, e com isso ele ficou doente. Eu fui trabalhar como gerente da Loja Gessyl Modas, na Rua Oriente, onde fiquei onze anos. Com o dinheiro, pagava as dívidas de meu marido. Ele faleceu quando eu tinha aproximadamente trinta anos.

Meu segundo casamento foi com Abrão Cukier e ficamos doze anos casados, quando ele faleceu.

Durante a guerra eu não perdi nenhum membro da minha família, mas sempre tinha medo e a sensação que tinha era estar sempre preparada para uma nova fuga. Eu não sei o que é pior, eu passei a vida inteira fugindo olhando pra trás. Para mim isso foi muito triste.

Iconografia

Caderno escolar de Esther Aharon

Casal Cohen, avós paternos de Esther Aharoni

Esther Aharoni

Esther Aharoni

 Esther Aharoni

Mazaltov Baruch, Esther Aharoni e Aron Cohen

 Eshter Aharoni

Eugênia Baruch e Marco Baruch, avós maternos de Esther Aharon