> Sobreviventes e Testemunhos

ERLICH, Eva Orbach

RG:
SOB/64

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Polônia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
15/11/1922

Data de falecimento:
22/01/2016

Cônjuge:
Israel Pinkuss Erlich

Filhos:
Anette Erlich Gerzgorin e Daniel Erlich

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Fischel Daniel Orbach

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Chana Orbach

Religião da mãe:
Judaica

Posição frente ao nazi-fascismo

Passagens por campos:
Gueto de Cracóvia; Auschwitz; Bergen-Belsen

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Książ Wielki, Polônia

Data de partida:
1948

Cidade:
Salvador, Bahia

País:
Brasil

Data:
1948

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Data da entrevista:
1996

Local da entrevista:
São Paulo

Transcrito por:
Rachel Mizrahi

Observações:
Áudio indisponível.

Testemunho

A cidade onde vivi era grande e perto de Cracóvia. Eu era a caçula de uma família de nove filhos. Meu pai era um negociante próspero e vivíamos bem. Possuíamos um armazém, onde estocávamos produtos para o período do inverno.

Nossa família era religiosa e em todos os Shabatot (plural de Shabat)  íamos muito bem arrumados para o shul.

Estudei numa escola oficial polonesa. Meus colegas antissemistas diziam que a Palestina era a nossa terra e era para lá que deveríamos ir. Aprendi o ídiche em casa, com professor particular. Sentíamos o antissemitismo, especialmente no Natal, quando nos fechávamos em casa, para não ouvir os slogans antissemitas.

Quando a guerra começou, eu tinha catorze anos e não havia mais condições de emigrar. Os alemães tomaram a Polônia, e nossa casa foi requisitada pelas autoridades. Alguns de nossos bens foram deixados com poloneses e nunca mais voltamos para buscá-los, porque toda a minha família pereceu nos campos de concentração. Sobrevivi e fui a única da família Orbach.

No gueto, Hitler deu a ordem de derrubar o antigo cemitério de Cracóvia, que era enorme, com as lápides próximas umas às outras. Deu-nos oito dias para destruí-lo, para que, em seu lugar, se construíssem barracas. Muitos foram, então, mortos pelos nazistas.

Passei quatro anos em Auschwitz e presenciei coisas horríveis, que não consigo contar. No final da guerra, passamos de Auschwitz para Bergen-Belsen, a pé – Marcha da Morte – onde muitos pereceram, devido à doenças e ao frio. Apesar da ajuda da Cruz Vermelha, muitos adoeceram pela fraqueza. Minha determinação era sobreviver.

Conheci meu marido Israel no Campo e o reencontrei por puro acaso e felicidade. Quando estava no hospital, chamei a enfermeira e pressenti a necessidade de descer. Quando Israel me viu, pegou a minha mão e confortou-me com otimismo, pelo fato de eu ser a única sobrevivente da família.

Cheguei a voltar para minha cidade e pude fazer um Sidur em homenagem aos meus familiares.

Eu e Israel nos casamos logo depois e nossa filha nasceu em Paris. Através da JOINT, conseguimos chegar ao Brasil. Porém, meu marido não se adaptava ao trabalho de ambulante. Começou a fazer consertos em relógios. Tivemos mais um filho e, com a ajuda de algumas pessoas, juntamos algumas economias. Passamos a viver na Bahia, em Salvador, onde permanecemos por trinta e cinco anos. Fundamos uma casa especializada, que se tornou conhecida como Relojoaria Suíça. Como meus filhos viviam em São Paulo, onde já estavam casados, resolvi, após o infarto de meu marido, voltar para cá. Meus dois filhos me deram quatro netos.