> Sobreviventes e Testemunhos

MOSER, Max Israel

ARQSHOAH

RG:
SOB/67

Variações do nome:
Maximilian Herbert Moser

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Alemanha

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
28/10/1910

Cônjuge:
Herta Moser

Filhos:
Peter Joachim Moser

Irmãos:
Alfredo Moser e Ema Schirokruev

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Jacob Moser

Variações do nome do pai:
Kaufman Jacob Moser

País de nascimento do pai:
Alemanha

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Gertrude Lande

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Berlim, Alemanha

Opção pelo Brasil:
Familiares da esposa já residiam no Brasil

Navio/vapor:
Rio de Janeiro Maru

Data de partida:
1939

Locais de parada:
A família permaneceu algumas semanas em Xangai à espera dos vistos para o Brasil

Cidade:
Niterói, RJ; Rolândia, PR

País:
Brasil

Data:
1939

Acompanhantes:
Herta Moser e Peter Joachim Moser

Área de fixação:
Urbana de início (Niterói, RJ) e rural posteriormente (Rolândia, PR)

Contatos com a comunidade:
Família Kaphan (Rolândia, PR)

Entrevista

Entrevistado por:
Maria Luiza Tucci Carneiro

Data da entrevista:
28/09/1989

Local da entrevista:
Rolândia, PR

Transcrito por:
Maria Luiza Tucci Carneiro

Observações:
Áudio indisponível.

Testemunho

Nasci em 1910 em um subúrbio de Berlim. Sou filho de Jacob Moser, comerciante bem situado, rico e que pagava muitos impostos à Alemanha. Meu pai era proprietário de uma grande empresa de atacados com muitas lojas em diferentes cidades. Vendia, principalmente, máquinas de costura, máquinas de escrever e bicicletas. Tive uma juventude muito feliz, até que minha mãe faleceu em 1921, vítima de um ataque do coração. Foi este um dos primeiros desastres de minha vida. Fui criado por uma governanta "ariana" que, pela sua dedicação, eu considero, até hoje, como minha mãe. Ela me educou.

 Tenho ainda um irmão, Alfredo, dois anos mais novo e uma meia irmã, Ema, 5 anos mais velha. Esta casou-se com o Dr. Arno Schirokruev, grande escritor judeu, afamado e que foi professor de literatura alemã na University Baltimore Md. USA. Arno era autor de vários livros e trabalhou em uma rádio aversa ao nazismo. Morreu aos 53 anos, após ter ficado três anos no campo de concentração de Dachau. Um arquivo sobre sua vida e obra foi organizado junto à Universidade de Goettingen, na Alemanha.

 Mas, retornando a minha infância, gostaria de lembrar que meu pai me proporcionou uma educação maravilhosa. Estudei, desde 1917, no Grunewold Gynnasium, muito afamado na época. Atualmente chama-se Walter Rathenan Gynnasium, em homenagem ao Ministro do Exterior da Alemanha assassinado no começo dos anos 20 pelos "direitistas". Fiquei doze anos nesta escola. Terminei o curso de madureza, denominado de Abitur. Na escola, percebi pouco de antissemitismo. Uma vez ou outra, mas sempre me defendi. Posso dizer que esta não era, ainda, razão para eu me sentir infeliz.

 Para mim, eu era alemão. Tive muitos amigos judeus, que queriam ir para a Palestina, que eu considerava como outro país, como tantos outros: Inglaterra, França, etc. Eu era alemão e meu pai era mais alemão ainda, quase nacionalista. A gente sabe o que é isto. Fiquei mais nacionalista que os próprios alemães; o que foi comum entre grande parte das famílias judaicas daquela época.

 Minha casa era confortável e grande. Meu pai estava muito bem financeiramente. Foi um dos primeiros a ter carro: dois carros. Ele possuía uma grande rede de lojas por toda a Prússia. Vendia máquinas de escrever, máquinas de costura e bicicletas de uma fábrica muito afamada: Seidel e Normann, em Dresden. Esta fábrica possuía mais ou menos 6500 operários. Visitei-a em 1931, como filho do Diretor. Mas, meu pai queria que eu estudasse medicina. Eu queria trabalhar nos bens próprios. Divergências comuns entre filhos e pai!

Assim, meu pai mandou-me para Königsberg (hoje Kaliningrad, Rússia) em 1932, leste da Alemanha, próximo à Rússia e à Polônia. Eu era jovem. Morei em várias casas com diferentes famílias. Foi nesta época que conheci Herta, depois minha esposa. Eu ainda não pensava em me casar.

 O Nazismo começava a crescer. Em 1932 já aconteciam coisas horríveis. Lá, em Knigsberg, cidade onde moravam meus futuros sogros, a situação era mais calma. Assim mesmo presenciei muita bagunça.

 No dia primeiro de abril de 1933, houve um grande boicote às lojas dos judeus. Eu, como sempre, me portei como um bom cidadão alemão. Mas era um judeu! Não sofri fisicamente, mas outras pessoas morreram. Muitos tiveram que tomar um, dois litros de óleo de rícino. Morreram. Outros foram mortos e outros mandados para uma espécie de campo de concentração. Isto já em 1932, 1933 e 1934.

 Eu voltei para a casa de meu pai em Berlim. Ele sempre me dizia: "Max, Max!". Maximilian era meu verdadeiro nome. Eu me esqueci dele. Agora é Max Israel. Merecemos a "bondade" de Adolf Hitler que chamou a todos os judeus da Alemanha de Sara e Israel. Herta recebeu em seu nome a palavra Sara e eu Israel. Há muitos anos atrás, quando eu fui chamado para riscar esta expressão do meu nome eu disse: “Eu estou muito orgulhoso deste nome”. Vou ficar com o Israel. E ficou até hoje. Mas, meu pai dizia: "Max, isto não demora muito. Adolf Hitler é um idiota. Ele não aguenta muito tempo. Não precisamos sair da Alemanha".

 Eu sofria muito, pois todos pensavam em sair da Alemanha. Meu pai, como era rico e possuía muitas propriedades, muitos negócios, não queria emigrar. Eu poderia sair, pois tinha meu próprio dinheiro. O difícil era conseguir o visto. Mas, fiquei assim mesmo. Não queria deixar meu pai sozinho. Fiquei lá. Às vezes havia calma, outras era um pesadelo.

Reuníamos em casas de amigos judeus como uma única preocupação: o que poderíamos fazer! Como sair da Alemanha e ir para Estados Unidos, Brasil, Áustria, Paris? Eu achava impossível ficar na Europa. Eu queria ir para longe, longe, longe! Eu pressentia que as coisas estavam piorando.

Depois da época das Olimpíadas a situação para os judeus ficou pior: fomos proibidos de usar os bancos nas praças. Não podíamos ir aos cinemas, restaurantes, pois tudo era proibido para judeus e cachorros. Eu tive sorte, pois fisicamente eu não era pronunciadamente judeu. Pela minha fisionomia eu não era discriminado. Eu via os outros e sofria imensamente, porque eu sou judeu. Quer dizer: eu era alemão, mas com fé judaica. Eu era 100% alemão e nunca pensei que tudo isto poderia acontecer na Alemanha.

A Alemanha, para mim, era fantástica. Eu havia viajado muito com meu pai. Naquela época eu frequentava o curso de madureza. Viajei para o Oriente Médio: conheci a Turquia, Egito, Palestina... fui até a Itália. Quando voltei meu pai me disse: "Max, só existe um país neste mundo: a Alemanha".  E eu senti isto. Esse sentimento foi limpo, pontual. Assim eu fui educado.

Casei-me com Herta em 1935 e um ano depois nascia nosso primeiro filho, Peter Joachim. Nesta época conseguimos fazer bonitas viagens de carro, apesar da situação complicada para os judeus. Atravessamos a Alemanha duas ou três vezes. Mas, havia pressão sempre e um clima de instabilidade. Nós entrávamos em restaurantes proibidos para judeus, sempre com medo de que nos reconhecessem. Eu tinha que fazer isto, pois tinha meus negócios e não podia ficar preso em casa.

 Voltei à fábrica que visitara em 1937. A mesma fábrica cujo diretor dissera para meu pai, anos antes, "Jacob, não precisa se preocupar com seu filho. Seu filho é nosso filho. O sangue é mais grosso que água!", desta vez o tratamento foi outro. Eu lhe falei o seguinte: “O senhor não tem educação, não tem sentimentos? O senhor não tem nada...!”. “Mas o senhor é judeu!”, “O Sr. sempre soube que eu era judeu. Não estou zangado porque o senhor me maltratou por ser judeu... e sim porque você dormiu em nossa casa, comeu nos nossos pratos... Isso nunca fez diferença. E agora... de um dia para o outro...?!”

 Fechei as portas e voltei para Berlim, onde encontrei-me com Herta. Fomos para Königsberg, na Prússia leste. A situação piorava cada vez mais. Continuávamos tendo muitos amigos; um deles era nacionalista. Depois virou completamente. O outro era músico, vive ainda muito famoso e é conhecido como "Dr. Jazz".

A música é uma coisa que não faz diferenças de raças, nem de cultura: negros, amarelos, judeus. Todos são iguais. Tocamos juntos nossas músicas. Eu tocava piano e ainda toco até hoje: "Jazz". Este era uma arte proibida, uma música estrangeira, uma música "degenerada".

 Com o assassinato do Conselheiro Rath, da Embaixada alemã em Paris, por um judeu polonês, em 1938, o clima de tensão piorou ainda mais contra os judeus. Meus amigos me aconselhavam: "Max, por favor, afasta-se que vem alguma coisa ruim por aí!”. Mas eu não ouvia. Até que, um dia, bateram a nossa porta. Era dia 10 de novembro de 1938: “Sr. Max Moser?”, eu disse: “sim, Senhor”. “O senhor deixa-nos entrar!”. Eram os Nazistas. Eu tive sorte naquela hora, pois conhecia um deles, importante funcionário. Chamava-se Lira. Ele ficou na porta e ordenou: “Aqui ninguém quebra nada! Ninguém bate no Sr. Max!”. 

O pai daquele oficial havia sido empregado de meu pai, que sempre o tratara bem. Graças a D’us! Foi quando ele me perguntou: "O senhor tem carro? Tome suas coisas e nos acompanhe". “Tenho carro, sim senhor!”, “Então, tire o carro da garagem!". Estava cinco graus abaixo de zero. Primeiro eu tomei um gole de conhaque e depois tirei o carro da garagem. “Agora, o senhor senta-se atrás. Aqui na frente vão dois SS.”

Os dois SS estavam bêbados como gambás. Eu nem sabia por que estava sendo preso. Nem pude dizer "até logo" para Herta. Arrisquei perguntar: “Sou o único?”. Ele não respondeu. Apenas olhou a fotografia de uma sinagoga que tínhamos na sala e ele disse: “O que é isso?”, “Isso é a nossa sinagoga” - respondi-lhe. "Ah! Agora o senhor vai ver como está tudo diferente...!”

Quando saí na rua vi que todas as sinagogas e lojas de judeus haviam sido destruídas. Nós nem sabíamos. Este episódio ficou conhecido como a “Noite dos Cristais”. No carro, ele respondeu à minha pergunta, que ficara no ar. "O senhor pode ficar certo que não é o único. O senhor vai ter boas companhias!"

Eu tive realmente boas companhias, porque naquele local estavam todos os judeus de Königsberg; mais ou menos duas mil pessoas. Mas, em toda a Alemanha aconteceram fatos semelhantes a este. Fomos levados todos para uma imensa praça. Andávamos em círculos. Vi que os SS batiam em velhos, doentes... tive raiva, mas não podia fazer nada. Nos filmes temos heróis, mas ali era diferente. Ninguém pode ser herói na frente de fuzis. Com todas aquelas armas a gente morria, não adiantava nada...

 Passaram-se sete horas. Sem café, sem nada. Fomos levados para uma prisão. Eu nunca havia sido preso antes: foi horrível! Eu tinha então 28 anos. Ficamos todos lá. Eu fiquei junto de um judeu ortodoxo, muito rico, proprietário de uma grande empresa. Ele era kosher; não comia nada. Eu não posso esquecer este episódio de minha vida. Uma vez ele disse-me assim: "Max, não se preocupe! Eu tenho meus livros de rezas e nós vamos sempre rezar juntos". 

Eu não era ortodoxo; meu pai também não. Mas, nós rezávamos. Ele negava-se a comer a comida que nos serviam, pois ela não era kosher. Além do mais, a comida continha soda, com o objetivo de amenizar os apetites sexuais. Fazia muito mal para o estômago. Naquela época, havia, ainda, alguns velhos funcionários alemães que serviam nas prisões. Se prontificaram a arranjar comida kosher para meu companheiro: "O senhor tem uma empregada? Se quiser ela pode trazer comida para o senhor. Não queremos que o senhor morra!". Mas, isto foi naquele tempo. Depois, muitos morreram...! 

Quando íamos ao banheiro fazer as necessidades (uns na frente dos outros) corriam os boatos de latrina: “Nós vamos ser fuzilados”, “Nós vamos morrer!”

 Depois de oito dias estávamos vivos. Por toda a noite entravam caminhões dentro do edifício... isto demorou quatro semanas. “Agora é o último momento da vida...!” - pensávamos, preocupados.

 Recebíamos comida. Aquilo não foi nada. Não foi campo de concentração. Era uma prisão. Lembro-me de um episódio: o do encontro de um alto funcionário da justiça alemã, judeu, e que ali se encontrou com um ladrão a quem condenara a três anos de reclusão. E ele exclamou: “Ah! O senhor também está aqui? Que alegria! Agora somos iguais...!”. Eu pensava comigo mesmo, desesperado: “Vou me matar!”.  Lá haviam quatro andares...! “Não... eu não vou fazer este favor para Adolf Hitler!”

 Da janela eu podia ver Herta e meu filho, do lado de fora. Minha esposa e meu pequeno filho... isto tudo tinha valor para mim.

 Depois de quatro semanas e meia horríveis, chegou um "SS" de Rolls-Royce, bem vestido e que falou-nos o seguinte: "Os judeus, deixando tudo aqui na Alemanha, podem sair. Tentem conseguir uma passagem, um ‘ticket’ de viagem".

Isto foi em dezembro de 1938. Pedi à Herta para comprar uma passagem. Para qualquer lugar... ela arrumou para Xangai, pois era o único lugar que nos aceitavam sem visto. Nesta época, os passageiros já traziam em seus passaportes o carimbo maldito do J Vermelho, denunciando aqueles que eram judeus.

Vendi tudo em quatro semanas, inclusive muitos edifícios. Como fiz isto? Não sei! Foi um tempo horrível. Não se podia levar nada. Fui para Berlim onde pedi orientação a um subministro, sobre para quem eu poderia vender nossas coisas. Não poderia levar nada, com exceção dos móveis.

 Meu pai já não vivia. Havia se suicidado, após ter sido chantageado por um policial em Berlim. Arrumamos tudo: fizemos uma lista de nossos pertences. Embarcamos em 24 de janeiro de 1939. Isto foi uma sorte. Conseguimos sair mais cedo que os outros; a quantidade de judeus que poderiam embarcar deveria ser proporcional ao número de outros passageiros. Por exemplo: na Primeira classe poderiam ir 20 judeus.

Pudemos sair apenas com cinco marcos. A passagem tinha que ser de ida e volta: mais uma forma de roubar dinheiro de todos! Eu paguei, pois tinha dinheiro. E depois, o que eu ia fazer com o dinheiro?

Comentei com um compatriota que eu pretendia ir para Xangai e ele me aconselhou:"O que você vai fazer em Xangai? É melhor ficar aqui na Alemanha". Respondi-lhe logo: “Eu sei o que faço. Eu vou para Xangai. Meu pai me deu uma boa formação e isto ninguém pode me roubar. E isto, aqui na Alemanha, agora conta!”

 Deveríamos partir para Xangai no dia 24 de janeiro de 1939, à bordo do navio Scharnhorst. Era um navio de luxo e o embarque seria em Bremer Haten. Esta viagem foi uma coisa do outro mundo! Deveríamos passar por uma vistoria dos "SS" que revistavam pessoa por pessoa, antes do embarque.

 Eu fui chamado em uma barraca destinada apenas para os homens e Herta, com a criança, foi para uma outra. Acompanhou-me um homem que perguntou-me se eu tinha joias. Respondi-lhe que sim, apresentando a autorização. Fizeram com que nos despíssemos completamente, para ver se não levávamos joias escondidas. Sabíamos de pessoas que as escondiam em certos lugares do corpo. Alguns foram presos. Para nós a liberdade era mais valiosa do que um brilhante. Foi horrível este momento...!

 Antes de embarcar eu tive que pagar uma multa de 36 mil reich marcos (que valia cinco vezes mais que os marcos hoje). Paguei duas vezes: uma vez para a Alemanha, o assassino do Conselheiro Ratz (o "pecado", como dizem os alemães); e depois tive que pagar para poder sair da Alemanha. Eles me "davam" licença para sair. Valeu: paguei 10 ou 15 mil marcos para poder sair de primeira classe. Por quatro semanas pudemos gozar de um certo luxo, apesar das preocupações e incertezas. Era o preço da liberdade...!

 Finalmente embarcamos rumo à Xangai. Fomos para uma suíte luxuosíssima. Paguei caríssimo, mas não tínhamos outra opção. O pessoal do navio foi fantástico e ali haviam pessoas maravilhosas que, depois, nos visitaram em Xangai. Nos levaram flores... Portanto, não posso dizer que detesto todo o povo alemão...

Muitos dos alemães que se encontravam no navio não acreditavam em culpa coletiva. Eles ficaram conosco em nossa mesa de refeições e nos diziam: “Nós admiramos vocês. Vocês vão para o desconhecido; não sabem sequer o que fazer....! Fiquem com o nosso cartão. Temos uma fábrica de charutos no Brasil e podem nos procurar. Cheguem lá...! Nós vamos ajudá-los!” 

No navio havia muitos estrangeiros, alguns ingleses que nos ajudaram muito em Xangai. Nos convidavam para jantar, almoçar, etc. Lembro-me de um chinês que estava à bordo por ter sido considerado, também, como "não ariano". Ele jogava muito bem tênis de mesa. Herta jogou várias vezes com ele, pois os alemães não jogavam. Ele era riquíssimo, proprietário de uma fábrica de ovos. Chegou a alugar o navio para entregar milhões de ovos na Mongólia. Pagou em dólares!

Xangai foi um pesadelo. Chegavam navios todos os dias: da Áustria, da Polônia... chegavam crianças, velhos, cachorros... todos miseravelmente. Havia uma organização judaica - a JOINT - que possuía alguns edifícios para abrigar este pessoal todo. A comunidade judaica é que pagava as despesas deste campo. Herta e eu fomos para lá. Herta chorava. Esta foi a primeira vez que vi minha esposa chorar!

Xangai era cinza, feia, fria. Horrível. Chovia muito! À noite a vida era fantástica: jazz, música, alegria. Os dois extremos. Ficamos ali só três semanas, mas foi uma eternidade para nós. Aguardávamos o visto para o Brasil. A irmã de Herta, que emigrara um pouco antes, ia tentar enviar nosso visto através da Embaixada Brasileira de Viena. Finalmente este chegou: recebemos os vistos números dois e três assinados pelo cônsul Philipps. Viena encaminhara uma autorização para Xangai. Foi tudo regular.

 O chinês resolveu nos ajudar a chegar até o Rio de Janeiro. Aconselharam-nos a tomar um navio via Japão, onde a inflação estava altíssima. O yen não valia nada. Indicaram-no um câmbio onde trocamos "dólares chineses" por yens: uma quantia fantástica...!

No navio haviam muitos japoneses, que estavam emigrando para o Brasil. Vinham como agricultores. E, até hoje, tenho amigos japoneses aqui em Rolândia. Todas as noites eles nos convidavam para assistir suas danças e ouvir suas músicas.

Ficamos em viagem durante seis semanas: saímos no dia 24 de janeiro e só chegamos ao Brasil no dia 6 de maio de 1939. O navio foi de Hong-Kong para Colombo e África do Sul, onde também fizemos amigos que queriam que nós ficássemos por lá.

Continuamos nossa viagem até o Brasil. A comida era horrível. Herta só tomava o café da manhã, com um ovo frito. Não estávamos acostumados!

Na África do Sul eles não nos permitiam sair da cabine durante o dia. Havia uma epidemia de sarampo no navio; mas só ficamos sabendo disto depois, quando nosso filho de 2 anos chegou doente no Rio de Janeiro. Só à noite, quando os japoneses se retiravam, é que tínhamos permissão para sair no convés e tomar um pouco de ar. Sufocante!

 Chegando no Rio de Janeiro nosso cunhado já nos esperava. Hospedamo-nos em uma pensão na Rua Barata Ribeiro: uma casinha, pois naquela época não havia os edifícios de hoje. Era tudo um sonho. Deixamos Xangai cinza, fria, e chegamos a um paraíso verde.

Comprei logo um jornal e comecei a procurar emprego. Olhava todos os anúncios. Meus amigos me diziam: “Max, você ficou louco? Aqui existe a Frente de Trabalho (uma organização nazista) e eles são contra o emprego de judeus!”

Localizei uma firma que procurava um guarda-livros. Fui para lá, mas o lugar já havia sido ocupado. O chefe (que era alemão) perguntou-me: "O Sr. sabe alguma coisa de máquinas?". Respondi: “sim, sou especialista em máquinas de costuras”. “O Sr. acha que pode fazer este tipo de serviço? Eu não tenho nada contra judeus. Só que não quero política na minha fábrica!”. “Ótimo, eu também estou cheio de política!” - respondi-lhe rapidamente.

 A fábrica chamava-se Johann. Era uma fábrica de fitas e localizava-se em Niterói. Muito longe! Eu levava umas duas horas para chegar lá. Trabalhava comigo um alemão que foi até o patrão e disse-lhe: “Com judeu eu não trabalho!”. “Há quantos anos o senhor trabalha aqui?” - perguntou-lhe meu patrão. “Há quinze anos...”. “E o senhor não sabe que tem que obedecer?”, "Com judeu eu não trabalho...!" - teimou o alemão. Isto foi no auge do nazismo na Alemanha. E isto foi aqui no Brasil em 1939. Foi exatamente quando arrebentou a guerra. Aí eu quase fui preso como alemão, pois eu tinha o passaporte alemão. Antes me acusavam de judeu... agora eu era alemão. Só não fui preso graças ao patrão que me defendeu: "Este aqui não. Preciso dele. Nós somos uma indústria de guerra! Fabricamos bandagens e ele tem que trabalhar conosco. Quero-o livre!"

Assim, fiquei trabalhando nesta fábrica durante cinco anos. Sem qualquer outra forma de antissemitismo ou discriminação. Mudamos para Niterói; inicialmente para uma pensão. Isto até que chegaram nossos móveis, que estavam no porto-livre de Hamburgo, pois ainda não sabíamos o lugar certo onde iríamos ficar. Assim que nos instalamos em Niterói, mandamos buscá-los. Mandamos o endereço e vendemos tudo. Que alegria...! Nossos móveis! Foi emocionante!

Alugamos uma casinha em uma rua com umas cinco ou seis outras habitações. Hoje, ali, é uma grande avenida. Depois de cinco anos e meio, recebemos uma visita que mudou nossas vidas. Vieram nos visitar os Kaphan: Kaete Kaphan, casada com Henrique, meu primo. Foi quando nos convidaram para visitá-los em Rolândia (Paraná) onde residiam desde 1936.

Fomos para Rolândia, onde ficamos por uns tempos. Existiam médicos, advogados, ministros, representantes do Congresso alemão. Tudo isto me atraiu muito. Herta não gostou, pois achou que morar em Rolândia seria muito difícil.

Acabamos vindo para Rolândia, onde fomos muito bem aceitos pela sociedade local. Logo, um fazendeiro convidou-me para trabalhar com café. Isto foi em 1945. No começo eu não sabia nada sobre este produto: era capaz de vender arroz por café! Mas fui em frente! Acreditava ser o Brasil um país de futuro. “Café? Nem sei o que é!" - respondia no início desta minha empreitada. Mas você aprende logo!

 Falei com Herta, mas ela não queria ficar por causa do mato. Não queria deixar o Rio de Janeiro. Mas, eu acreditava neste Brasil. Retornamos para arrumar nossas coisas. Todos nos desaconselhavam a ficar em Niterói, exceto meu sogro que ficou do meu lado: “Vai, Max, vai...! Você quer progredir!” - dizia-me ele.

Foi então que viemos para Rolândia. Fomos morar em uma casa miserável, como caboclos. Quase sem janelas. Herta tinha um fogão de lenha... não foi fácil!

Depois da guerra, recebemos a notícia de que o primeiro presidente da Alemanha havia promulgado uma lei obrigando o povo alemão a nos devolver tudo que os nazistas haviam roubado. Eles devolveram... mas eu não queria mais nada com a Alemanha. Mais nada...! Dei ordens para que um advogado vendesse tudo. Ele ficou com 3/4 e eu com o restante: 1/4, que tive que dividir com meu irmão. Não quero mais saber da Alemanha...! Hoje já penso diferente. Voltei à Alemanha por três vezes. Felizmente a Alemanha mudou, graças a D’us!

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