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MOSER, Herta Sara

ARQSHOAH

RG:
SOB/68

Sexo:
Feminino

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
11/04/1916

Cônjuge:
Max Moser

Filhos:
Peter Joachim Moser

Irmãos:
Kathe Lowenstein, Else Lowenstein e Eva Lowenstein

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Wilhelm Lowenstein

Variações do nome do pai:
Kaufmann Max Wilhelm Lowenstein

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Flora Schnaper

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Königsberg, Alemanha

Opção pelo Brasil:
Familiares já residiam no Brasil

Navio/vapor:
Rio de Janeiro Maru

Data de partida:
1939

Locais de parada:
A família permaneceu algumas semanas em Xangai à espera dos vistos para o Brasil

Cidade:
Niterói, RJ; Rolândia, PR

País:
Brasil

Data:
1939

Acompanhantes:
Max Moser e Peter Joachim Moser

Área de fixação:
Urbana de início (Niterói, RJ) e rural posteriormente (Rolândia, PR)

Contatos com a comunidade:
Família Kaphan (Rolândia, PR)

Entrevista

Entrevistado por:
Maria Luiza Tucci Carneiro

Data da entrevista:
28/09/1989

Local da entrevista:
Rolândia, PR

Transcrito por:
Maria Luiza Tucci Carneiro

Observações:
Áudio indisponível.

Testemunho

Meu nome é Herta Sara Moser. Sara me deram os "nazi". Antigamente eu me chamava Herta Lowenstein, meu nome de nascimento. Nasci no dia 11 de abril de 1916, legítima ariana na cidade de Königsberg. Minha família era uma antiga residente da Prússia Oriental, Morávamos na cidade Königsberg, hoje Kaliningrado. Eu era a mais nova dentre quatro irmãs: Kathe, Else, Eva e eu.

 Meu pai, Wilhem Lowenstein, era comerciante, proprietário de uma loja de chapéus. Ele era sócio de um primo com o mesmo sobrenome: Eugen.

Estudei desde pequena no Liceu Asheim. Em 1933 começaram nossos problemas na escola. Eu cursava o penúltimo primeiro ano quando a diretora foi obrigada a fechar a escola pelo fato dela abrigar só crianças de origem judaica. Todos os alunos foram transferidos para outro liceu, maior, chamado Bismark. Ali cursei até o último ano de 1933, tendo apenas uma colega judia. Tempos depois ela abandonou a escola e eu fiquei como a única aluna judia. Eu queria ser professora de jardim da infância, mas só consegui cursar um ano e meio. Em 1934, não via mais expectativas de poder concluir meus estudos, pois os cursos estavam proibidos aos judeus.

Deixei o colégio e fui trabalhar de empregada doméstica na casa de amigos. Lá eu cuidava de uma criança da qual eu gostava muito. Por acaso era a casa do sócio do meu futuro marido, Max Moser. 

Eu tinha muita vontade de ir para Berlim, cidade onde viviam minhas irmãs Kathe e Else. Eu queria conhecer a cidade grande. Max não deixou, preocupado comigo. Logo depois nos casamos. Nesta época eu tinha apenas 18 anos. Havia acompanhado de perto o caso da morte do pai de Max que havia se suicidado, após ter sido chantageado por um policial de Berlim. Vieram problemas de herança, além do que nasceu o nosso primeiro filho: Peter.

Tudo estava difícil; cada vez mais difícil. Em 1936, minha irmã Else imigrou para o Brasil, vindo a se casar com o diretor de um banco, judeu-iugoslavo que já vivia aqui há muitos anos. Foi quando aconteceu a Noite dos Cristais, em 1938. Eu nunca mais me esqueci desta noite.

 Meu pai ficou preso por uma semana. Max também, por mais de quatro semanas. Eu tive que ficar em casa, pois nosso filho era ainda muito pequeno. Eu me lembro muito bem. Ou melhor, lembro-me que às 19 ou 20 horas do dia posterior, tocaram a nossa campainha. Lá estava um homem que eu não conhecia. Cheirava a álcool. Então ele me disse: “Quero falar com o seu marido”.         Meu marido não está  - respondi-lhe assustada. “Onde está?”, “Eu não sei. Ele não está”. Percebi que ele era um blockwart, alto funcionário nazista, responsável por aquele quarteirão. Queria tirar proveito da situação: “Vou verificar onde está seu marido.”

Foi embora, mas, logo em seguida, voltou. Cheirava um pouco mais de álcool do que antes. Fiquei preocupada e telefonei para minha mãe, que estava em casa com minha irmã Kathe. Meu pai continuava preso. Lá, duas mulheres; e aqui, eu sozinha com a criança.

Tínhamos um tio de quem gostávamos muito. Parece-me que os nazistas esqueceram-se dele. Prometeu-me que viria, juntamente com minha irmã e minha mãe para fazerem-me companhia. Fiquei mais aliviada.

Horas depois, aquele homem retornou querendo saber se meu marido havia voltado. Estava totalmente embriagado. Foi quando eu lhe disse: “O senhor sabe muito bem onde ele está. E sabe, também, que não poderá voltar tão cedo.” 

Respondeu-me que já havia feito todo o possível. Foi quando pediu para entrar, pois precisava telefonar. “À vontade...!” - respondi-lhe – “O telefone está ali”.  Quando ele entrou e viu quatro pessoas sentadas na sala ficou sem jeito. Foi até o telefone e conversou com alguém. Disfarçou e foi embora. Minha irmã ficou comigo e minha mãe, logo em seguida, retornou para a sua casa.

Dias depois, apareceram três SS - aqueles de uniforme preto - e pediram-me para fazer uma vistoria: “Você tem armas?” - perguntou-me um deles. “Não, não temos” - respondi-lhe. “Não faz mal. Nós vamos procurar assim mesmo!” Começaram a vasculhar por toda a casa. Foi então que viram o rádio: “Ah! Vejam só! Ligado na BBC!”, falaram só por falar. Eu nem sabia lidar direito com aquele rádio. E continuaram: “Tem máquina fotográfica? Máquina de escrever? Binóculos? Vamos levar tudo isto...!”. Eu disse que “podem levar”, naturalmente. “Mas exijo um recibo de tudo o que retirarem daqui”.

Eles realmente fizeram tudo de acordo, pois na Alemanha tudo foi sempre muito bem organizado. Eles se retiraram e nós passamos a noite em alerta. Após quatro dias tivemos notícias de que poderíamos ir retirar as nossas coisas. Fui com meu pai, que já havia sido solto, e minha irmã Kathe. Arrumamos um carrinho de mão e fomos até a Gestapo para fazer a retirada dos objetos confiscados.

Meu pai tinha uma loja de selos. Era um perito no assunto: um filatelista. Trabalhava muito, razão pela qual possuía em casa uma coleção de selos valiosíssima. Lembro-me muito bem do armário onde os álbuns ficavam guardados: era um móvel de madeira com uma porta que abria feito um rolo. Ali se encontravam cerca de 14 ou mais álbuns; todos raríssimos. Entre eles havia um, valiosíssimo, referente às colônias alemãs. Este álbum desapareceu. Meu pai só deu pela sua falta quando retornou da prisão. Mas ele sabia muito bem quem era o responsável pelo roubo. Havia um rapaz, nosso conhecido, que vinha sempre trocar selos, prática muito comum entre os filatelistas. O rapaz conhecia muito bem as coleções que meu pai possuía. Só que nesta época ele já havia se tornado um SS.

O clima de antissemitismo aumentava cada vez mais. Continuávamos morando em Königsberg juntamente com minha irmã Kathe. Max ainda estava preso quando recebemos a informação de que poderíamos sair do país desde que tivéssemos um lugar que nos recebesse. Precisávamos conseguir um visto. Para a Inglaterra era impossível, e para o Brasil demorava muito.

Primeiro havíamos tentado o visto junto à Embaixada do Brasil em Berlim, onde fomos muito mal recebidos. Sequer conseguimos entrar; nem para fazer o pedido. Indiferentes, os funcionários disseram: “Vão embora, vão...! Hoje não temos expediente!”

Esta foi a nossa experiência com a Embaixada do Brasil. Hoje, depois de conhecer os brasileiros como eu conheço, me envergonho de saber que eles adoram Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha, que são os grandes responsáveis por tudo isto...

Ficamos desesperados, mais do que já estávamos. Havíamos sido avisados pela Gestapo de que teríamos quatro dias para sair do país. Isso foi por volta de janeiro de 1939. Ficamos sabendo que a Prússia Oriental pertencia à Embaixada de Viena (Áustria), mas não tínhamos mais tempo.

Xangai era o único lugar que, naquele momento, não exigia visto, pois era uma espécie de zona livre internacional. Só teríamos que conseguir um ticket de viagem (uma passagem) e com a apresentação dela eu poderia tirar Max da prisão. Foi o que fiz! Comprei as passagens em uma agência de turismo em janeiro de 1939.

Max foi solto em seguida, após ter pedido autorização para a Gestapo para irmos primeiro à Áustria com o objetivo de tentarmos o visto para o Brasil por lá. Mas, eles responderam: “O senhor pode ir. O risco é que o senhor pode ser preso novamente. Só isso...!”

Enquanto isto minhas irmãs tentavam conseguir o visto por outras vias. Eva, que antes morava com meus pais, conseguiu o visto em Viena imigrando diretamente para o Brasil porque a chamada que lhe enviaram estava correta. Minha outra irmã, Kathe, já havia saído para a Inglaterra.

 Pessoas e instituições de todo o mundo mandavam telegramas de ajuda na tentativa de retirar os judeus da Alemanha. Do Brasil também enviaram, mas a regra (por lei) era de que a chamada só poderia ser feita de pais para filhos ou vice-versa. Em 1939, com um "jeitinho", Else e o marido (que já estavam no Brasil) conseguiram a chamada para meus pais e minhas irmãs. Mas não foi fácil. Antes, tivemos que tentar por outros meios. Não tínhamos muitas opções. E sempre foi preciso pagar gorjetas para que tudo fosse agilizado.

Papai, ao chegar no Brasil, foi trabalhar com o Burle Marx que possuía, entre outros negócios, uma grande loja de selos. Ali ficou trabalhando até falecer em 1948.

 Consegui comprar a passagem para Xangai no navio de luxo chamado Dstasien Schnelldamper, do Nord Lloyd. Como tínhamos um pouco de dinheiro na Alemanha, foi possível viajarmos na Primeira Classe, privilégio concedido somente a uma certa percentagem de judeus. Na Primeira Classe turística, por sua vez, havia centenas.

Embarcamos em 24 de janeiro de 1939, mas só conseguimos chegar ao Brasil quatro meses depois. A viagem para Xangai foi uma verdadeira aventura.

Na Primeira Classe, além de nós, havia três homens solteiros e uma senhora, viúva de um médico, acompanhada de seus dois filhos e um sobrinho. Nas mesas de refeições éramos obrigados a sentar separados dos demais passageiros, assim como uma outra senhora alemã que era casada com um chinês, razão que não lhe valeu o “título” de ariana. Este casal viajava com o filho de três anos de idade considerado como "filho mestiço". Nós podíamos compartilhar de todos os jogos e divertimentos organizados durante a viagem, com uma única exceção, ou seja, dos jogos.

Dentre os passageiros do navio, muitos eram ingleses, chineses e americanos. Eles foram fantásticos. Sempre procuravam nos ajudar aliviando-nos de situações difíceis. A bordo havia uma única enfermeira e esta deveria atender somente às crianças. Mas, ela pouco ligava para aquelas que eram judias.

Recordo-me que, uma vez, meu filho que tinha apenas dois anos, sumiu durante horas. Angustiada, eu logo imaginei que ele poderia ter caído no mar. Procuramos esta criança por todos os oito andares do navio. Finalmente, descobrimos que ele estava no elevador com a ascensorista com quem havia feito amizade. Daquele dia em diante, sabíamos sempre onde procurá-lo.

Gostaria de mencionar que, a bordo, havia uma loja que vendia coisas muito valiosas. Foi ali que meu marido Max comprou uma máquina fotográfica Laica, um binóculo e outros objetos de valor e que éramos proibidos de levar da Alemanha. Isto nos foi vendido através do dinheiro de bordo com a promessa de receber estes objetos de volta contra dólar em Xangai. Tudo transcorreu bem. Espero que este homem não tenha sofrido demais.

Apesar de tudo, a viagem tinha tudo para ser boa, não fosse a incerteza que tínhamos do futuro. Chegamos em Xangai depois de quatro semanas. Era fevereiro, frio. Tudo estava molhado e feio. Passamos horas e horas entre o desembarque e a alfândega. Todos estavam muito cansados, principalmente as crianças.

 Após uma curta estadia numa instituição judaica - a JOINT - resolvemos passar a primeira noite num hotel. No dia seguinte saímos à procura de uma senhora lituana, nossa conhecida. Ela havia morado, por um certo tempo, atrás da casa dos meus pais e que, por um acaso, nesta época, trabalhava em um jornal alemão sediado em Xangai. Esta senhora nos ajudou muito; arrumou um quarto para nós morarmos em um bairro que havia sido bombardeado durante a guerra entre chineses e japoneses. Ali habitavam, também, muitos russos. Até roupa de cama ela chegou a nos emprestar.

 Permanecemos neste quarto por mais quatro semanas. Nosso filho sofreu demais com esta situação. Ficou muito doente, pois não podia e nem queria comer. Nossos amigos de navio também tentavam nos ajudar. Os ingleses coletavam dinheiro para que pudéssemos continuar a viagem, caso os vistos para o Brasil não chegassem.

 A vida em Xangai era impressionante. Parecia um formigueiro. Havia chineses, japoneses, russos brancos que haviam fugido dos comunistas e judeus, muitos judeus da Europa; judeus alemães, judeus austríacos, judeus húngaros, judeus italianos. Milhares de judeus. Para se entrar em Xangai não era preciso causion e nem visto. Mas, para sair de lá, só com um visto de outro país.

Finalmente os nossos vistos para o Brasil chegaram via Consulado da Áustria para o cônsul de Xangai.  Estes haviam sido encaminhados por meus pais e minha irmã Eva. É difícil explicar a dimensão da nossa alegria. Assim mesmo sentíamos tristeza por deixar todos os outros em Xangai, sem esperanças. Só que precisávamos conseguir dinheiro para comprarmos passagens para um navio japonês que não atracava em Xangai. Deveríamos de ir até o Japão e, de lá, para o Brasil.

 O que eu vou contar pode parecer um conto de fadas, mas foi verdade: um rico chinês que viera à bordo do navio Dstasien deu uma parte da passagem e o restante foi completado pelos amigos ingleses. Assim, viajamos num navio inglês até o Japão e, depois de duas semanas embarcamos em Kobe, no Rio de Janeiro Maru. Viajamos durante seis semanas e meia na terceira classe. Nada de luxo. Ficamos em uma cela, localizada na parte de baixo, com seis catres e repleta de canos. O pior eram as baratas e outros bichos que nunca tínhamos vistos.

O pior de tudo foi que deu sarampo a bordo, razão pela qual evitávamos sair para o convés durante o dia. Tínhamos medo que o pequeno Peter contraísse a doença, o que veio a acontecer. Mas, perto de tudo que já havíamos passado, isto não foi nada.

Para chegarmos ao Rio de Janeiro tivemos que fazer uma verdadeira maratona: passamos por Hong-Kong, Colombo, África do Sul e, finalmente, Brasil. É difícil explicar a alegria que sentimos ao desembarcarmos no Rio de Janeiro. Imagine só o que significou para mim reencontrar meus pais, minhas três irmãs e um novo cunhado. Imagine só o que significou sentir terra embaixo dos pés e ver o verde. Árvores verdes! Flores...!

Por algum tempo moramos em uma pensão em Copacabana e, depois, fomos para a Urca juntamente com meus pais. Max conseguiu um emprego em Niterói e, logo em seguida, nos mudamos para lá. Conseguimos alugar uma casinha por um preço bem baratinho onde eu cozinhava com carvão. O começo foi muito difícil, mas éramos jovens. O importante é que estávamos salvos e juntos.

Após cinco anos recebemos a visita de Kaete Kaphan que nos convidou para visitarmos Rolândia, no norte do Paraná. O casal Henrique e Kaete Kaphan moravam naquela região desde 1936. Ficamos por lá durante algum tempo até que um fazendeiro convidou Max para trabalhar com café. Eu não queria deixar o Rio de Janeiro, pois não me sentia muito atraída por aquele mato. Isto aconteceu em 1945. Retornamos ao Rio de Janeiro, arrumamos as nossas coisas e, incentivados por meu pai, nos mudamos para Rolândia, onde vivemos até hoje.

Bem, o resto da nossa história o Max já contou...!

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