> Sobreviventes e Testemunhos

MOZES, Klara

ARQSHOAH

RG:
SOB/69

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Hungria

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
27/04/1924

Data de falecimento:
05/06/2009

Cônjuge:
Istvan Deutsch (primeiro casamento) e Arnold Mozes (segundo casamento)

Avós Maternos:
Cornelia Kaufman e Samuel Hirsch

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Abraham Singer

País de nascimento do pai:
Polônia

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Elisabeth Hirsch

País de nascimento da mãe:
Hungria

Religião da mãe:
Judaica

Posição frente ao nazi-fascismo

Passagens por campos:
Kistarcsa; Sárvár; Auschwitz - Birkenau

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Szeged, Hungria

Opção pelo Brasil:
Familiares do marido Arnold Mozes já residiam no Brasil

Data de partida:
1957

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1957

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Comerciante

Entrevista

Entrevistado por:
Rosana Meiches

Pesquisadores presentes na entrevista:
Rosana Meiches e Lilian Ferreira de Souza

Data da entrevista:
03/12/2008

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Lilian Ferreira de Souza

Testemunho

Meu nome é Klara Mozes, nasci em Szeged, na Hungria, em 27 de abril  de 1924. Na minha família, meu pai, que se chamava Abraham Singer, tinha sete dias de idade quando meus avós paternos fugiram da Polônia e se instalaram em Budapeste. Em 1930 e depois de casado em Szeged, foi para a França. Ele era um master de chapéus de couro. Minha mãe, Elisabeth Hirsch, era de uma família de “quatrocentões” e meu avô servira no exército na Hungria.

Em 1937, por ocasião de uma exposição internacional, meu pai, ao tirar o passaporte, sua origem polonesa impediu que obtivesse passaporte húngaro. O mesmo aconteceu comigo, por ser filha de polonês. Depois questionado por dois homens, respondeu não se sentir estrangeiro, pois vivia na Hungria desde os sete dias de idade. Embora tivesse contratado advogado, não adiantou: meu pai teve que sair do país e foi para Varsóvia.

Levávamos vida normal. Quando tinha treze anos, deram-nos o prazo de uma semana para sair da Polônia. Minha mãe, embora nascida na Hungria, casada com polonês, foi considerada polonesa. Fui com minha mãe para a Hungria e lá ela cuidava de uma loja. Tive que sair do ginásio, porque ela não conseguia me manter. No período, ela mandava pacotes para o meu pai em Varsóvia. Assim que bombardearam Varsóvia, nunca mais soubemos do meu pai.

Em 1939, chegou uma carta dizendo que minha mãe deveria sair de Budapeste. Em 1940, em primeiro de maio, minha mãe se suicidou. Deixou uma carta, dizendo que ela ia morrer, mas que me deixassem em paz. Saiu nos jornais. Fui chamada a um escritório e me disseram que sentiam muito e que, por enquanto, eu poderia ficar. Fiquei na casa da minha avó.

Em 1941, conheci o meu primeiro marido, Istvan Deutsch. Daí mandaram-me sair do país por ser filha de polonês. Eu tinha 16 anos. Meu noivo, Istvan, pagou um dinheirão para me deixarem em paz. Logo depois, para casar não nos deram a licença porque eu era “estrangeira”. A família de meu marido pagou outra fortuna para obter essa licença. Finalmente, casei-me em Szeged, em 1943. Fiquei casada algumas semanas, pois levaram Istvan para trabalhos forçados. Em 1944, quando voltei pra Hungria, depois da guerra, fiquei sabendo o que aconteceu com ele: um soldado que cuidava dele veio me procurar e me contou que o levaram a Leningrado; lá cavavam túneis, estradas. Meu marido teria pisado em uma granada e morreu.

Em abril de 1944, quando os alemães entraram, me levaram para um tipo de prisão, que não me lembro o nome, onde encontrei a família de meu marido, de origem húngara antiga. Eles choraram quando me viram Até hoje, não sei o que aconteceu com eles. Possivelmente morreram na Áustria.

Fiquei em Sharlart, e depois Kistarcsa, onde viviam só judeus. Não era um campo de concentração e sim um campo de trânsito, tinha uma escola. Os alemães entraram na Hungria em 1944. Muitos judeus que tentavam fugir foram levados. Em Kistarcsa recebi uma carta da minha avó, informando-me que estavam indo para o gueto.

Certo dia, fui colocada em um trem para Auschwitz. Esse trem não saiu. Por interferência de um político: dizia que a esposa tinha descendência judaica. Ficamos três dias e três noites no vagão... O trem não tinha banheiro, era o mesmo que usavam para  conduzir animais. Levaram-nos de volta para Kistarcsa. Trabalhava fora e trazia comida para minha amiga...

Três dias depois me levaram para Sárvár, que era um campo de trânsito, e lá fiquei até 08 de agosto. Foi quando levaram todo mundo para Auschwitz, onde vi o horror. Em Birkenau, encontrei minha amiga com sua mãe e outros conhecidos. Colocaram o número 32 de nossa barraca. Tomamos banho. A metade do grupo foi para o lado esquerdo e outro para o lado direito.

Um dia, à noite, pediram para tirar toda a roupa e nos levaram para a câmara de gás, era de desinfecção. Foi uma coisa horrível, ficamos lá onze horas, uma esquentando a outra. Uma ordem veio para que voltássemos. O mesmo aconteceu no dia seguinte. Os poloneses gritavam “vocês vão morrer”.

Depois, procuraram pessoas que ainda podiam trabalhar, para construir estradas. Viajamos vários dias, de trem. Saímos de Birkenau. Nos deram uma roupa de verão e uma manta, porque já era outubro, e só. No Lager [campo de concentração] ninguém se conhecia. Trabalhávamos e andávamos três quilômetros para ir construir estradas. Dormíamos em um barracão, sem janelas. Ficamos lá até o final do ano.

Um dia, perguntaram se alguém queria trabalhar na cozinha. Isso era ouro, eu fui! Comia batata cozida e enchia a bolsa para levar para minhas amigas. Depois descobriram e parei de trabalhar na cozinha. Fui dormir num barracão que era o “pronto-socorro”.

Em 24 de janeiro apareceu uma pessoa que se dizia médica. Não era. Levantei-me, os russos estavam chegando e eles sabiam. No dia seguinte, marchamos. Os que ficaram foram mortos pelos alemães. Um soldado russo, que falava iídiche, nos contou que encontrou 230 mortos no lugar.

Fugimos do grupo. Marchamos por vários dias e procuramos casas abandonadas para pegar comida. Chegamos numa fazenda onde havia vacas. Resolvemos ficar ali escondidas. Estávamos na Polônia. No dia seguinte andamos pela estrada. Víamos soldados russos, entramos nas casas. Roubamos comida. Éramos sete meninas. Fomos a Varsóvia.
Atravessamos um rio de gelo. Nosso desejo: voltar para casa.

Em Varsóvia, procurei o lugar onde meu pai morava, vi que tinha sido bombardeado. Depois de poucos dias fizemos a travessia em direção à Hungria. Estava com uma ferida na pena infeccionada. Fui a primeira judia a voltar para Szeged. Das 53 pessoas da minha família, só achei uma prima, que ainda vive.

Quando comecei a falar de Auschwitz pela primeira vez, me disseram que eu estava mentindo. Os próprios judeus não acreditavam que isso poderia ter acontecido.

A loja de meu pai ficou com o irmão do meu marido. Sua esposa era católica. Tinham três filhos. Achei meu apartamento intacto. Uma funcionária de minha mãe havia cuidado dele e fiquei lá até 1957.

Casei-me pela segunda vez com Arnold Mozes. Era um judeu da Romênia. Sua família vivia em Budapeste. Então meu marido também queria ir para lá. Vendi a casa dos meus pais e a de meus avós e compramos uma muito bonita em Budapeste. Eu era gerente do maior supermercado que havia lá, em frente ao Teatro Municipal.

Ao visitar a família de meu marido na Romênia, ouvimos no rádio que a Hungria estava em revolução. Meu chefe fez com que o motorista da firma me levasse à estação de trem que nos levaria até a fronteira que, passamos a pé. Quando chegamos na Áustria nos levaram a uma escola, onde havia comida. Estávamos somente com a roupa do corpo. Ficamos na Áustria por três meses.

Em 1957 fomos ao Consulado brasileiro para pedir visto de entrada. Dissemos que éramos católicos, pois tínhamos notícia de que eles faziam tudo para não entrarem judeus aqui. Minha sogra tinha um filho no Brasil.

Chegamos em 08 de fevereiro de 1957. Meu cunhado já estava há dez anos no Brasil e estava bem. Tinham um apartamento na rua Aurora.

Chegamos no porto de Santos. Ficamos na Casa do Imigrante até meu cunhado assinar como responsável por nós. Viemos de trem para São Paulo. Meu cunhado nos arrumou um apartamento para ficar. Era no Bom Retiro. Tínhamos cinquenta e dois dólares. Compramos ingredientes para fazer doces húngaros e vender na porta das escolas próximas de nossa casa.

Depois de um tempinho, encontramos uma pessoa que conhecíamos da Hungria, que nos levou para algumas fábricas, onde obtivemos crédito. Conseguimos roupas para vender.  E assim prosseguimos com nossa vida.

A imagem que tenho da minha pátria de origem é ruim, porque os húngaros foram muito antissemitas. Se eles tivessem ficado quietos e nos escondessem. Mas foram poucos os que fizeram isso.