> Sobreviventes e Testemunhos

COHEN, Heinz

RG:
SOB/85

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Alemanha

Data de nascimento:
06/06/1928

Data de falecimento:
06/06/2016

Cônjuge:
Liselott Scheye

Filhos:
Ricardo Cohen, Sérgio Cohen e Sandra Cohen

Irmãos:
Lisa Cohen

Avós Paternos:
Johanna Cohen e Semmy Cohen

Avós Maternos:
Helene levy e Nosavel Levi

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Ivan Cohen

Variações do nome do pai:
Ivan Israel

País de nascimento do pai:
Alemanha

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Rosa Cohen

País de nascimento da mãe:
Alemanha

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Hamburgo, Alemanha

Opção pelo Brasil:
Familiares já residiam no Brasil

Navio/vapor:
Blue Star Line - Le Croix

Data de partida:
1945

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1945

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Luba Schvez

Pesquisadores presentes na entrevista:
Luba Schvez e Lilian Ferreira de Souza

Data da entrevista:
12/08/2008

Local da entrevista:
São Paulo

Transcrito por:
Lilian Ferreira de Souza

Observações:
Relato elaborado a partir do livro de memória não publicado "Escola da vida", por Heinz Cohen.

Testemunho

Meu nome é Heinz Cohen. Nasci em Hamburgo, no dia 06 de junho de 1928. Este é um dado factual, inescapável. Vem à minha cabeça algumas imagens, fracas, apagadas: a escola judaica Talmud Tora, o inverno branco; a pista de gelo onde eu e minha irmã Lisa íamos andar de patins, dentro do Jardim Botânico; o jantar de Shabat na casa de minha avó, com a família toda reunida.

Vivíamos dentro de uma rotina inocente, própria das famílias de classe média de Hamburgo: minha mãe, minha irmã, uma empregada, a escola, férias, tudo isto como se fosse uma foto branco e preto, com figuras borradas, quase sépia, como se não pertencessem a mim, mas que eu tento dar vida.

Eu vi e me lembro da noite de 9 de novembro de 1938. Eu tinha pouco mais de 10 anos, e vi o fogo destruir a sinagoga da minha escola e mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, sabia e sei hoje que o fato encerrou para sempre o que se chama infância. A Noite de Cristal, como ficou sendo conhecida a fatídica noite em que os nazistas atearam fogo nas sinagogas, deixou estilhaços na maneira de ver, pensar e sentir de um menino, o fogo levou aquilo que eu chamo vida normal, familiar, para longe de mim.

Aquela rotina ingênua de quem ainda não percebia todos os problemas e ainda não reconhecia as patas do terror, foi quebrada. A Gestapo bateu a nossa porta em busca do meu pai. Minha mãe localizou-o no meio de uma viagem e pediu que ele não retornasse naquele fim de semana. Deste momento em diante começamos a preparar nosso plano de fuga.

No dia 18 de fevereiro de 1939 meu pai, minha avó materna Helene e eu saímos da Alemanha. Quando chegamos à fronteira com a Holanda, a polícia alemã e holandesa vieram verificar nossa documentação. A sensação nítida é que eu não estava viajando, mas um pacote sendo transportado de um lugar para outro. Só sei que o trem que nos levava foi embora sem nós e ficamos sozinhos na estação, como uma bagagem desacompanhada.

Um pouco mais tarde pegamos outro trem, ainda dentro da Alemanha. Descemos em outra estação e meu pai foi telefonar para seu cunhado Bruno e combinou alguma coisa com ele. Neste ponto, meu pai se separou da gente. Voltou para Alemanha. Minha avó e eu pegamos um trem que ia à Holanda, até Hook of Holland. Atravessamos de balsa o canal da mancha até Harwich, na Inglaterra. Aquela noite eu poderia ter pensado sobre a travessia, a verdadeira travessia que nós judeus estávamos passando.

Quando chegamos à Inglaterra soube, enfim, o que meu pai tinha combinado naquela estação de trem. O irmão de minha mãe, tio Seigfried, que nos recebeu no porto, disse que ele estava vindo de avião, uma vez que a Holanda não permitira a passagem dele, via terrestre. Naquele dia fomos para Londres e todos reunidos, meus tios Siegfried e Else, sua filha Hellen, minha avó, meu pai e eu almoçamos juntos. Um almoço quase festivo, pois tínhamos cumprido uma parte da rota de fuga com sucesso, superando pequenos obstáculos. Deveria ficar. E só viria a conviver com a minha família, pai, mãe e irmã, sete anos mais tarde.

Logo depois da sobremesa, fui levado para um Hostel, um grande prédio cheio de quartos onde estavam hospedadas crianças como eu, vindas de todas as partes da Alemanha. Eram aproximadamente sessenta crianças, meninos e meninas e vários adultos que se responsabilizavam por nós, órfãos precoces e temporários da guerra. Mais tarde fui matriculado numa escola pública inglesa e como uma benção entrei numa nova rotina de vida.

Minha mãe e minha irmã só saíram da Alemanha um mês depois, em março de 1939 e passaram pela Inglaterra.  Durante duas ou três semanas em que minha mãe esteve lá, fez de tudo para me levar junto com ela para o Brasil. Mas, infelizmente, não foi possível. Foi uma época muito difícil para ela.

Muitas pessoas me perguntam por que toda a família foi para o Brasil e eu deixado na Inglaterra? São tantas as respostas. A mais ampla reside numa certa ingenuidade.  Muitos judeus não acreditavam que a guerra estava a um passo de explodir. Além disso, me disseram que era muito difícil conseguir um visto para a família toda e que, como eu tinha tios na Inglaterra, seria útil que eu ficasse um ou dois anos, aprendendo inglês.
Meu pai foi com o navio Cap Arcona para o Brasil (onde tínhamos família) e durante a viagem teve um infarto, e teve de ser recebido em Santos por meu tio Felix Levy, irmão de minha mãe, de ambulância.

No primeiro de setembro de 1939 fomos evacuados com a escola para uma aldeia chamada Abbots Langley, que ficava perto de Londres. Saí do Hostel e junto com três rapazes judeus alemães fui viver na casa de um casal de ingleses de meia idade.
Nesta casa, o casal era velho, eram meus pais adotivos: a mãe era doce, calorosa, amável, o pai duro, rude. Eu me comportava como se fosse filho, a tal ponto que, nos quatro anos que ficamos na aldeia, somente duas crianças não foram trocados de casa, e um deles era eu.

Quando completei 13 anos fui para Londres e, na sinagoga onde meu tio era sócio, fiz a meu Bar Mitzvá. Depois da cerimônia, uma pequena festa na casa dele, com amigos e parentes.

Voltei para a aldeia, era meu abrigo. Quando as sirenes soavam indicando que havia um bombardeio a caminho, nossa mãe mandava a gente entrar no abrigo montado na sala. Era uma caixa de ferro com quatro cantoneiras e fechando como uma tela de aço. Este abrigo foi construído para suportar o peso da casa, caso ela fosse atingida por uma bomba.

No final de 1943, terminado o curso na escola, então com 15 anos, voltei para Londres. O contrato com o Hostel havia terminado e me vi sem lugar para morar. Junto com alguns amigos, alugamos um apartamento e procuramos uma cozinheira que nos ajudasse com comida, roupa, limpeza, etc.

Os tempos difíceis favoreceram nossa busca: conseguimos um apartamento do tamanho ideal para nós, e uma senhora com um filho da nossa idade. Os outros meninos já tinham emprego, e eu fui procurar um, para que pudéssemos pagar o aluguel e o restante das despesas, mais a ajudante. Em poucos dias achei uma fábrica de lentes para periscópios. Surgiu a primeira dificuldade: como a fábrica produzia material de guerra, eu como estrangeiro, precisava de uma permissão especial para poder trabalhar lá. Como essa permissão demorou quase três semanas para sair, a nossa cozinheira sugeriu que eu fosse falar com uns amigos dela, donos de uma confeitaria. Fui muito bem recebido, e eles me deram um emprego, espécie que faz tudo. Os proprietários, um casal de meia-idade, uma dinamarquesa e seu marido inglês. Eles foram preciosos para mim naquela época. As poucas cartas que recebia de meus pais, a senhora traduzia para mim.

Durante os ataques aéreos, com as bombas voadoras V1, que voavam bem baixo, à vista de todo mundo, nossa orientação era: enquanto o motor do avião estivesse funcionado, tudo bem, mas no momento que parava, a ordem era deitar na rua ao lado da sarjeta e esperar até que a bomba caísse e explodisse.

Já acostumados com o esquema de sobrevivência das bombas voadoras, estávamos prontos para os foguetes V2, que subiam até a estratosfera e desciam como uma bola de fogo. Eu reagia assim: se eu ouvir a explosão, estou vivo. Se não ouvir, estou morto. Pode parecer um jeito meio estranho de encarar as coisas, mas digo como resolvi não ficar louco. Vi muita gente morta, ferida, e pude salvar algumas quando atingidas perto da nossa casa.

O fim da guerra se deu no dia do meu aniversário. No dia 06 de junho de 1944. Os aliados invadiram a França em uma operação inacreditável. Me lembro das ruas fervilhantes de emoção em Londres, com as bicicletas invadindo bares, teatros, restaurantes, de onde as pessoas paravam para ouvir através da BBC os avanços das tropas e das lutas travadas para nossa libertação.

Finalmente chegou o grande dia: 8 de maio de 1945, o fim da guerra. Todo mundo concentrado no Hyde Park em frente ao Palácio de Buckingham, cantando, pulando, dançando. O rei, a rainha e as duas princesas apareceram no balcão, com o primeiro ministro Wiston Churchill pra nos saudar. Respirávamos então a liberdade sem o blackout, o  barulho das bombas, o medo, tudo o que estávamos acostumados.

Em junho de 1945, meus pais escreveram para o meu tio se informar junto ao Departamento encarregado das crianças refugiadas sobre as providencias a serem tomadas para que eu pudesse viajar ao Brasil. Como eu não tinha passaporte, o governo inglês me forneceu um documento de saída, válido somente para uma viagem, ou seja, da Inglaterra para o Brasil.

Resolvi todos os trâmites. Fiquei sabendo que o meu navio ia sair de Swansea Wales, no dia 25 de agosto de 1945. Despedi-me dos amigos, tomei um trem de Londres à Swansea e embarquei no navio Blue Star Line. Assim que saiu das águas inglesas, o navio já era Le Croix, passando a ter a bandeira francesa: ele havia sido emprestado para os ingleses durante a guerra.

Eu sabia que ia atracar no Rio de Janeiro, cidade que meus pais queriam mostrar antes de irmos pra nossa casa em São Paulo.  A visão da cidade do Rio de Janeiro de madrugada, com o navio atracando, foi indescritível, com o Pão de Açúcar e o Corcovado ao longe. Foi nesta visão que o navio atracou no dia 19 de setembro, depois de vinte e três dias no mar. O reencontro com meus pais foi emocionante, depois de sete anos, eu já havia esquecido completamente o alemão.

Depois de uma semana no Rio de Janeiro, pegamos um avião e viemos para São Paulo, onde encontrei minha irmã e meu futuro cunhado Rudy. Meus pais moravam na rua Joaquim Eugênio de Lima, vizinhos de muitos judeus vindos da Alemanha.

Fui trabalhar na Algodoeira Paulista, meu primeiro emprego registrado. Trabalhei nesta empresa por sete anos, foi lá que encontrei Sven Hein, um amigo que me ajudou a aprender o português. Além disso, ele me apresentou ao seu grande círculo de amigos e, em especial, à Liselott Scheye, que veio a ser minha esposa Lilo.

Casei-me em 16 de agosto de 1953, na sinagoga da Abolição. Tivemos três filhos, Ricardo, Sergio e Sandra.

Trabalho na CIP – Congregação Israelita Paulista desde 1970, hoje estou entre os mais velhos funcionários.

Iconografia

Heinz Cohen

Heinz Cohen

Relacionados

As Fichas Consulares de Qualificação dos pais de Heinz Cohen, Rosa Cohen e Ivan Cohen, contam com a assinatura de João Guimarães Rosa, Cônsul Geral do Brasil em Hamburgo à época em que a família Cohen chegou ao Brasil, ano de 1939.