> Sobreviventes e Testemunhos

BERGMANN, Edda Mayer

RG:
SOB/86

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Itália

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
27/03/1927

Data de falecimento:
27/09/2007

Cônjuge:
Hans Sigismund Israel Bergmann

Filhos:
Herberto Bergmann e Lia Regina Bergmann

Irmãos:
Gina Bergmann

Avós Paternos:
Regina Valentzin e Jona Mayer

Avós Maternos:
Elvira Guttmann e Girolamo Levi

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Mario Mayer

País de nascimento do pai:
Itália

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Emma Levi Mayer

País de nascimento da mãe:
Itália

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Trieste, Itália

Opção pelo Brasil:
Irmão do pai, Raphael Mayer, residia em São Paulo, Brasil, desde 1926 e aconselhou o irmão a deixar a Europa o mais cedo possível

Navio/vapor:
Conte Grande

Data de partida:
1938

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1938

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Anna Rosa Bigazzi

Data da entrevista:
1999

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Transcrito por:
Anna Rosa Bigazzi

Observações:
Áudio indisponível. Entrevista disponível em CAMPAGNO, Anna Rosa - In difesa della razza - Os Judeus Italianos Refugiados do Fascismo e o Antissemitismo do Governo Vargas 1938-1945. São Paulo, 2007.

Testemunho

Nasci em Trieste em 27 março de 1927. Junto com meus pais Emma Levi Mayer e Mario Mayer e minha irmã Gina mudamos para Milão.

Eu tinha 11 anos em 1938, quando foram proclamadas as leis raciais. Meus pais sabiam que este episódio teria acontecido porque o irmão de meu pai, Raphael Mayer, que morava em São Paulo desde 1926 – sendo amigo íntimo de Getúlio Vargas e de todos os Ministros, incluído Oswaldo Aranha – tinha avisado meus pais e o aconselhado a deixar a Itália o mais cedo possível e vir para o Brasil. Enviou-nos os vistos pelo Itamaraty, que não foram aceitos pelo cônsul brasileiro em Gênova. Conseguimos obter vistos provisórios pelo cônsul de Milão e embarcamos para o Brasil em fim de 1938, no navio Conte Grande.

Apesar de ser ainda uma criança, sofri muito com a proclamação das leis raciais. Naquele período lembro-me de ter ficado doente, com febre muito alta. A porteira do nosso prédio não deixou o médico subir até o meu apartamento, pois, sendo uma menina judia, era melhor que morresse.  Lembro, também, que estudava em uma escola religiosa católica dirigida por freiras francesas, pois já tinha sido expulsa das escolas estaduais... quando morreu o Papa Pio XI e foi substituído por Pio XII, eu fui expulsa deste colégio também,  por ser de raça judaica.

Enquanto o Papa Pio XI tinha declarado que de raças conhecia somente as dos homens, o seguinte fizera que eu fosse expulsa do colégio!! Este episódio ficou na minha memória e me acompanhou a minha vida toda. Esta é a razão pela qual fui uma das pioneiras no Brasil do diálogo inter-religioso.

No Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial, lutei como estudante universitária, dirigindo causas sociais e humanitárias. Depois, especializei-me em analise política, religiões comparadas, política religiosa, religião na política, etc.Trabalhei em quase todas as instituições da comunidade, B’nai B’rith, CIP, Lar das crianças, etc.

Meu pai, Mario Mayer, era um funcionário da Banca Commerciale Italiana. Decidiu emigrar para o Brasil depois da proclamação das leis raciais, motivado pelo fato de que seu irmão, Raphael Mayer, como já disse, morava no Brasil desde 1926. Em 1938, chegou a dono do  Banco Ítalo-Brasileiro. Era dono, também, de muitas indústrias nas quais conseguiu dar trabalho a muitos judeus que naquele período fugiam da Itália. Assim, meu pai foi trabalhar como assessor de Assis Chateaubriand e como diretor de uma das indústrias do irmão, a Lacta (fabrica de chocolate).

Meu tio Raphael Mayer colaborou com a construção do Museu de Arte Moderna na Avenida Paulista em São Paulo. Depois, fez  parte da direção dos Diários Associados com Oswaldo Aranha.

Minha família ficou hóspede na casa do tio Raphael até o momento que meu pai conseguiu comprar casa própria.

Casei-me com Hans Sigismund Israel Bergmann, alemão que chegou ao Brasil em 1936. Perdeu, com exceção da mãe, todos seus parentes no Holocausto. Tenho dois filhos, Herberto e Lia Regina – muito ativos na comunidade judaica. Tenho três netos: dois meninos, Fabio e Marcello, e uma menina, Andréia.

Nunca pensei em voltar definitivamente para a Itália.Tenho ainda grande rancor deste país, onde tive que deixar a escola e porque, na hora do embarque no Conte Grande, confiscaram, apesar de meus protestos, minha boneca, pensando que nela estivessem escondidos joias e dinheiro.

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Esta entrevista foi atualizada com um artigo na revista brasileira Shalom nº 461, de 18 de março de 2007, intitulado "Uma vida dedicada à comunidade"; e com um capítulo em livro de sua autoria, "1938 Um raio no céu azul - As leis raciais na Itália", Editora B'nai B'rith, 2008, p. 17, capítulo Edda Bergmann: Da perseguição à liberdade, uma vida completa.