> Sobreviventes e Testemunhos

BRAND, Szymon

ARQSHOAH

RG:
SOB/87

Sexo:
Masculino

País de Nascimento:
Polônia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
09/09/1932

Data de falecimento:
24/05/2012

Profissão:
Comerciante

Cônjuge:
Sara Helena Broncher Brand

Irmãos:
Mindla Brand, Ana Brand e Esther Brand Sztamfater

Avós Paternos:
Ita Brand e Szymon Brand

Avós Maternos:
Leiba Bursteyn e Zlata Bursteyn

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Jenkiel Brand

País de nascimento do pai:
Polônia

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Raysla Bursteyn

País de nascimento da mãe:
Polônia

Religião da mãe:
Judaica

Profissão da mãe:
Dona de casa

Esconderijo(s):
A família esteve durante cerca de seis meses escondida na fazenda de um conhecido polonês não judeu.

Participação em frentes de resistência:
Partisan - Toda a família resistiu às tropas nazistas nos bosques poloneses, integrando o grupo de partisans de Abraham Bron

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Stujanski, Polônia

Opção pelo Brasil:
Familiares do cunhado, marido de sua irmã Esther Brand Sztamfater, já residiam no Brasil

Data de partida:
1953

Locais de parada:
Szymon residiu de 1950 a 1953 na Bolívia

Cidade:
São Paulo, SP

País:
Brasil

Data:
1953

Área de fixação:
Urbana

Atividades profissionais:
Vendedor ambulante

Proprietário da empresa:
Malharia Helentex LDTA

Contatos com a comunidade:
Conheci Samuel Klein

Entrevista

Entrevistado por:
Rachel Mizrahi

Pesquisadores presentes na entrevista:
Rachel Mizrahi e Lilian Ferreira de Souza

Data da entrevista:
20/05/2009

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Gravação:
áudio

Transcrito por:
Lilian Ferreira de Souza

Testemunho

O meu nome é Szymon Brand, nasci em 09 de setembro de 1932 na cidade de Stujanski, Polônia. Era um povoado bem grande. Meu pai, Jenkiel Brand, tinha negócios lá, trabalhava em um moinho que cobria toda a região. Trabalhava com cereais. Minha avó tinha uma padaria, fazia pães para a família que era grande. Minha mãe chamava-se  Raysla Bursteyn Brand. Eu tive quatro irmãos, a  Mindla, em português Maria, a segunda Ana  e a terceira Esther, eu e a mais velha, que já faleceu.

A história da minha família foi neste povoado de fazendas e fazendeiros. Meu avô materno e meu pai faziam negócios com os poloneses, tudo na palavra, como costume naquela época, e não assinatura de papel como é hoje. Meu avô tinha cavalos e vacas. Era uma fazenda pequena e meu pai fazia negócios com sementes. Toda a redondeza vinha fazer trigo no moinho do meu pai. Na região tinha judeus, mas não uma sinagoga no povoado. Rezava-se na casa da minha avó, como era antigamente.

Quando os alemães nazistas invadiram a Polônia, a primeira coisa que fizeram foi proibir as crianças judias de ir à escola. Eu não tenho vergonha de dizer isso, porque praticamente sou meio analfabeto, eu não frequentei a escola, era proibido aos judeus de frequentar a escola quando os alemães entraram. Depois estudei hebraico um pouco.

Em 1941 já eles faziam panfletos para os judeus se apresentarem nos campos de concentração. Aos que não se apresentassem eles fuzilavam, tinha que respeitar isso. Meu pai tinha um amigo polonês que era fazendeiro e que faziam muitos negócios.  Então, meu pai decidiu falar com ele, porque ninguém sabia quanto tempo iria demorar essa ordem alemã. Todo mundo pensava que era provisória. Meu pai pagava a ele todo mês, pra nos manter escondidos.

Permanecemos escondidos na fazenda onde ele morava, na Polônia. Tinha muitas construções para guardar comida para os animais no inverno. Então ele fez um buraco, onde ele guardava a palha aos animais e outro buraco enorme para toda a família se esconder. E assim foi, por mais ou menos seis meses. Quando acabou o dinheiro do meu pai, a amizade não valeu mais nada. Ele chegou, me lembro como se fosse hoje, foi uma quinta feira. Ele falou pro meu pai : “Jenkiel infelizmente não posso mais segurar vocês”. Porque tinha  as ordens dos nazistas sobre os poloneses, quem guardava ou escondia um ou seis judeus o castigo era a morte, porque eles matavam e incendiavam para assustar, mas os poloneses ficaram com medo de se arriscar também.

Saímos do esconderijo na quinta feira, isso nunca vou esquecer. Estava um dilúvio à noite, dava pena de deixar um cachorro sair, mas nos tínhamos que sair, a gente tinha medo que ele nos denunciasse para os nazistas.

Perto deste lugar tinha um bosque, distante uns 10 km, mais ou menos. Ficamos neste bosque, encontramos mais alguns judeus e uma pessoa que depois se tornou meu cunhado, era o comandante, ele fundou o grupo dos partisans. Ele se chamava Abraham Bron. Toda a minha família foi para o bosque, éramos seis.
Meu avô tinha falecido antes, minha avó foi junto conosco e sobreviveu à guerra. Ela passou todo o inferno que passamos. No total eram mais ou menos 500 pessoas entre homens, mulheres e crianças.

Tínhamos cinco fuzis isso porque quando a Polônia perdeu a guerra, os homens do exército trouxeram as armas para casa. No começo de 1942 se juntaram mais partisans. Até os russos nos encontraram e se juntaram conosco. Sei que no final, o nosso grupo chegava a 3 mil pessoas. Para sobreviver íamos até os fazendeiros pedir comida, se não conseguíamos na boa vontade, eles  davam, sob as armas.

Essa era nossa única saída: isso ou apresentar-se nos campo de concentração. No bosque não tinha esconderijo, era o céu, ar, árvores e nós. Quando chovia se faziam cabanas, como os índios, mas tudo na base do improviso, com folhas de árvores. No inverno, quando a minha mãe fazia comida e sobrava madeira, a gente dormia em cima da lenha quente, pois era um frio louco.

Durante a permanência no bosque, me ensinaram como se monta, desmonta e se limpam as armas. Eu fazia tudo isso, o meu serviço era esse. Tínhamos fuzis, revólveres, metralhadoras e granadas também.

Em um momento vieram os alemães, eles sabiam que tinha partisans no bosque, mas eles tinham medo de se adentrar. A minha tia Haika tinha quatro filhos, o maior teria a minha idade hoje. Nós fugimos, meus primos não, porque eram muito pequenos e os mataram na hora. Quando retornamos à noite para o bosque, vimos toda essa desgraça.
Esse bosque era muito perigoso, era muito pequeno. Uma noite resolveram sair desse bosque para um bem maior que ia da fronteira da Polônia até a fronteira com a Rússia. Era bem grande e aí os alemães não entravam, vinham com aviões disparando metralhadoras.

O comandante era meu cunhado Abraham Bron. Sobrevivemos juntos com meu primo,  Berish Bermann, e outro comandante russo. Esses três comandavam todos os partisans, porque muitos poloneses eram comunistas e ao mesmo tempo nazistas. Quando descobriram isso pegaram o comandante deles e o mataram. O russo falou ‘esse aqui têm que liquidar logo’, todos que apareciam contra os judeus ou contra os partisans tinha que se eliminar logo, era assim para ter ordem e outros terem medo.
Era uma luta entre os partisans judeus contra poloneses, o russos eram a favor dos judeus e os alemães dos poloneses, quem sobreviveu mataram depois e quem morreu, morreu!

Eu tinha oito anos em 1940, me lembro até hoje, tem noites que fico gritando e sonhando com as coisas da guerra. Acredita nisso! Até hoje sentimos o que nós passamos na guerra.

Nesse bosque grande encontramos mais partisans russos, tinha uma mulher chamada Wanda Vaceleska, que fundou os partisans lá, eram bem organizados e ficava na fronteira da Polônia e a Rússia. Eles lutavam contra os alemães porque a guerra estava lá, era tipo de um exército organizado. Estavam lá pra defender a Rússia contra a entrada dos alemães.

Nesse bosque os alemães não vinham, tudo era somente com aviões,  porque eles tinham medo, não sabiam onde estavam os partisans, sabiam que estava no bosque, mas que lado do bosque? Eles também tinham medo.

Ficamos naquele bosque até 1944. Lembro que a perna da minha mãe congelou e ela não podia usar sapato. Ela superou isso e viemos para o Brasil, ela faleceu aqui, meu pai também. Salvaram-se com o esquema famílias inteiras, o que era difícil, não!

Em 1944 entraram os alemães. Eles pegavam aquele inverno horroroso, o que foi a salvação da Rússia e do mundo inteiro porque se eles pegassem a Rússia...

Depois os russos entraram em 1945, dissemos que éramos partisans, ficamos mais tranquilos porque fomos salvos. Não voltamos para a nossa propriedade. Tínhamos medo. Nunca mais voltamos. Minha irmã voltou recentemente, faz uns dois anos.

Lembro que a minha casa era de madeira com teto de zinco, pintado de vermelho.
Os americanos montavam campos para recolher todos os sobreviventes. A UNRRA ajudava com isso. Saímos desse campo e fomos para Łódź na Polônia, depois fomos para uma cidade que não me lembro o nome, já na fronteira da Alemanha.

Depois da guerra, depois daquele Lager, todo mundo podia se inscrever onde queria ir, onde tinha parente. Escolhemos o Brasil porque meu cunhado tinha dois irmãos que moravam aqui. Daí falaram que no Brasil não dá para ir porque não deixam entrar judeus. O presidente Getúlio Vargas não permitia que judeus sobreviventes da guerra entrassem no Brasil. Fomos para a Bélgica e ficamos lá três meses. O navio Amerigo Vespucci só saiu da Itália, três meses depois. O nosso destino era pra ir para a Bolívia.

Chegamos à Bolívia em 1950, as pessoas ajudavam muito, eles queriam ajudar poia também passaram por dificuldades, não passaram a guerra, mas sabiam que os judeus passaram por dificuldades.

Em 1950 era o ano do Campeonato Mundial de futebol, meu cunhado Seriel Sztamfater e minha irmã Esther resolveram vir para o Brasil. Eles aproveitaram a oportunidade para arrumar um advogado porque meu cunhado tinha dois irmãos aqui e já fizeram um documento 'modelo 19'.

Eu fiquei na Bolívia, em La Paz, por três anos. Trabalhei como mascate nas ruas. Logo minha irmã mandou uma carta de chamada. Chegamos ao Brasil em 1953 e meus pais vieram um ano depois.

Trabalhei com mercadorias na rua, no primeiro dia não fiz nenhum freguês e no segundo já melhorou. Voltei para a casa da minha irmã, deitei na cama e comecei a chorar, pois não estava acostumado. Eu comecei a chorar sozinho, porque queria voltar para a Bolívia. Minha irmã me disse “que um dia assim, e no outro dia você vai melhorar”.

Com o tempo comecei a fazer freguesia e consegui mais clientes. Conheci  Samuel Klein, dono das Casas Bahia, porque nesta época trabalhava em São Caetano do Sul e ele também. Ele comprou uma charrete com cavalos, e depois eu também comprei outra. Quando chovia eu não podia trabalhar. Fiquei trabalhando assim por uns três anos e meio. Depois vendi a clientela.

Conheci minha esposa Sara Helena Broncher Brand, em Campinas. A família dela tinha loja e os parentes também sobreviveram à guerra. Conhecia o pai dele, era Chaim Korn. Tivemos três filhos e hoje tenho seis netos.

Eu me estabeleci na rua Carmo Cintra, uma travessa da José Paulino. Tinha uma lojinha de malharia, compramos máquinas, depois outras. Criei a Malharia Helentex LDTA.

O que me lembro de minha infância, me faz lembrar tudo! Mas era uma vida, quando morava na Alemanha no lager, jogamos futebol. Quando eu morava em Kraśnik, a gente fazia pinga de batata de diversos tipos e eu saía no centro da cidade com uma sacola na mão, isso depois da guerra. Saía para vender, porque era proibido, se a polícia pegava, e fazia um  sinal com as mãos, para dizer que tinha vodka para vender.