> Biblioteca

CAMERINI, Noemi

RG:
TES/52

Nacionalidade:
Italiana

Entrevistado por:
Anna Rosa Campagnano Bigazzi

Data da entrevista:
24/04/2007

Cidade da entrevista:
Sao Paulo

Transcriado por:
Anna Rosa Campagnano Bigazzi

Transcrito por:
Anna Rosa Campagnano Bigazzi

História:

Quando as leis raciais foram proclamadas, eu era muito pequena. Por ter ouvido contar muitas vezes, confirmo o que disse meu irmão, Enrico: a estadia no hospital devido à escarlatina, papai que mostrava a página do Corriere della Sera com o texto das leis raciais através do vidro que os separava dos visitantes, para não transmitir a infecção, e o seu gesto para fazê-los entender que os levaria embora da Itália.
Meu pai, Oscar Camerini, e seu irmão Vittorio eram comerciantes de tecidos. Tinham um escritório de importação/exportação, faziam negócios especialmente com a Áustria. Mamãe, Lívia dal Seno, era filha de um casamento misto, o pai não era judeu, a mãe sim, mas Lívia e seus irmãos haviam sido educados como católicos. Meus pais eram casados somente no civil. Com a proclamação das leis raciais, mamãe, temendo que os judeus tivessem um destino diverso dos católicos, quis assumir a identidade judaica materna e tomou o banho ritual. Demonstrou com isto a sua solidariedade para com o marido, e casou-se novamente com ele no rito judaico. Marido e filhos ficaram muito felizes e a presentearam com um livro de receitas judaicas italianas com uma bela dedicatória por seu retorno ao judaísmo...  
Quando minha família partiu para o Brasil, não sabia nada sobre este país e não falava absolutamente nada de português.
No início a idéia era ir morar em Recife, mas depois meus pais escolheram São Paulo. Eles não tinham grandes expectativas do Brasil porque não o conheciam, mas ficaram surpresos com a gentileza dos brasileiros e com as belezas naturais.
Também no Brasil papai e meu tio continuaram no comércio, eram atacadistas, vendiam tecidos e, mais tarde, também meias, nas pequenas cidades próximas a São Paulo. Não era fácil... às vezes se reencontravam para dormir em hotéis cheios de baratas!!!
Mamãe, por outro lado, começou a dar aulas de italiano no Istituto di Cultura Italo Brasiliano e, anos depois, começou a trabalhar no jornal O Estado de São Paulo, fazendo crítica literária sobre os livros escritos no pós-guerra. Além disso escrevia poesias onde derramava sua nostalgia pela Itália. Também escreveu um texto de gramática italiana que foi adotado pelo Colégio Dante Alighieri.
Meus pais não tiveram nenhum bem confiscado na Itália... até porque não tinham nenhum!!! Apenas propriedades pessoais de valor, como prataria, tapetes e quadros, que foram escondidos em uma adega e entregues à guarda de uma secretária de grande confiança que, depois da guerra, mandou tudo para o Brasil. No Brasil não havia uma comissão de ajuda para os judeus italianos, mesmo porque não havia necessidade, eles se ajudavam mutuamente.
Meus irmãos, Ugo e Enrico, estudaram em escolas brasileiras. Ugo era muito inteligente, e depois de ter se formado em física, foi especializar-se na Inglaterra, onde teve como colega Cesare Lattes, um famoso físico de Campinas que foi indicado para um prêmio Nobel. Eu foi matriculada na Escola Americana, onde estudei dos 5 aos 18 anos, indo depois estudar na Itália, em Perúgia, onde fiz mil cursos diferentes!!! Literatura, História da Arte e, acima de tudo, aprendeu o amor pela liberdade!!! A escolha da cidade de Perúgia deveu-se ao fato de que amigos de meus pais, da Colônia Mussolini (Giorgio e Anita Swarkoff Seppilli), tinham voltado para a Itália depois da guerra e Giorgio, eterno socialista, havia se tornado prefeito (comunista) de Perúgia.
Meus pais não eram religiosos, mas no Shabat faziam o kidush em casa. Freqüentavam a sinagoga da Abolição nas Grandes Festas, quando a sinagoga alugava um teatro, o Odeon, que ficava entre a rua Bela Cintra e o Colégio São Luiz.
Meus pais tinham muitas saudades da Itália e se adaptaram ao Brasil aos poucos, ficando sempre unidos aos outros judeus italianos da Colônia Mussolini. Minha mãe, especialmente, que tinha deixado os irmãos e irmãs, sentia muita falta da família.
No final da guerra não voltaram para a Itália por falta de dinheiro e também porque meu pai tinha um grande sentimento de lealdade para com o Brasil, que o tinha acolhido quando teve necessidade.
Durante o Holocausto, perdemos dois parentes próximos, a irmã de meu pai, Jole Camerini, e seu marido, Giorgio Goldschmiedt, os quais, não querendo refugiar-se no Brasil com a família, haviam permanecido na Itália mesmo tendo mandado o filho, Sergio, estudar em Londres. No momento das perseguições, porém, decidiram refugiar-se na Suíça, mas foram traídos pelas próprias pessoas que haviam oferecido ajuda a eles e os levado até a fronteira. De lá foram reconduzidos a Milão, internados na prisão de San Vittore por um ano, e depois deportados para Auschwitz, de onde não voltaram. Como me contou meu irmão, não recebiam notícias precisas, mas se sabia que as perseguições eram impiedosas.
Sinto-me muito mais italiana que judia. Adoro a Itália e vou para lá com freqüência. No Brasil, nunca tive contato com os italianos fascistas, não os suportava.
Sou divorciada, mas tive três filhos com o marido Tavares: Maurício, que vive praticamente trabalhando e viajando pela Europa, e nunca quis voltar definitivamente; Lúcia, que atualmente vive comigo e tem uma filha, Giada, mas não quis se casar; Lívia, infelizmente, faleceu em um acidente de carro na Itália.

Palavras-chave:
Brasil; catolico; Colegio Dante Alighieri; Colegio Sao Luiz; Colonia Mussolini; Escola Americana; facismo; Perugia; Historia da Arte; Instituto di Cultura Italo Brasiliano; Italia; judaismo; Leis raciais (1938); Literatura; O Estado de Sao Paulo, jornal; Recife; sinagoga da Abolicao.