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BERGMANN, Edda Mayer

RG:
TES/53

Nacionalidade:
Italiana

Naturalidade:
Trieste

Data de Nascimento:
17/03/1927

Entrevistado por:
Anna Rosa Bigazzi

Data da entrevista:
12/1999

Cidade da entrevista:
Sao Paulo

Transcriado por:
Anna Rosa Bigazzi

Transcrito por:
Anna Rosa Bigazzi 

História:

Nasci em Trieste em 27 março de 1927. Junto com meus pais, Emma Levi Mayer e Mario Mayer e minha irmã Gina, mudamos para Milão. Eu tinha 11 anos em 1938 quando, foram proclamadas as leis raciais. Meus pais sabiam que este episódio teria acontecido porque, o irmão de meu pai, Raphael Mayer, que morava em São Paulo desde 1926 – sendo amigo íntimo de Getúlio Vargas e de todos os Ministros, incluido Oswaldo Aranha -  tinha avisado meus pais e aconselhado-o a deixar a Itália o mais cedo possível e vir para o Brasil. Enviou-nos os vistos pelo Itamaraty que não foram aceitos pelo cônsul brasilieiro em Genova. Conseguimos obter vistos provisórios pelo consul de Milão e embarcamos para o Brasil em fim de 1938, no navio Conte Grande.
Apesar de ser ainda uma criança, sofrí muito com a proclamação das leis raciais. Naquele período lembro de ter ficado doente, com febre muito alta. A porteira do nosso prédio não deixou o médico subir até o meu apartamento, pois, sendo uma menina judia, era melhor que morresse.  Lembro, também, que estudava em uma escola religiosa católica dirigida por freiras francesas, pois já tinha sido expulsa das escolas estaduais... Quando morreu o Papa Pio XI e substituido por Pio XII, eu fui expulsa deste colégio também,  por ser de raça judaica.
Enquanto o Papa Pio XI tinha declarado que de raças conhecia somente as dos homens, o seguinte fizera que eu fosse expulsa do colégio!! Este episódio ficou na minha memória e me acompanhou a minha vida toda. Esta é a razão pela qual fui uma das pioneiras no Brasil do diálogo inter-religioso.
No Brasil, durante a 2ª Guerra Mundial, lutei como estudante universitária, dirigindo causas sociais e humanitárias. Depois especializei-me em analise política, religiões comparadas, política religiosa, religião na política, etc.
Trabalhei em quase todas as instituições da comunidade, B’nai B’rith, CIP, Lar das crianças, etc.
Meu pai, Mario Mayer, era um funcionário da Banca Commerciale Italiana. Decidiu emigrar para o Brasil depois da proclamação das leis raciais, motivado pelo fato que seu irmão, Raphael Mayer como já disse morar no Brasil desde 1926. Em 1938, chegou a dono do  Banco Italo-Brasileiro. Era dono, também, de muitas indústrias nas quais conseguiu dar trabalho a muitos judeus que naquele período fugiam da Itália.  Assim, meu pai foi trabalhar como assessor de Assis Chateaubriand e como diretor de uma das indústrias do irmão, a Lacta (fabrica de chocolate).
Meu tio Raphael Mayer colaborou com a construção do Museu de Arte Moderna na Avenida Paulista em São Paulo. Depois, fez  parte da direção dos Diários Associados com Oswaldo Aranha.
Minha família ficou hóspede na casa do tio Raphael até o momento que meu pai conseguiu comprar casa própria.
Casei-me com Hans Sigismund Israel Bergmann, alemão que chegou no Brasil, em 1936. Perdeu com exceção da mãe, todos seus parentes no Holocausto. Tenho dois filhos, Herberto e Lia Regina – muito ativos na comunidade judaica. Tenho três netos: dois meninos, Fabio e Marcello e uma menina, Andréia.
Nunca pensei em voltar definitivamente para Itália.Tenho ainda grande rancor deste país, onde tive que deixar a escola e porque, na hora do embarque no Conte Grande, confiscaram, apesar de meus protestos, minha boneca, pensando que nela estivesse escondido, jóias e dinheiro.

Palavras-chave:
Banca Commerciale Italiana; Banco Italo-Brasileiro; Brasil; B'nai B'rith; CIP; colegio catolico; Consul do Brasil em Genova; Consul do Brasil em Milao; Conte Grande (navio); Diarios Associados; Getulio Vargas; guerra; Itamaraty; Judaismo; Lar das criancas; Leis raciais (1938); Milao; Museu de Arte Moderna; Oswaldo Aranha; Papa Pio XI; Papa Pio XII.