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BEER, Umberto

ARQSHOAH

RG:
TES/66

Nacionalidade:
Italiana

Naturalidade:
Ancona

Data de Nascimento:
1896

Transcriado por:
Anna Rosa Campagnano Bigazzi

História:

Nasci em Ancona em 1896, onde vivi com minha mãe, jovem viúva, na casa do meu avô paterno. Depois do colegial, aos dezoito anos, lutei na Primeira Guerra Mundial, combatendo na Infantaria e mais tarde no Corpo de Choque. Fui ferido cinco vezes e fui condecorado com quatro medalhas de prata... Em novembro de 1921 fui promovido a oficial efetivo por Mérito de Guerra. Fui instrutor da Academia Militar de Módena, freqüentei a escola de guerra e entrei depois para o Corpo de Estado Maior. Fiz parte do comando da divisão militar de Volosca e da Secretaria Militar do ministro da Guerra. Fui adido militar em Tânger, Marrocos e, sucessivamente, enviado para a Espanha, quando eclodiu a guerra civil a fim de organizar e dirigir o serviço de informação militar. Ganhei mais duas medalhas, sendo uma delas a Cruz de Guerra.
Fui então nomeado chefe de Estado Maior da divisão motorizada de Trento.
Depois... Chegado o fim do verão de 1938, como eu era e sou de religião judaica fui sumariamente “liquidado” do exército italiano ao qual eu me havia dedicado com entusiasmo, energia e sangue.
Com minha doce, querida e idosa mãe e com a torre de energia e otimismo que é minha esposa, e mais os nossos três filhos, emigrei da Itália para o Brasil onde, com dificuldade, tentei diferentes profissões e onde até hoje vivo, depois de uma estada de seis anos nos Estados Unidos.
Terminada a Segunda Guerra fui convidado a voltar para o exército, mas não aceitei: os meus filhos já tinham se enquadrado na vida do país e, devo confessar, o “pontapé” que tinha levado ainda doía.
Numa manhã de julho de 1938, abro o jornal e leio a conhecida declaração de um grupo de médicos e cientistas que afirmam que eu, assim como todos os outros judeus, somos mestiços, estrangeiros, indignos de ser chamados italianos... Em novembro minha decisão de emigrar tornou-se imperativa. A solução de permanecer em uma pátria tão madrasta era inconcebível e indecorosa.
Comecei a via crucis das visitas aos consulados para obter um visto para toda a família, coisa nada fácil... Inicialmente a solução que me pareceu mais viável e atraente foi a de emigrar para o Marrocos, onde tinha vivido e conhecia a língua... mas não foi possível porque, segundo o bureau de informações francês, eu estava proibido de ingressar no Marrocos, sendo inacreditável que um oficial de meu valor pudesse ser posto para fora do exército. O bureau temia que eu fosse para África fazer trabalho de espionagem!!
Depois de várias tentativas, resolvemos vir para o Brasil, em cujo consulado em Gênova um certo senhor Hofman fazia propaganda a favor do grande país.
Completadas as tramitações, com 36 caixas, baús e malas, cheias de todos os nossos pertences, embarcamos em 16 de fevereiro de 1939, em Nápoles no navio Oceania... Chegamos em Santos em 1º de março de 1939. Depois de alguns dias, nos instalamos numa casa modesta, mas agradável, e inscrevemos os nossos filhos na escola ítalo-brasileira Dante Alighieri.
Cheguei munido de várias cartas de apresentação, que se demonstraram perfeitamente inúteis e comecei a procurar um emprego.
Um dia, sentado no escritório do senhor Farina, do Banco Francês e Italiano para a América do Sul, aproximou-se de mim, sorridente, o senhor Raffaele Mayer, diretor do Banco Ítalo-Brasileiro e, sem mais, me ofereceu um emprego. Aceitei e comecei a trabalhar. Este senhor teve um papel importante na minha vida. Era uma das personalidades marcantes do setor bancário (infelizmente, devido a especulações erradas, perdeu sua fortuna). Depois de catorze meses de atividade bancária percebi que não agüentava mais. O trabalho era tão insípido e repetitivo, que decidi pedir demissão.
Quando o Brasil declarou guerra à Itália nos tornamos súditos inimigos. Assim, refugiados, por culpa dos fascistas, fomos tachados de fascistas e, como tal, sujeitos a restrições policiais nada agradáveis. Por exemplo, tivemos contas bancárias bloqueadas, proibição de vendas de bens e imóveis, de falar italiano em público, de viajar sem um salvo-conduto especial e outras amenidades. Mas enfim, a tudo nos habituamos e nos acostumamos a ser “súditos inimigos”.
Em 25 de julho de 1943, estávamos reunidos num grande grupo na casa de Pino Pincherle e festejávamos o seu aniversário. Durante a festa começou a correr a voz de que algo importante estava acontecendo na Itália. Ligamos o rádio e pouco depois uma voz claríssima leu o comunicado que anunciava que Mussolini tinha sido substituído por Badoglio. A seguir tocaram o hino de Mameli (hino nacional italiano)... Confesso que o velho hino me comoveu profundamente e contentes, todos os presentes começaram a gritar e cantar.
Com o professor Tagliacozzo, que foi diretor da Pirelli de Milão, iniciei uma modesta mas interessante atividade editorial. Abrimos a Livraria Nobel.
Em uma vibrante correspondência que mantive com meu primo Giorgio Coen, refugiado em Nova York, brotou em nossa família a idéia de nos transferirmos para o campo e dar paz e tranqüilidade à nossa atribulada existência. Assim, decidi rapidamente correr atrás deste sonho... Obtido o visto de entrada nos Estados Unidos, vendi a livraria a meu primo Claudio Milano (que a transformou em uma bela e rendosa empresa) e partimos.
Partimos de Santos, em 22 de dezembro de 1945, com o navio brasileiro Mauá e voltamos a Santos seis anos depois em um navio de carga norueguês, o Bowmont. O motivo de nossa volta foi sobretudo o início da guerra da Coréia. Meus filhos mais velhos, que tinham conseguido entrar na Universidade teriam, provavelmente que se alistar dentro em breve. Essa perspectiva não nos agradou, minha esposa já derramava lágrimas só com a idéia e, por meu lado, eu, que tinha combatido pela Itália, talvez inutilmente, não queria ver meus filhos combaterem no Extremo Oriente. Voltamos cheios de ricas e novas experiências e conhecimentos utilíssimos. Economicamente, contudo, estávamos muito mais pobres e, eu, praticamente, derrotado... e triste, porque tinha deixado minha inesquecível mãe no pequeno cemitério de Wallingford, em Connecticut.
Para recomeçar a trabalhar no Brasil fui novamente ajudado pelo senhor Mayer.

Palavras-chave:
Academia Militar de Modena; Banco Italo-Brasileiro; Benito Mussolini; combatente; consulado do Brasil em Genova; Corpo de Choque; Corpo de Estado Maior; Cruz de Guerra; Espanha; Exercito italiano; fascismo; guerra civil espanhola; Infantaria; Leis raciais (1938); Livraria Nobel; Marrocos; Oficial efetivo por Merito de Guerra; Primeira Guerra Mundial; Secretaria Militar do ministro da Guerra; Tanger; Trento; Volosca.