> Biblioteca

CAMERINI, Enrico

RG:
TES/69

Nacionalidade:
Italiana

Naturalidade:
Milao

Data de Nascimento:
1926

Cidade da entrevista:
Sao Paulo.

Transcriado por:
Anna Rosa Campagnano Bigazzi

História:

Eu e meu irmão, que é um ano mais velho que eu, estávamos no hospital, no isolamento porque estávamos com escarlatina. Minha irmã (Noemi) havia nascido há pouco, tinha só alguns meses e fomos para o hospital para evitar o contágio.
Lembro-me que meu pai vinha nos visitar e nos olhava por uma janela que dava para o corredor. Um dia veio nos visitar, pegou o jornal Corriere della Sera e o colocou contra o vidro... dizia “Promulgate leggi razziali” (Promulgadas as leis raciais). Eu não entendi muito bem, mas depois, com o tempo, entendi que não podíamos mais ir à escola, não nos queriam mais. Ora, para um menino de 12 anos sentir-se marginalizado, expulso, enxotado, não era agradável. Eu me perguntava por quê?... o que havíamos feito de errado?
Então houve este problema: o que fazemos, o que não fazemos? Minha mãe, entretanto, havia nos matriculado na escola judaica na Via Eupili, eram dois prédios pequenos... e eu iniciei o segundo ginasial na escola judaica, um pouco perturbado por esta novidade.
Enquanto isso meu pai, nunca lhe agradecerei o suficiente, pensou em sumir dali. E assim, em janeiro de 1939, meu pai (Oscar Camerini), minha mãe (Lívia Dal Seno Camerini), meu irmão, eu e minha irmãzinha, que tinha um ano, partimos para o Brasil. Por que o Brasil? Porque papai tentou conseguir o visto para os Estados Unidos e não deram, o visto para a Argentina e não deram, o visto para o Brasil e disseram sim. Imaginem um homem de 40 anos, com mulher e três filhos, que larga tudo, meu pai era comerciante, que vai enfrentar uma vida nova em um país como o Brasil, o Brasil de 39, não aquele de hoje, que é outra coisa. Foi uma aventura bastante difícil, sem falar o idioma, sem conhecer ninguém, porém nós nos saímos bem.
As minhas sensações e reações a esta expulsão da escola são muito difíceis de descrever, porque vocês podem imaginar... o sentimento de... mas o que eu fiz de errado?... etc.
Ao mesmo tempo minha mãe, professora no Istituto Magistrale “Rosa Maltoni Mussolini”, hoje “G. Agnesi”, foi expulsa da escola pelas leis raciais, portanto mais um motivo para ir embora. Minha mãe depois teve muitas experiências de ensino também no Brasil, lecionou italiano, etc.
Eu me vi de volta ao primeiro ginasial, tive de refazer o primeiro ginasial no Brasil no meio de um grupo de brasileiros que falava português, e eu não.     
Tive de superar este obstáculo de qualquer maneira. Devo dizer que naquela época muitos judeus italianos haviam seguido o exemplo de meu pai.  
Meu pai foi, se não o primeiro, um dos primeiros, e muitos judeus italianos se reencontraram em São Paulo e começaram a fazer amizade, a estabelecer uma espécie de pequena colônia (a Colônia Mussolini), lá tínhamos amigos, cada um lutando com os seus problemas, procurando adaptar-se a seu modo e seguindo um pouco os noticiários. Em 39 ainda não se sabia sobre os campos de concentração, havia o perigo, esperava-se qualquer coisa...
A irmã de meu pai, Jole Camerini, casada com um certo Goldschmiedt, estava em Milão, tinham um filho um pouco mais velho que eu. Haviam mandado o filho para a Inglaterra para ficar com amigos, eles ficaram em Milão. Em dezembro de 1943 decidiram fugir para a Suíça. Foram para um lugar perto de Morazzone, perto de Varese, em casa de amigos que os puseram em contato com contrabandistas, esses carregadores que passavam a fronteira com a Suíça, os quais se comprometeram a acompanhá-los até lá, cobrando metade adiantado e metade quando os conhecidos voltassem. Pegaram o dinheiro, os levaram até a fronteira suíça e simplesmente os venderam aos “repubblichini”, que eram os italianos que haviam aderido à república de Salò, isto é, os fascistas de então. Estes os levaram de volta a Milão, para a prisão de San Vittore e, depois de um ano, foram colocados em um vagão de carga e levados para Auschwitz. Nunca mais se soube nada deles. Estas coisas nós soubemos depois, à medida que aconteciam, e nunca agradecemos suficientemente a coragem de meu pai em escapar.
Entre parênteses, quando se fala dos nazistas que deportaram os judeus, aqui na Itália precisa lembrar que eles foram muito ajudados (a partir de 1943), pelos italianos “repubblichini”, isto é, os fascistas que depois da rendição dos italianos aos aliados, mantiveram-se fieis ao nazi-fascismo e transformaram-se em  delatores.
Depois da guerra, voltei para a Itália por razões de trabalho. No Brasil eu me dediquei à pintura, eu era pintor e, para manter a família, trabalhava em publicidade. Depois, com o tempo, fui trabalhar em uma grande empresa internacional, uma agência de publicidade americana, a qual me mandou para Nova York para um estágio, em 1961, onde conheci um homem que me disse: “escute, porque não vem trabalhar em Milão, na McCann Erickson”... e eu, circulando há um ano, aceitei a proposta interessante e voltei para a Itália com mulher e três filhos, três filhos brasileiros. Devo dizer que o Brasil daqueles anos me dava um pouco a sensação de alguém que vai a um baile e fica sentado em um canto observando, enquanto todos dançam. Era na Europa e nos Estados Unidos que as coisas aconteciam. Então eu voltei, voltei porque o tempo havia passado e porque, digamos também, eu havia perdoado. Tendo mudado o governo, tendo mudado as classes dirigentes, não havia motivo para guardar rancor.
Diante das discriminações das leis raciais, colegas de minha mãe disseram “Mors tua vita mea” (Tua morte, minha vida).
Fui educado em um ambiente onde muitos conhecidos de meu pai e os meus amigos eram judeus, onde havia algumas cerimônias religiosas: não sei... três vezes por ano íamos à sinagoga: na Páscoa, no dia do jejum e no ano novo judaico... mas sem acreditar muito, mantendo as tradições. Foram estas tradições, no fundo, que mantiveram este povo judaico unido, apesar do fato de que até cinqüenta anos atrás, não tinham uma terra, um país.
O fato de ter mãe judia faz de você um judeu... Minha mãe, Lívia dal Seno Camerini, tinha a mãe judia, o pai não era judeu. Mas não sendo religiosos, nem ele nem ela, nunca houve um conflito. Em 1933 iniciaram-se as perseguições raciais contra os judeus na Alemanha, com a ascensão de Hitler ao poder. Minha mãe, sabendo do problema que ser judeu estava se tornando, converteu-se ao judaísmo, tomando o banho ritual, e meus pais se casaram novamente segundo o rito judaico. Minha mãe queria dar uma demonstração de solidariedade a meu pai. Enquanto muitos judeus se batizavam, para esconder o fato de ser judeus, minha mãe escolheu ser judia. Mas em geral não se escolhe. É muito difícil definir o que é ser judeu... 

Palavras-chave:
Adolf Hitler; antissemitsmo; Auschwitz; Benito Mussolini; Colonia Mussolini; Corriere della Sera (jornal); fascismo; G. Agnesi; Istituto Magistrale "Rosa Maltoni Mussolini"; Leis raciais (1938); McCann Erickson (agencia de publicidade); Milao; Morazzone (Italia); Nova Iorque; Paris; repubblichini; Salo; San Vittore(prisao).