> Biblioteca

COHEN, Daniel

ARQSHOAH

RG:
TES/112

Nacionalidade:
Grego

Naturalidade:
Salonica

Data de Nascimento:
17/09/1909

Entrevistado por:
Marilia Freidenson e Anabela Sereno  (AHJB)

Data da entrevista:
26/03/96

Cidade da entrevista:
Sao Paulo/SP

Transcriado por:
Rachel Mizrahi

História:
Meu nome é Daniel Saltiel Cohen, nasci em Salônica, em 17 de setembro de 1909.  A cidade de Salônica era uma cidade com 60.000 judeus, a única na Europa onde o rabinato tinha autoridade. Era a maior comunidade sefaradi da Europa. Somos da Espanha. Sou Cohen e Matalon. Uma parte trabalhava com tecidos. Meu pai tinha uma tipografia. A primeira coisa que os alemães tomaram foram as tipografias dos judeus gregos, alegando propaganda. Naquele tempo trabalhava. Estava com 20 aninhos e nos mandaram trabalhar em diversos lugares. Eu tive a sorte de trabalhar em uma fábrica que produzia vagões e os chefes eram bons gregos.  
 
Eu era gêmeo e minha irmã foi para a Polônia, e a outra tinha uma diferença de 10 anos. Éramos 3 filhos. Meus pais eram Saltiel e Esther.
 
Estudei na escola grega de comércio e economia. Tive pouca religião. Nas férias íamos a uma escola pequena de um rabino. Meu pai era liberal. Em casa, festejávamos o Kipur, Purim, Rosh Hashaná, Páscoa.
 
O Barão Hirsch construiu  um bairro grande e um hospital. Foí lá onde se concentraram todos os judeus para a deportação. Nós morávamos no centro da cidade, em um prédio, embora de criança morávamos em uma casa, o mal foi o distanciamento dos gregos e isso criou o antissemitismo, 
 
Havia antissemitismo, em Salônica, porque tudo estava em nossas mãos. Mesmo se os gregos quisessem fazer um negócio, não conseguiam. Em 1936 tudo estava mal. Salônica havia uma jurisdição própria. Os judeus falavam muitas línguas, principalmente o francês.
 
Éramos criticados por isso. Na Alliance aprendíamos o hebraico, francês e depois o grego. Em casa, se falava espanhol e francês o ladino espanhol.
 
No gueto nos fecharam, quando se levantou o professor Nachamá ele falou duas palavrinhas e todos choraram... era um erudito, professor de matemática. Tinha um banco com em sócio que voltou e começou a trabalhar em uma firma – Melissa - grande de jersey e loja grande onde se vendia no varejo. Ele cobrava  juros altos e depositava todo o dinheiro com eles. Não tive a sorte de conhecer meus avós.
 
Meu avô paterno se chamava Daniel. Quando o bairro grande foi transformado em gueto em 1942 ou 43, fomos mandados embora, porque ficava perto da estação, nos vagões estava escrito "8 cavalos ou 60 homens". Aí colocaram um barril para as necessidades. Nós sabíamos, pois chegavam cartas, e dizia que o pai tinha falecido.
 
As cartas eram de conhecidos gregos, da Alemanha. Havia representações de mercadorias. Estava sabendo tudo o que está acontecendo na Europa. Ninguém pensou em sair, fugir para onde? Fugir como? Eu fugi. Depois quando vi que não podia deixar meu pai. Era o único homem e não iria deixar minhas irmãzinhas. Quando estávamos nesse bairro, separaram os jovens. Eu com 22 anos me deixaram num barranco e nos mandaram trabalhar a 60, 80 quilometros de Atenas, uma cidade que chama Thivas, Aí estavam apenas meninos judeus. Eram firmas de construção. Púnhamos umas linhas de trem, uma, duas, três. Só judeus... Para onde podíamos fugir? A Europa inteira estava pegando fogo.
 
Não existia a possibilidade da América. Quando passava pelas estações onde tinha alemães, a quinta coluna dos alemães estava infiltrada na Grécia. Nós estávamos vendo tudo e não tínhamos meios. Fomos convidados em um sábado a uma praça grande. Nunca me esqueço de um judeu. Tinha seus 35, 40 anos, um Don Juan... veio de branco, os cachorros treinados foram em cima dele e fizeram pedaços dele. Depois o largaram e começaram com os papéis. Ruas, bairros inteiros com sacos. Na ultima reunião com papai e mamãe me disse: “Olha, se eu voltar, quero ver vocês todos”.  Mas, o único que se salvou de toda a família fui eu. Um vizinho me dedou. Mas, existia gregos bons. Um deles que me salvou me disse porque eu trabalhava. Fugi do campo de concentração com quatro outros. Fui para Thivas e trabalhava para me distrair. Você via senhores de pardesus com sobretudo e pelas mãos, se via que não eram do trabalho.
 
Havia banqueiros e diziam: “Deus, bem que está nos castigando”. Merecidamente. Cada um com cabeça diferente. Eu era propagandista e não tinha medo. Perdi meu pai, minha mãe. Eu estou  sozinho, quem iria se importar comigo? No campo, se você estivesse doente e ia ao hospital bem arrumadinho, branquinho, com 10, 12 camas para quando viesse a Cruz Vermelha ver que tudo estava bem.  Às vezes quando dizia que estava com febre, te levavam bem longe e um tiro na nuca só que, antes você fazia sua própria cova. 
 
No campo havia soldados russos, prisioneiros, mas não se misturavam conosco. Nós éramos prisioneiros de guerra... eles, prisioneiros civis. 
A maioria dos soldados eram austríacos, gente boa, não te forçavam, não brigavam e até tinham dó da gente. Não tinha notícias de meus pais e de minhas irmãs. Nada sabíamos dos fornos na Polônia. Fugi porque, em uma sexta-feira em Cracóvia trabalhava numa firma para não estar pensando.
 
Já entendia alemão depois de nove meses. Um soldado com raiva me deu um empurrão. Pensei em reagir, Tirei do bolso um canivete....Ninguém nasce criminoso. Eles se fazem na hora. Naquele minuto, passou um menininho....e falei, "Não, eu não vou fazer nada...” Ele viu o erro que fez comigo. Não aconteceu nada. Pensei comigo: Deus mandou um inimigo, pensei em fugir. Um belo dia com um short com Maguen David com mais quatro, começamos a pensar como fugir eram 4 horas da madrugada.
 
Começamos a tirar areia. Os alemães estavam com as namoradas. Os poucos oficiais traziam mulheres, prostitutas, namoradas, moravam juntos. Saímos do campo de arames farpados e, vimos um ônibus Gasogen e perguntamos: “Quanto você quer para nos levar para Atenas?" Não tínhamos nada. Em cima tinha dois sacos com grãos de bico, em fava ainda, como o feijão. E começamos a comer, estávamos com fome! Quando chegamos em Atenas não tinha mais nada. O pior de tudo, dizem que existe Deus, existe. 
 
Não sei se é fé, Deus ou a natureza, não sei, existe uma força maior. Então quando chegamos, estavam os alemães os piores do mundo, os SS, aquele não te matava com o revólver, mas com a bota. Escapamos quando chegamos o primeiro que vi foi o Moshé, que era representante dos relógios Mido em Atenas e comecei a correr... não queria me ver. Ele gritou "Dani, Dani, Dani, Dani, você tá fugindo? Vem para casa." Eu estava sem camisa, sem nada, de noite, só com um short. Na segunda-feira comecei a trabalhar. Em Salônica, tivemos a má sorte pois lá estavam os alemães.
 
Em Atenas estavam os italianos eles não queriam saber de nada, vinham com o violão, cantando e bebendo, e eram amigos de todos. Alguns gregos eram descendentes de italianos.. 
 
Aí meus amigos disseram "Não, você não vai dormir em canto nenhum." Eles me tiraram papelada falsa, tudo direitinho. Aí, disseram, "Você não vai dormir em casa nenhuma, você vai dormir aqui, toda noite." Me deram a chave da loja, armazém, uma noite eu me perdi lá dentro, eram quatro ruas, meu primo trabalhava como diretor, fiquei três meses. Depois vieram os alemães com a mesma história de Salônica. Mas eu não caí nesta. Isto foi em 1943.
 
Então, veio um grego, que me devia um favor. Era o negócio da Bolsa, a Bolsa era isto, você comprava hoje em dólar, naquele tempo em libra ouro, então você comprava 100 libras ouro a 10 reais. De noite aumentava para 11 ou abaixava para nove e quinhentos. E você falava "Fecha". Fechava a nove e quinhentos, eu preciso te dar 50 reais. Hoje se aumentava, a senhora vai pagar a diferença. Isto era a Bolsa. Eu quando fui lá com a lista de devedores. Perguntei: "Chaim, você não quer comprar uma bicicleta para mim? Eu vou receber esse dinheiro. O primeiro foi o senhor Kalepas. Fui, depois de 15 dias, e ele e a esposa me receberam. Quando lhe disse que era de Salônica e judeu, ele me convidou para almoçar. Recusei e depois de uma certa  amizade me disse "Você vai voltar semana que vem que eu te vou pagar." Fui. Ele me 5, 6 libras de ouro, deu 2 libras de ouro. Passei a receber pelo Chaim que me convidou trabalhar em um lugar sossegado. Eu morava num hotelzinho e me pediu não falar que era judeu. "Eu trabalhava no Chaim Romano, eu era tudo lá. No mesmo dia, fomos à comandatura em Atenas. E entramos num automotriz, que tinha só generais e eu, judeu.
 
Nos primeiros tempos, os nacionalistas vinham atrás de mim, me perseguiram. E depois fizeram questão de vir almoçar na casa do patrão. Eu falava um pouco de alemão, e aí eles me colocaram para tomar conta de 15 pessoas. 
 
Encostado na loja, um pintor, uma fotografia de Haribor grande dramaturgo judeu que escreveu "Sombras que apagaram". Aí, perguntei "Meu senhor, por que sombras que apagaram?" - "Eu estou de passagem aqui, eu vou para minha terra, encontrar meus pais", sem falar quem era... não convinha. Aí disse ela, "Bom, o senhor vai fazer um discurso amanhã. Vamos, numa escola, e o senhor vai falar." A guerra tinha terminado. Aí fugi para Atenas, Não encontrei ninguém. Voltamos para Salônica. Todos esperando por alguém os que restaram da antiga  comunidade judaica estavam bem ....
 
A comunidade era de 60 mil. Os de Atenas estão misturados. Em Salônica se dedicavam ao comércio, assimilados, casados com gregas e gregos. Em Atenas isso sempre existia, mas em Salônica era muito diferente.
 
Os jornais escreveram o que tinha acontecido com os judeus. Em Eion [cidade de Atenas]começamos a saber sobre os fornos. Quando nos liberaram todo mundo sabia. O pior de todos foi o Papa, que sabia tudo e não ajudou nada. 
 
Quando nos liberamos em Atenas, quando você falava que era judeu, não queriam receber aquele dinheirinho que se coloca os timbres, selos. A comunidade judaica arrumou os melhores advogados, colocou anúncios em Atenas, Salônica, quem conhecer esse caso, para salvar. E fomos e o juizado perguntava: "Quanto você pagou?" "Não paguei nada, não só que não paguei, no momento que falei meu verdadeiro nome, ele percebeu que era judeu, nem o selo quis cobrar." 'É assim?".  
 
Meu nome era Athanasius Koujumzopoulos. Depois da libertação fui a comunidade. Fiquei na Grécia poucos anos. Vim para Brasil em 1954. Em Salônica tinha loja de tecidos, estávamos ganhando dinheiro e não queria me estabelecer porque o meu filho estava com 3 aninhos. Não queria fazer o mesmo erro de meu pai. Porque na segunda geração se perde tudo. Queria ir para a Argentina, onde tinha um amigo. Mas, depois decidimos pelo Brasil. Vendi tinha e estamos aqui.
 
Casei-me em janeiro de 1949, ela se chamava Matilde e era de Salônica.
Os que voltaram, ficaram ricos, ou porque encontraram bens dos pais, dos tios e, se você tem uma posição boa, porque sair?... Hoje não é como antigamente, onde andavam judeus e judeus, não tem mais isto. Todos os que não voltaram foram queimados vivos. Sai porque fui influenciado por um livro de Stefan Zweig.
 
Todo chefe de família tem de encontrar um canto de liberdade e esse canto se chama Brasil. Aí falei ao meu sogro que quis vir também e  meus cunhados. Decidimos vir para o Brasil, em 1954, não deixavam entrar judeus na Argentina, pois, lá tinha muitos alemães. Meu cunhado veio 4, 5 meses antes e escreveu que tudo era muito bonito. Eu cheguei num sábado e no domingo de manhã tive a infelicidade de ir a uma feira e numa fila para vender tecido. Fui para a rua 15 de novembro trocar uns dólares. Na volta, na Ladeira Porto Geral, entro na loja e compro uma maquininha de fazer sorvete. 
 
Conheci o guarda livro de meu sócio, do meu sogro numa torrefação de amendoim. Meu amendoim era torrado, gostoso, feito à lenha. Aí eu fiz freguesia, e começamos, a abrir outra loja, e outra loja, cheguei a ter 28 lojas. Aí, o meu fornecedor quis ser sócio. 
 
Tenho duas netas de meu filho, e um neto que mora aqui, esse aqui já é mais neto, não por ser menino, porque está em casa. 
 
Viemos ao Brasil de navio, chamado Júlio César e desembarcamos em Santos. E ainda sou grego. Mas, me considero brasileiro. 
 
O filho maior nasceu aqui, o Salis. a Etula é mais brasileira que a senhora. Ela estudou no Graded School desde 5 anos de idade. Falava inglês, francês, português. E desde criança ela é gente, gosta das empregadas, daqueles que não tem nada na vida. Então por isso posso orgulhar. 
 
Frequento a Sinagoga da Abolição duas vezes por ano. Gostaria de estudar profundamente a Bíblia, o Torá, agora já é tarde acho que devemos seguir nossa religião, porque de nossos pais, e temos como dever seguir os passos deles. Só isso. E um Shalom para todos eles. 

Palavras-chave:
Alemanha; antissemitismo; Argentina; Atenas; Brasil; Cracovia; Espanha; Europa; Grecia; gueto; Julio Cesar (navio); ladino; Polonia; Salonica; sefaradi; sinagoga Abolicao; Santos (SP); Stefan Zweig; Thivas; tipografia