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BERCOVICI, Eugenio (Erwin)

RG:
TES/117

Naturalidade:
Czernowitz

Data de Nascimento:
02/05/1928

Entrevistado por:
Luba Schevz e Lilian Souza

Data da entrevista:
03/06/2011

Cidade da entrevista:
Sao Paulo

Transcriado por:
Luba Schevz

História:
Nasci na Romênia, na cidade de Czernowitz, em 1928, embora meu pai fosse da Hungria e minha mãe de Viena (Austria). A cidade de Czernowitz era a mais importante da região de Bucovina na Romênia. Possuia muitas sinagogas, parques, teatros e faculdades. Morávamos em uma bela casa e tínhamos uma boa situação econômica.
Em 1940, os russos entraram e ocuparam as regiões de Bucovina, Estônia, Látia e Lituânia e metade da Polônia, graças aos tratados feitos com a Alemanha. No período, retiraram destas regiões quase 80% da população na faixa dos 18 aos 50 anos de idade, levados para campos de trabalho. Ficaram as crianças, as mulheres e os velhos. 
Meu pai foi levado para a prisão. Foi denunciado como capitalista e que não aceitava o regime político. Ele era representante atacadista na Hungria e vendia e exportava sapatos “Batia” para a Tchecoslováquia, Romênia e outros países. Com a invasão dos russos na Romênia e a prisão do meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho e eu ficamos escondidos até 1941 na casa de um vizinho que, mais tarde nos aconselhou a procurar meu pai na Sibéria.
Entramos num trem de gado que ficou parado na estação por mais ou menos uns três meses até que começou a viagem de 50 dias à Sibéria. Apenas 25% dos passageiros chegaram vivos lá. Chegamos perto de Tomsk, no rio Vasiugan e por ele fomos levados ao norte  da Sibéria até Katalgan, onde 280 pessoas foram lá deixadas em oito casas. O rio era o único meio de comunicação e no inverno ficava coberto de gelo. Nos arredores haviam pântanos. Eu era ainda uma criança mas tinha que ajudar minha mãe no que eu podia: pescava, tirava o gelo e depois extraia o óleo do girassol. Cavava a terra para achar alguma batata que sobrara do ano anterior ou o que a gente plantava para não morrer de fome. Muitas pessoas comiam capim que se chamava grapiva que poderia levar à morte. Mais da metade da população não tinha o que comer. Não sabíamos onde meu pai estava. Em 1946 o liberaram da prisão e ele nos encontrou e contou que o canal entre o rio Volga e Donieth foi construído pelos prisioneiros de um campo de trabalho que ficava perto da prisão onde ele estava. Meu pai trabalhou cortando madeira das 7:00 da manhã até as 10:00 hs. da noite. Não sabe como sobreviveu pois passou muita fome, frio e ficou muito doente.
O governo russo o soltou da prisão e lhe disseram que tinham cometido um engano com sua sentença e que, agora, ele poderia ter uma vida livre, mas não poderia sair da Rússia.
Durante estes cinco anos, trabalhei e estudei. Consegui me formar e ter o direito de sair da Sibéria e ir para o Cáucaso, sul da Rússia onde o clima era mais quente. Fui com o meu pai. Minha mãe e meu irmão ficaram em outra cidade. Cheguei a ir para Moscou mais ou menos em 1953 onde eu trabalhava durante o dia e estudava à noite. Fiz várias faculdades e de todas elas me formei com louvor. Não consegui tirar minha mãe e meu irmão da região na Sibéria. Somente nos reunimos em meados da década  de cinquenta, quando meu pai faleceu. Meu irmão trabalhava como contador e eu me formei na Politécnica, elétrica e mecânica e trabalhei numa empresa de eletricidade.
Em 1975 soube de uma tia, irmã de minha mãe, que morava na Alemanha na cidade de  Darmstat. Resolvemos ir para lá. Trabalhei na Siemens.
Em 1976 fui para Paris, na casa de um primo que também sobreviveu. Em Paris conheci minha futura esposa e só nos casamos no Brasil em 1976. Escolhemos o Brasil para morar porque minha esposa já tinha muitos parentes: pais e irmãos que para cá emigraram. Meu irmão continua morando na Alemanha.
Tenho boas lembranças da minha terra de origem, antes da guerra. Nossa vida econômica era muito boa. Morávamos numa cidade muito limpa e bonita.
A lembrança mais forte que  simboliza a passagem  pela Shoah foi a fome, o frio, o medo que senti na Sibéria. Temia o antissemitismo dos oficiais que tive contato nas diversas fases da minha vida. 

Palavras-chave:
Alemanha; antissemitismo; Austria; Bucovina; campo de trabalho; Czernowitz; Darmstat; Estonia; Hungria; Lituania; Moscou; Paris; Polonia;Romenia; Russia; Siberia; Tchecoslovaquia; Tomsk; Viena; Volga (rio)