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ABRAHAM, Ben

RG:
TES/120

Nacionalidade:
Polonês

Naturalidade:
Lodz

Data de Nascimento:
1924

História:

BEN ABRAHAM

[Henry Nekrycz]

(Lodz, Polônia; 1924 ; São Paulo, 2015 )

É preciso aprender a história do passado para viver no presente e enfrentar o futuro com cabeça erguida.

 

Henry Nekrycz, mais conhecido como Ben Abraham nasceu 11 de dezembro de 1924, na cidade polonesa de Lodz1. Filho de Abrahan Nekrycz e de Ida Nekrycz., Ben Abraham sobreviveu ao gueto de sua cidade. Quando os alemães ocuparam a Polônia foi confinado no gueto e, posteriormente, enviado para os campos de concentração de Brauschweig, Watenstat, Ravenbruck e Auschwitz-Birkenau, entre 1943 e 1945. Neste último campo sua família foi dizimada. Dentre 200 parentes apenas ele e um primo sobreviveram. 2

Salvou-se por um milagre, como costumava dizer em suas palestras e testemunhos. Na noite de 1 e 2 de maio de 1945 foi libertado pesando apenas 28 quilos. Estava com tuberculose nos dois pulmões, escorbuto e desinteria com sangue. Ben Abraham passou dois anos de sua vida em tratamento, recuperando-se nos hospitais instalados pelos americanos nas zonas de ocupação. Conseguiu se recuperar e, segundo ele mesmo lembra, “naquela época nem havia tratamento para tuberculose.

Apos a queda do nazismo e diante das divulgação da dimensão das atrocidades cometidas pelos nazistas e colaboracionistas, tomou a si a tarefa de contar ao mundo as suas trágicas experiências, para nunca permitir que as mesmas atrocidades se repitam contra quem quer que seja. Referia-se a estes fatos como um ““capítulo de perseguições, atrocidades e matanças instituídos por Adolf Hitler.”

Como jornalista, presenciou outro conflito pelo qual se tornou vitorioso: a guerra de Independência do Estado de Israel, em 1947. Em 21 de Janeiro de 1955, Abraham se estabeleceu no Brasil e recebeu a naturalização em 30 de janeiro de 1959. No país casou-se em 28 de abril de 1956 com Miriam Dvora Bryk e constituiu família. Diante de seu trabalho e quinze livros relacionados ao Holocausto, o jornalista recebeu inúmeras homenagens das quais se destacam a Chave de Ouro do Memorial Yad Vashem de Jerusalém e a Medalha de Honra ao Mérito da Universidade de São Paulo.

Sua história de vida e seu olhar sobre o passado, assim como todas as oportunidades de sobrevivência e o amor pelo País que adotou como sua Pátria estão registrados em livros: E o Mundo Silenciou, Desafio ao Destino, Holocausto, Além do Infinito', Izkor, O Trajeto, II Guerra Mundial - Síntese, Janusz Korczak - Coletânea de Pensamentos, O Anjo da Morte - Dossiê Mengele, Iom Hashoá, Diário de um Repórter, De Varsóvia à Entebbe e Mengele - A Verdade Veio a Tona, obtiveram as melhores críticas nacionais e internacionais, com várias edições esgotadas após o lançamento. Como alerta à humanidade, foram reproduzidos na íntegra ou parcialmente pela imprensa e adotados como matéria obrigatória pelas escolas.

Atuando como assessor do Governo para a problemática do menor abandonado, conseguiu conquistar a admiração e respeito dos companheiros de trabalho e reconhecimento por parte de órgãos competentes. Em seu currículo constam convites oficiais dos Governos do Leste Europeu, com audiências concedidas por Chefes de Estado, Ministros e Altas Patentes Militares. Com a sua imparcialidade na busca da verdade, Ben Abraham não distingue facções ideológicas. A sua luta contra o totalitarismo e o imperialismo, tanto da esquerda como da direita, colocaram-no num pedestal de respeito como defensor autêntico dos mais puros postulados democráticos.

Ben Abraham, em 25 anos de sua carreira jornalística, destacou-se como comentarista internacional nos jornais Folha da Tarde, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Correio Brasilense, Estado de Minas, Jornal do Grande ABC, Zero Hora, Jornal de Natal, Jornal da Paraíba, Tribuna do Rio Grande do Norte, Resenha Judaica e outros no interior que reproduziam seus artigos. Quando se tratava de furos jornalísticos eram reproduzidos pela imprensa internacional. As pesquisas de Ben Abraham e sua corajosa ação no caso Mengele projetaram seu nome internacionalmente, contribuindo para que o processo do carrasco nazista não fosse, durante sete anos, arquivado.

A sua atuação como coordenador-geral da Sherit Hapleitá do Brasil e vice-presidente da Associação Mundial dos Sobreviventes do Nazismo é reconhecida internacionalmente, dando impulso na conscientização das novas gerações sobre o nazismo e as atrocidades praticadas em nome da "superioridade racial''. As suas entrevistas na imprensa escrita, falada e televisionada sobre o tema, levou a milhões de lares brasileiros o conhecimento da tragédia que desabou sobre os povos considerados inferiores pela nefasta teoria nazista.

Incansável em sua tarefa que assumiu voluntariamente, Ben Abraham viaja pelo Brasil proferindo palestras e debates nas universidades, igrejas, escolas, clubes, centros culturais, etc. Durante os últimos anos ele organizou e montou grandiosas exposições sobre a ascensão e a queda do nazismo. Essas exposições, com maior repercussão, foram montadas nas Assembléias Legislativas, Câmaras Municipais, Universidades Federais e Centros Culturais em vários Estados brasileiros. Entre estas pode ser citada a exposição, composta de 120 painéis (cerca 400 fotos e documentos), montada no saguão de entrada do Congresso Nacional em Brasília.

Pelo seu trabalho em prol da humanidade foi-lhe outorgado em 1980, pela Câmara Municipal de São Paulo, a "Medalha Anchieta'' e o diploma de "Gratidão da Cidade de São Paulo''; em 1983, o título de "Cidadão Paulistano'', em 1993, o título de "Cidadão Natalense'', em 1995, o título de "Cidadão Honorário do Rio Grande do Norte'' e, no mesmo ano, "Cidadão Mossorense''.

1 Lodzé a terceira mais populosa cidade da Polônia, com cerca de 770 mil habitantes (2007). Foi fundada em 1423 e se tornou um grande centro da indústria têxtil no século XIX,  indústria que entrou em decadência com a queda do governo comunista na região. Hoje a cidade é um importante centro cultural com 18 universidades e importantes centros de formação em teatro e cinema. Possui um dos maiores cemitérios judeus da Europa.

2Auschwitz foi um complexo de campos de concentração de trabalho e de extermínio construído em terras anexadas pelos nazistas ao sul da Polônia. Sua extensão era tamanha que ocupava três grandes campos: Auschwtiz I - Stammlager com funções administrativas; Auschwtiz II - Birkenau onde eram realizados os extermínios e Auschwtiz III - Monowitz, além de 45 outros campos de menores proporções.

 

ENTREVISTA TERRA1

27 janeiro 2012

"O Holocausto nunca pode ser esquecido", diz sobrevivente

Mariana Bittencourt

Terra - Quando e como ocorreu a ocupação de sua cidade natal (Lodz, na Polônia) pelos nazistas?

Ben Abraham - Tudo começou no dia 1º de setembro de 1939 (dia em que os alemães invadiram a Polônia). Naquela época, eu tinha 14 anos. Seis dias depois, as tropas alemãs entraram na minha cidade natal, Lodz. Logo, começaram perseguições aos judeus. Os religiosos tiveram suas barbas cortadas e eram humilhados, e os judeus eram pegos para trabalhos forçados. Os mais destacados eram levados na calada da noite e nunca mais voltaram. Logo depois, os alemães, para marcar os judeus, colocaram neles uma braçadeira branca com uma estrela de Davi azul no braço direito. Todos eram obrigados a usar, desde os 5 anos de idade até 80, 90 anos. Judeus eram pegos nas ruas para trabalhos forçados, com castigos de chicotadas.

Terra - Os nazistas aprisionaram os judeus da cidade de Lodz em um gueto. Como isso aconteceu?

Abraham - O gueto, o primeiro do século XX, foi instalado em um bairro miserável, que foi cercado com arame farpado. Ninguém podia sair do gueto. No primeiro ano, o inverno era tão rigoroso, a temperatura chegou a mais ou menos -30°C, e as condições eram humilhantes. Várias famílias compartilhavam a mesma moradia, sem qualquer higiene, não tinha banheiros lá dentro, só na rua. A gente desmontava cercas de madeira para se aquecer. Basta dizer que, no primeiro ano, no nosso gueto, onde foram encarcerados 162 mil judeus, quase 25 mil morreram em um ano. No ano seguinte, as condições melhoraram, pois os alemães instalaram fábricas para seus uniformes, para seus armamentos e outras coisas no gueto. Os homens e mulheres eram obrigados a trabalhar desde os 10 anos de idade até os 70, 80 anos. Em 1942, os alemães exigiram que a liderança do gueto escolhesse 20 mil judeus, diziam que iam trabalhar. Mas era tudo um engano, eram todos condenados à morte. Cercaram o gueto outra vez, era proibido sair das suas casas, por oito dias, sem quaisquer mantimentos. Fomos encarcerados.

Terra - Como as tropas nazistas escolhiam e matavam os judeus aprisionados?

Abraham - Alemães cercavam bairro por bairro, mandavam todos descer e, conforme o aspecto da pessoa, principalmente jovens, crianças e velhos eram levados e mortos. Eram mandados a um lugarejo ermo, situado mais ou menos a 60 km de Varsóvia, onde lhes esperavam caminhões fechados como de mudanças, mas os gases do escapamento eram canalizados dentro da carroceria, e até chegarem à vala comum, todos já haviam sido asfixiados. Depois, as condições do gueto melhoraram um pouquinho, porque todo mundo era obrigado a trabalhar 12 horas por dia, sete dias por semana, nas fábricas. A fome era tremenda, a gente sofria com fome e frio.

Terra - Como o senhor saiu do gueto e foi mandado a campos de concentração nazistas?

Abraham - No verão de 1944, quando as tropas soviéticas chegaram a Varsóvia, o gueto deveria ser liquidado. Os alemães prometiam que iríamos trabalhar no campo e teríamos melhores condições de vida. Mas ninguém acreditava. Então, os alemães outra vez entraram no gueto e cercaram uma rua atrás da outra, um bairro depois do outro, retirando as pessoas e mandando a um lugar desconhecido. E eu, com minha mãe, também fui mandado para lá. Vagávamos nos trens, nos vagões fechados, alguns com carga, sem higiene, e pensávamos que íamos trabalhar nas fábricas de sabão. Depois de retirados a chicotadas e gritos dos vagões, fomos separados em três grupos: homens, mulheres e inaptos para o trabalho, que eram velhos, crianças, mulheres grávidas e mulheres que não quiseram se separar de suas crianças. Esses foram diretamente para a morte. Os outros passaram pela seleção e iam para trabalhos forçados ou para a câmara de gás. As pessoas eram asfixiadas nas câmaras de gás e, depois, queimadas nos crematórios. Os alemães aproveitaram tudo, cortaram cabelos das mulheres, cortaram os dedos para tirar anéis, depois cremaram e as cinzas eram enviadas à Alemanha como fertilizante. Eu, pela última vez, vi minha mãe, e soube depois que ela foi para o crematório, para a câmara de gás. Passei duas semanas em Auschwitz, onde fiquei até a primavera de 1945. Com a aproximação das forças aliadas após a invasão da Normandia, o nosso campo foi desativado e fui enviado a outro campo. Quando fui libertado, eu pesava 28 kg, um esqueleto humano coberto com pele, estava com tuberculose dupla e outras doenças.

Terra - O que aconteceu após sua libertação?

Abraham - Passei mais de 10 meses nos hospitais aliados cuidando das minhas doenças. Naquela época, não tinha antibióticos, e eu sarei sem deixar vestígios da tuberculose, como milagre. Eu jurei, naquela época: caso Deus me permitisse sobreviver à guerra, contaria para o mundo o meu testemunho e tudo que presenciei. Naturalizei-me brasileiro e trabalhei em várias capitais no Brasil, como jornalista e colaborador de vários jornais.

Terra - Qual a importância de ensinar o Holocausto nas escolas?

Abraham - É muito importante ensinar principalmente às novas gerações o que um regime totalitário inescrupuloso como foi o de Hitler pode produzir em sua própria nação. Hitler foi eleito nas eleições livres e democráticas. Depois, assumiu o poder ditatorial. Assim, é preciso alertar em quem votar, para não sermos iludidos com essas demagogias baratas como aconteceu com o povo alemão, que, até Hitler chegar ao poder, era o povo mais civilizado do mundo. O Holocausto nunca pode ser esquecido pelo mundo inteiro. Foi um massacre lícito finalizado pelo governo alemão daquela época que tirou a vida de todas as raças consideradas inferiores, iniciando pelos judeus e ciganos. Porque foram mortos nas câmaras de gás 6 milhões de judeus, em fuzilamentos em massa e também meio milhão de ciganos. É preciso aprender a história do passado para viver no presente e enfrentar o futuro com cabeça erguida.

BEN ABRAHAM, SOBREVIVENTE DO HOLOCAUSTO

MORRE AOS 90 ANOS

Folha de S.Paulo, 10 de outubro 2015

A dois meses de completar 91 anos, o escritor e sobrevivente do Holocausto Ben Abraham morreu nesta sexta-feira (9) em São Paulo.

Natural de Lodz, na Polônia, Abraham nasceu em 11 de dezembro de 1924, com o nome de Henry Nekrycz. Em setembro de 1939, os alemães chegaram a Lodz e prenderam todos os judeus em um gueto cercado. Aos 14 anos, ele acompanhou fuzilamentos em massa, enforcamentos coletivos e massacre de crianças.

Seu pai escapou dos caminhões transformados em câmaras de gás para os quais Abraham viu amigos serem levados, mas não sobreviveu à fraqueza causada pela fome no gueto, em 1942. "Minha mãe dizia que ele teve sorte, pois ao menos teve um enterro judeu [no gueto]", lembra em uma de suas entrevistas à Folha.

Sua mãe não teve. Com Abraham, foi levada ao campo de concentração de Auschwitz, de quem se separou já na chegada. "Despedi-me pedindo que Deus nos ajudasse a sobreviver à guerra para nos reencontrarmos. Nunca mais a vi. Uma mulher que trabalhava junto com ela disse que foi enviada pelo [cientista nazista Josef] Mengele para a morte."

Durante a guerra, Abraham passou duas intermináveis semanas por Auschwitz durante a guerra até ser "comprado" por uma fábrica alemã de caminhões.

Palavras-chave:
Associacao Mundial dos Sobreviventes do Nazismo; Auschwiz; Escritor; Josef Mengele; Lodz; Polonia; Sherit Hapleita;