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BALONYI, Kirsten

RG:
TES/121

Nacionalidade:
Dinamarquesa

Naturalidade:
Aarhus

Data de Nascimento:
25/09/1931

Entrevistado por:
Maria L.T.Carneiro, Rachel Mizhari e Lilian Souza

Data da entrevista:
08/08/2011

Cidade da entrevista:
Sao Paulo

Transcriado por:
Lilian Souza

História:
Meu nome é Kirsten Herløv Balonyi Follmann. Nasci em 25 de setembro de 1931, em Aarhus, a segunda cidade mais importante da Dinamarca. Ainda guardo comigo um desenho da antiga residência da família Herløv em Aarhus, de autoria do meu avô, o engenheiro Peter Henrik Herløv cujo original está sob a guarda de um museu da cidade. Meus pais se chamavam Marie e August Osvald Herløv e meu irmão Ule Herløv sendo três anos e meio mais velho que eu. Meu pai, nascido em 1896, era responsável por uma agência marítima. Durante a madrugada ele controlava a entrada e saída de navios da baía. Ele chegou a negociar minérios de cobre no Chile e passou dois anos no Congo. 
Entre 1925 e 1934, meus pais viveram na Polônia, portanto antes da Segunda Guerra Mundial,  porque papai foi contratado pela Polish Ocean Line , companhia de engenharia, para estudar o espaço apropriado para a entrada de navios de maior porte, de luxo, no porto de Dantzig (Polônia). Desse porto saiam os navios de passageiros em direção à Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Quando íamos voltar para a nossa casa na Dinamarca, ofereceram a meu pai o cargo de Diretor da Companhia mediante a aceitação dele assumir a cidadania polonesa. Meu pai recusou, pois não queria deixar de ser dinamarquês. Em 1931, minha mãe grávida, já havia retornado à Dinamarca, onde nasci, em 25 de setembro daquele mesmo ano, eles sempre passavam as férias na Dinamarca, por isso nasci lá. E a partir de 1935 mudamos eu, meu irmão e os meus pais definitivamente para Aarhus. Os meus pais eram luteranos e tinham muitos amigos judeus e não judeus. 
Eu era ainda uma menina de nove anos quando presenciei juntamente com meu irmão Ule a invasão dos nazistas da nossa cidade. Os nazistas invadiram a Dinamarca em 9 de abril de 1940. A invasão foi pelo sul, terra fronteiriça com a Alemanha, foi um susto muito grande, o ataque alemão à Dinamarca não era esperado, pois o país se declarara neutro na guerra. Os dinamarqueses detestavam os alemães que haviam tomado suas terras e, não entendiam suas discriminações contra os judeus, considerados pelos dinamarqueses como cidadãos e compatriotas. Não estávamos preparados para a guerra, tanto que, nossas armas e uniformes eram da primeira grande guerra. Não tínhamos condições de resistir. Sob os alemães vivemos com dificuldades. Nada se podia comprar sem os vales liberados pelas autoridades nazistas.  
As notícias sobre o conflito eram acompanhadas por meus pais que costumavam, ouvir às escondidas, a BBC de Londres pois os meios de comunicação foram tomados pelos nazistas. Meu pai, desde o início, juntou-se aos amigos do Clube de Esportes e, assim, organizaram um grupo de oposição aos nazistas. O escritório de meu pai – localizado na sede da agência marítima que ficava junto ao cais do porto em Aarhus - servia como local de encontro e ali eles dispunham de toda a aparelhagem para o trabalho clandestino e de espionagem sobre a ação dos alemães no local. Meu irmão o ajudava na distribuição de folhetos, impressos no escritório que dispunha de máquinas para este trabalho [mimeógrafos]. Esses impressos informavam sobre as ações dos alemães na Dinamarca e também transcreviam notícias que eram captadas pelo rádio através da BBC de Londres.
Infelizmente não me recordo dos nomes desses amigos do meu pai. Nós não sabíamos que era um grupo de oposição aos nazistas. Muitas vezes no domingo, a gente ia passear de bicicleta, a gente morava pertinho da floresta em Aarhus e íamos duas três famílias, com as crianças todo mundo de bicicleta, e nessa floresta tinha a força alemã que fez uns bunkers e montaram uma estação de rádio lá, como meus pai e os amigos  dele conheciam cada galho daquela floresta, e as florestas de lá não são tão densas como aqui, então eles espionavam, não podiam chegar muito perto porque era proibido, mas de longe o meu pai e os amigos dele podiam ver. 
Eu não distinguia a origem religiosa dos meus amigos, colegas de escola. Todos eram dinamarqueses, judeus e não judeus. Somente começamos a perceber essas diferenças com as ordens expressas dos nazistas. O uso da estrela amarela no dia marcado surpreendeu aos alemães. Todos, a começar pelo rei, Cristiano  X, usaram a estrela costurada na roupa, recomendada apenas para distinguir os judeus dos demais. Isto aconteceu em Kopenhagen. Foi o protesto dos dinamarqueses contra o antissemitismo imposto pelos alemães, tomando o rei como exemplo.
O rei Cristiano X era muito querido pela população e costumava passear pelas ruas, cumprimentando pessoas. Diante daquele protesto, os nazistas se conscientizaram que não poderiam mexer com as pessoas e que o confronto com os judeus seria difícil. Os dinamarqueses fizeram oposição aos nazistas, desde o início. 
Nossa escola foi ocupada e foi transformada em um hospital, isso foi mais pra frente, lembro-me de ter ido às aulas em diferentes escolas e em diferentes horários. Brincava com minhas amigas, judias e não judias indiferente as suas opções religiosas. Mas, pouco a pouco, minhas amigas judias, foram desaparecendo e eu não sabia por quê, muitas foram dentro de um curto período “viajando” e muitas foram escondidas em fazendas... o caminho mais fácil era a Suécia que era neutro. Depois, vim saber que elas, simplesmente, passaram a ser escondidas em fazendas, expressando assim, e mais uma vez, a solidariedade do povo dinamarquês para com os judeus perseguidos pelos nazistas.
Como a Suécia havia se declarado neutra na guerra, os barcos dinamarqueses passaram a transferir, clandestinamente, sua população de origem judaica para aquele país, era muito perto, da costa de Kopenhagen a gente via a Suécia. Era uma ação não muito fácil, mas era rápido e foi acionada pelas frentes de resistência local. Sabemos que o diretor e professores da nossa escola organizavam essas viagens, era um grupo bem organizado. Eles fiscalizavam o horário de entrada dos navios alemães (sempre pontuais) e nos intervalos providenciavam a passagem em direção a Suécia. Aage Berthelsen era um dos professores que colaborava, ele chegou a ser reitor em 1947, essa era a escola mais antiga de Aarhus, com cerca de 800 anos, se chamava Cathedral School. Todo mundo sabia disso e escondia as pessoas que estavam perigo, os dinamarqueses já estavam com raiva dos alemães, esse sentimento de injustiça levou alguns anos para passar. Depois, o reitor Berthelsen foi homenageado em Israel, onde se tornou “cidadão honorável”.                 
O grupo de oposição aos nazistas, no caso uma frente de resistência era bem estruturado. Escondiam as pessoas, razão pela qual nós sabíamos que todos os nossos amigos judeus “desapareceriam”. Na minha cidade foi construído um campo de concentração onde meu pai ficou logo após ter sido preso pelos nazistas em agosto de 1944, pois descobriram que ele participava de grupo de resistência. Vários de seus colegas foram presos. 
Meu pai, por falar várias línguas, era muito visado. Ele foi procurado e preso pelos nazistas logo pela manhã. Eu presenciei o dia que levaram ele, era cedo eu ouvi vozes, eu dormia em um quarto do lado da sala e abriram e examinaram a casa toda, eu sabia onde tinha papeis que eles não podiam encontrar, de um lado eram jornais que passavam o que acontecia na guerra, que eles produziam, imprimiam e distribuíam, e tinha um certo estoque em uma gaveta de uma cômoda, mexeram em tudo, mas eu fiquei ao lado da cômoda porque eu pensei se alguém começa a mexer eu posso desmaiar... fingir ou fazer alguma coisa, eu fiquei, isso foi na sala de jantar. E minha mãe falava fluentemente alemão ela disse “eu suponho que meu marido não vai receber nada para comer quando ele vá embora com vocês, então eu vou fazer um breakfast para ele” assim de uma maneira bem agressiva, ela foi fazer, nos comíamos todos os dias mingau de aveia, e ela disse “tem mais alguém que quer mingau de aveia?” dai o oficial torceu o nariz “mingau de aveia!” e a minha mãe disse a ele “eu acho que uma boa porção dos seus compatriotas estaria muito feliz em ter um prato de aveia”. Eram três soldados, e eles levaram embora meu pai. Os outros amigos do grupo dele foram presos, e dai ficávamos sabendo noticias das esposas dos outros presos.
No mesmo dia, vários dinamarqueses foram presos e enviados ao campo de internamento  [Frøslevlejren],  hoje transformado em museu, o Frøslev.  
 De lá, vários os prisioneiros foram encaminhados para a Alemanha.  A maioria dos judeus dinamarqueses não foram encaminhados para este campo, pois felizmente desde o início da invasão nazista foram levados, clandestinamente, para a Suécia. Somente após o final da guerra, é que esta informação foi divulgada. 
Meu pai foi liberado eu acho que em março de 1945 porque ainda era inverno. Durante o período que esteve na prisão nada contou sobre os seus companheiros, nem como foi lá, eu deduzo que foi uma coisa muito difícil para ele. Como eu havia quebrado a perna, fiquei hospitalizada. Lembro que meu pai foi visitar-me na enfermaria às três horas da madrugada. Ele havia pedido à enfermeira para que não me contasse nada: tive uma grande alegria ao vê-lo. 
Ele foi para o interior de bicicleta até a fazenda de meu tio Jems, cunhado dele. Ele tinha uma fazenda com gado, loja e padaria, lá foi um bom esconderijo pro meu pai, em 05 de maio terminou a guerra, eu não sei se ele ficou só lá, daí ele voltou para casa. Eu fiquei na nossa casa com minha mãe. 
No dia que o meu pai foi preso, o diretor do banco conversou com minha mãe, colocando recursos à nossa disposição, caso precisássemos meu pai depois pagou, se não fosse isso seria muito difícil. A população dinamarquesa era solidária com os que haviam sido presos. Minha escola foi transformada em hospital. Muitas crianças, mais de cinquenta foram hospitalizadas, inclusive uma amiga querida que também se chamava Kirsten, ela ficou muito fraca e esteve por três semanas no hospital. 
Quando a Alemanha capitulou em 1945, eu e minha amiga fomos correndo ao centro da cidade, perto da Estação de trem que havia sido ocupada pelos nazistas onde, até então, não se podia chegar. Vimos a população queimar as bandeiras nazistas erguidas nos edifícios tomados por eles que, rendidos, colocaram suas armas no chão. Na praça, dois grupos começaram a cantar canções populares dinamarquesas. Nada foi organizado e foi uma manifestação espontânea. Lembro-me que uma dessas músicas, era o Hino Nacional da Dinamarca que cantamos com muita emoção, alem de outras canções cantadas pelos escoteiros. Eu praticava o escotismo desde os nove anos de idade.
Eu e minha amiga Kirsten Brandt fomos juntas ver a capitulação alemã. Na manhã seguinte, iríamos esperar os aliados, às 13 horas, no centro da cidade. Vinham do sul.  À noite, minha amiga sentiu-se mal e nos despedimos. Ela estava febril e eu também não estava bem, as cortinas do meu quarto que dava para a rua, foram abertas, retiradas e incendiadas, pois durante o período da guerra permaneceram fechadas. Lembro-me de ter visto, do meu quarto as chamas que viam das ruas e tudo se iluminavam... Quando acordei, me senti ameaçada. Vomitava muito e minha mãe foi a procura de um médico que pediu a minha internação em um hospital. Uma ambulância veio me buscar. Muitas crianças ficaram doentes. Minha amiga não resistiu e faleceu. Esta foi a minha grande tristeza. Fiquei muito consternada.
As notícias do extermínio dos judeus pelos nazistas começaram a chegar, logo após a capitulação da Alemanha. E só a partir daí é que então entendi porque minhas amigas judias tinham ido viajar. Na realidade haviam sido encaminhadas à Suécia, salvas pelos grupos de resistência. Dentre as famílias das minhas amigas judias, lembro-me dos Melchior. A filha deles assim como eu, era escoteira. Moravam em Kopenhagen. Uma vez cheguei a ficar hospedada com eles por alguns dias. Não soubemos mais nada sobre eles. 
Já adulta, participei do movimento antroposófico de Hugo Steiner e, envolvi-me com a filosofia. Existia uma escola para crianças excepcionais na Suécia, à 60 km de Estocolmo, em Järna. Era mundialmente conhecida. Anos depois, em 1953, vim para o Brasil, à conselho médico. Tinha um problema de saúde, circulatório e fui aconselhada por um médico a procurar um país tropical para me curar. Meu contato no Brasil era com Botil Binnie dinamarquesa, ela morava no Rio, o marido dela se chamava Eric Binnie. Ela era de Porto Alegre, de pai dinamarquês e mãe gaúcha, por isso ela falava várias línguas e ela tinha um filho pequeno e trabalhava muito, ela tinha que ter alguém em casa pra cuidar do filho. 
Fui trabalhar em uma escola que adotara a filosofia de Steiner. Casei-me com Ivan Balonyi, doze anos mais velho que eu, no Rio de Janeiro. Ele era húngaro, de Budapeste e havia sido oficial do exército. Durante a guerra ele foi enviado à Rússia e voltou depois à pé ao seu país.  Meus sogros chegaram em 1955, depois de terem perdido tudo na Hungria. Ele faleceu em 1987. Nossa filha Astrid, que hoje mora aqui em São Paulo ela nasceu em 1959. Meu segundo casamento foi com Eugênio Viktor Follmann, e residimos em Mairiporã.

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Aarhus; Alemanha; antroposofia; BBC; Cathedral School; Chile; Cristiano X (rei); Dantzig; Dinamarca; Estados Unidos; estrela amarela; Froslev (campo de concentracao); Hugo Steiner;
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